Arcanos Maiores

Arcanos Maiores
Tarot de Marselha

domingo, 29 de agosto de 2010

O Tao e o Tarot




O MAGO – I.

Conforme a tradição oculta, esta lâmina representa habilidade, diplomacia, astúcia, vontade, energia e poder. No mundo divino exprime o Ente Absoluto, que tudo contém e de onde emana o infinito dos possíveis; no mundo intelectual, a Unidade, princípio dos atos; e no mundo físico, o homem, o mais elevado dos entes relativos, destinado a elevar-se, por uma perpétua expressão das suas faculdades nas esferas concêntricas do Absoluto.

Sua energia é dirigida para os objetos à sua frente, que ele separou para dar-lhes atenção especial. Estão colocados sobre a mesa da realidade que lhe restringirá a atividade dentro de seus limites para que sua energia não extravase e não lhe fuja. Diante dele está o copo que simboliza “a mistura das paixões que contribuem para a felicidade e a infelicidade, conforme formos  seus senhores ou escravos”; a espada ou faca, que significa “o trabalho, a luta que atravessamos, os obstáculos e as provas que a dor nos faz sofrer”; o siclo, moeda de ouro de um determinado valor, representa “as aspirações e as obras realizadas, “o poder conquistado pela perseverança e a eficácia da vontade” e “a futura ascensão deste poder nas esferas do futuro”.  Ele evidentemente tem um plano, está pronto para fazer alguma coisa. É representado de pé; “atitude da vontade que está para agir”. Ele manipula sua varinha mágica, sinal de “aspiração à Ciência, à sabedoria, e à força”. O sentido oculto deste Arcano é “anunciar que uma firme vontade e a fé em ti mesmo, guiadas pela razão e o amor da justiça te levarão ao fim que queres alcançar e te preservarão dos perigos do caminho”

O Mago simboliza o fator que dirige as energias do inconsciente e ajuda a compreende-las e humanizá-las. Sua varinha mágica (Caduceu) liga-o ao seu arquétipo, Hermes, o deus das revelações. Como o alquimista Mercúrio, que possuía poderes mágicos, o Mago através da transmutação psíquica pode iniciar o processo de autocompreensão denominado individuação, e guiar o consulente pelo mundo inferior do seu “eu” mais profundo (o self). Desde a antigüidade, através da invocação de ritos mágicos o homem sempre reconheceu a existência de um poder interior que transcende o ego.

O Hermes Alquimico

Considerado na mitologia grega o aperfeiçoador da arte da adivinhação, Hermes auxiliava-se para a leitura do futuro de pequenos seixos ou runas. Criador, segundo o mito, da lira e da flauta, sua precocidade extraordinária permitiu que logo ao nascer roubasse parte do rebanho de Apolo, tendo amarrado ramos de folhas na cauda dos animais, para que à medida que andassem fossem apagando os próprios rastros. Apolo após descobrir as artimanhas do deus ficou  seu amigo  e trocou de bom grado os bois faltantes pela lira com Hermes e posteriormente a flauta pelo Caduceu de ouro, um dos seus atributos conhecidos. Na vara mágica de Hermes, duas serpentes se entrelaçam, formando no alto um arco. É encimada por duas asas. A partir do séc. XVI foi adotada como símbolo do comércio pelas corporações. Zeus satisfeito com suas habilidades, fê-lo seu arauto, e mensageiro consagrado ao seu serviço particular e ao dos deuses infernais, Hades e Perséfone. Era o deus dos comerciantes e dos ladrões. Guiava os viajantes nas estradas. Sua imagem era colocada nas encruzilhadas, em forma de pilares, cuja parte superior era conformada como um busto humano. Também protegia os pastores, e freqüentemente o representavam levando um cordeiro aos ombros. Outra de suas funções era conduzir as almas dos mortos aos Infernos, quando então se chamava Psicopompe, o Acompanhante das Almas. Atribui-se a Hermes a paternidade de Autólico, avô de Ulisses, que teria herdado do pai a arte de roubar com sutileza. As imagens de Hermes o mostravam calçado de sandálias com asas, com um chapéu de formato especial, o Pétaso, e levando na mão o Caduceu, símbolo de suas funções de arauto. Diz-se que era o mais ocupado dos deuses.


O talento do Mago para o milagre e para o engano é múltiplo. Dirigindo nossa atenção para longe da moeda de ouro, pode iludir-nos e confudir-nos com sua prestidigitação. Como a própria consciência humana, um aspecto da qual simboliza, o Mago cria Maya, a ilusão mágica das “dez mil coisas”. Pois fazendo desaparecer os objetos sobre sua mesa, dramatiza a simples verdade de que todo objeto, tudo é apenas aparência de realidade. É ele quem cria o mundo que parece existir. Transformando um objeto ou elemento em outro, revela outra verdade; a saber, que debaixo das “dez mil coisas”, todas as manifestações são uma só; todos os elementos são um só; e todas as energias são uma só.

Hermes Trimegistus

Antigamente acreditava-se que só os deuses e seus sacerdotes tinham tal poder mágico. Uma destas figuras foi Hermes Trimegisto, figura mítica variavelmente associada ao deus egípcio Thot e ao deus grego homônimo no sincretismo dos antigos. De seu nome que simboliza a tríade sagrada, o Três-Vezes-Grande, emana a origem do conhecimento sagrado esotérico, a alquimia, a magia e a astrologia, as três grandes artes ocultas desenvolvidas no ocidente. Os egípcios atribuíam a Toth a invenção da escrita, deixou 42 tratados sobre astrologia, medicina, política, cosmologia, geografia, cerimonias religiosas rituais e hinos, daí sua reputação de sábio.  Foi dele o resumo sucinto do tópico ora discutido: “Todas as coisas são deste Um, pela meditação do Um, e todas as coisas tem sua origem neste Um.” Como já se indicou, isso expressa uma observação tanto no plano macrocósmico quanto no plano microcósmico da existência.

Toth

A magia é ás vezes chamada ciência das relações ocultas. Seja ela milagre ou truque, uma base essencial  desta arte é a revelação. O Mago tem o poder de revelar a realidade fundamental, libertar o estado de ser que constitui a base de tudo. Revelando assim um aspecto da humanidade, realizador de prodígios, que pode adivinhar as fontes ocultas da vida e abri-las para seu uso criativo.

Compreende-se que o Mago que vive nas profundezas, no nível psicóide do inconsciente, onde não existem divisões de tempo, espaço, corpo e alma, matéria e espírito, tenha o poder de colocar-nos em contato com a grande Unidade. Mas este grande vácuo que contém o Todo de que tudo nascerá, contém, por força, todos os opostos. Como sábio pode realizar grandes milagres, e como embusteiro pode ser encontrado na feira da aldeia, onde aproveitaria para confundir os espíritos inocentes, e até fazer desaparecer o dinheiro deles. É um consolo saber que sendo descendente do astuto Mercúrio, herda-lhe honestamente a duplicidade. Como Mercúrio, mensageiro dos deuses, liga o interior ao exterior, o acima e o abaixo, compartilhando da energia dos mundos.

Os desenhos dos remendos coloridos alternados das vestimentas do Mago representado no Tarot  de Marselha, parecem deliberadamente  dispostos para sugerir, a um tempo, oposição e interação, contraste e coordenação. Cada pé, perna, quadril e ombro parecem vestidos com um pouco caso estudado pelas cores do membro oposto. Suas cores vibram distinta e alternadamente de repulsão e atração, como carregadas de especial energia.

O tema da antítese criativa é ainda mais reforçada na aba do chapéu do Mago que chama-se “lemniscata”, sinal matemático que representa o infinito. Como retratado, a curva do contorno da aba do chapéu, quase hipnótica, denota o movimento dos opostos, cada qual fluindo em direção ao outro, como no símbolo chinês Tai Chi, que mostra a incessante oposição e interação de Yang e Yin, as forças positiva e negativa inerentes a toda a natureza. Ao aproximarmos o desenho da aba do chapéu de uma vela numa noite sem luar, ele a fará mover-se para o observador. Vista assim, ela se torna o movimento perpétuo da criação.

Falamos da natureza ambígua do Mago; de como, de um lado, ele pode pôr-nos em contato com o grande círculo da Unidade e de como, de outro, pode ajudar-nos a separar-lhe os elementos para exame, tudo ao mesmo momento. É o “espírito criador do mundo”, e no entanto, está “escondido e aprisionado” nas sombras da nossa inconsciência. Para que funcione como “substância transformadora” precisamos encontrar meios de libertá-lo do cativeiro e trazê-lo para fora, para a luz da percepção consciente.

Precisamos encontrar maneiras de libertar o nosso espírito aprisionado de modo que possa funcionar como “substância transformadora” com o poder de alterar o nosso mundo interior e afetar o exterior. Necessitaremos da sua ajuda para encontrar o caminho através da escuridão da natureza interior e desvelar afinal o “eu”, o sol central do ser eclipsado na escuridão, de maneira que possa iluminar de forma nova. Na medida que atingirmos nossa meta, como indivíduos, transformaremos nossa própria natureza humana.

Através da interação entre a consciência humana e os primitivos arquétipos o inconsciente humano pode se mover em direção da luz e a qualidade da própria consciência humana pode evoluir lentamente na direção da percepção ampliada. Chegamos a compreender então que a psique, como o corpo humano, não é estática e à semelhança de todos os fenômenos naturais, são processos em evolução contínua e diretamente interligados. Deixamos assim de pintar a Criação como um momento fixo, quando o Criador Supremo “fez ou disse” aquilo para todo o sempre. Ao contrário, encaramos a Criação  como um acontecimento contínuo, eterno diálogo, entre nosso pequeno mágico interno (o self ) e Deus, o grande Mago (o Self ).

O Mago do Tarot de Marselha, com seu colorido energético e seu chapéu em forma de lemniscata simboliza este processo. Esta transformação incessante  e permanente pela qual as coisas se  constróem  e se dissolvem noutras coisas e também se reflete no simbolismo do número do Mago, a unidade, associada ao Yang, ou poder masculino. Leve brilhante e ativo, está associado também ao espírito e ao céu. Entretanto seu próprio conceito torna-se relativo, pois supõe outro. A idéia do Um só pode ser experimentada em relação, pelo menos, com um outro. A unidade representa a consciência do homem, ligando como antena o céu e a terra. Mas a consciência supõe uma dualidade – observador e observado. É como se, escondido na costela de nosso Mago, estivesse já contido o princípio feminino, cujo número é dois. Como o “peixe” branco Yang do símbolo do Tai Chi traz os olhos escuros do seu equivalente, assim, engastado no espírito puro do Mago, está em ponto preto a ambivalência feminina.

A capacidade mágica de transcender as restrições do tempo sempre pareceu de um gênero particularmente divino. O Mago a demonstra de várias formas. Primeiro, como vidente, traz para a realidade presente idéias e potencialidades que jazem escondidas “no futuro”. A capacidade de adivinhar é divina pois através dela, tocamos o mundo eterno da divindade.

Outro modo de exercer sua magia é através da capacidade do Mago em acelerar processos naturais em aparente desafio às leis do tempo. Como um ferreiro acelera a transformação de metais aumentando o calor, o Mago pode efetuar transformações da consciência aplicando o calor do envolvimento emocional.

A magia da consciência humana é uma faca de dois gumes. Podemos usá-la para transmutar um novo mundo ou para abrir a caixa de Pandora, cheia de demônios escondidos e destruir tudo a volta. A tentação de abusar do poder, visto que seus poderes são tão primitivos, faz no Mago especial impressão. É talvez o reconhecimento deste fato que a besta do Mago seja retratada na lâmina número quinze, onde a conheceremos como a sombra do Mago, seu contrário, o adversário, o Diabo.

A sombra, figura que aparece em sonhos, fantasias e na realidade externa, personifica atributos que preferimos não pensar que nos pertencem, porque admitir sua existência seria deslustrar a imagem que temos de nós mesmos. Por isso muitas vezes projetamos sua imagem negativa em outras pessoas. Este ser parece estar sempre visitando nossos sonhos, perturbando a atmosfera ao dizer ou fazer coisas inadequadas ou até positivamente diabólicas. Na realidade externa, este ser sombrio projetado age, inquietante. Quase tudo o que diz ou faz exaspera-nos. Até sua observação mais casual tem o condão de mexer com nossos nervos, que ele inflama durante dias, semanas e até meses. Vivemos envolvidos emocionalmente com essa indesejável personalidade. Na maioria das vezes o ser sombrio que nunca mais queremos ver, continua aparecendo persistente e irracionalmente, em nossa curta existência terrestre.

Que este ser sombrio possa ter alguma utilidade é coisa de difícil compreensão, mas se formos ele e nós persistentes, descobriremos sua utilidade ao nosso bem estar, de muitas formas.

Em primeiro lugar, seu atributo é manter escravizadas durante a mágica da projeção não só características negativas mas também muitas potencialidades positivas e transformadoras. E, como logo descobrimos, ao reivindicar essas boas qualidades como nossas, teremos de aceitar também as negativas. Chegar a conhecer e aceitar a nossa sombra como um aspecto de nós mesmos é um importante primeiro passo no sentido do autoconhecimento e da inteireza. Sem a nossa sombra continuaríamos sendo apenas seres bidimensionais, sem conteúdo ou substância.

Ampliar nossa percepção no sentido de admitir a sombra como membro da nossa família interior, permitir que venha a luz do nosso conhecimento, este habitante da escuridão da nossa própria
inconsciência, é difícil. Mas à medida que lhe permitimos sair aos poucos à luz começamos a descobrir que até suas qualidades mais inquietantes parecem menos escuras e o seu peso é menos difícil de suportar.
A medida que nossa luz atinge o zênite, e suas formas forem incorporadas em nós, permite-nos dizer “nada existe dela”. Entretanto na nossa totalidade vital, à proporção que as energias, anteriormente destinadas a resistir ao seu poder, aos poucos se tornam disponíveis para um emprego mais criativo, encontramos coragem e força para olhar cada vez mais profundamente para o escuro abismo e descobrir legiões de seres ainda mais sombrios.

Faustus

Uma vez que tais seres podem aparecer de muitas maneiras, lutar contra eles é uma batalha sem fim. E, mais uma vez, ficamos enfeitiçados, obcecados, fascinados. Desta vez, porém, agimos com cautela. Antes de permitir que nos atraiam para conversas interiores estéreis, reflexões circulares, fumegantes e emocionadas, podemos enfrentar o Mago interior e persuadi-lo a desistir de pregar-nos suas peças diabólicas. Se o abordarmos com firmeza, mas gentilmente, ele poderá até ajudar-nos a resgatar a parte de nós mesmos perdida  entre nossas sombras pessoais.

Faustus no Circulo Mágico

Nem a criatividade sobre-humana do Mago, nem a infra-humana destrutividade do Diabo nos pertencem pessoalmente. As duas figuras arquetípicas representam tendências instintuais cujos plenos poderes estão acima e além do nosso conhecimento mortal e no plano do inconsciente coletivo da humanidade. Cada vivente possuí um pouco da magia da consciência e, na medida que temos esse tipo de poder, somos tentados a abusar dele. Resistir a tentação demoníaca requer alto grau de disciplina e autoconhecimento.

A correspondência do mundo interior com o exterior já não pode ser considerada apenas analogia: tornou-se fato provado, cientificamente. A conexão intuída  pelos alquimistas, místicos, e poetas de muitas culturas diferentes, entre espírito e matéria, expressa de modo metafórico, é na verdade, conforme os cientistas comportamentais, muito mais direta e real do que foi imaginado até agora. A idéia alquímica de que nosso Mago interno é um “espírito criador de mundos” foi demonstrada de tantas maneiras que hoje significa muito mais do que mera liberdade poética.

Estamos lidando com um mundo que, experimentamos como “externo” e “interno”.  A dualidade do nosso intelecto está ainda tão arraigada que essas revelações parecem mágicas. Sabemos hoje que a correspondência entre os dois aspectos da realidade única tenha revelado-se científica e matematicamente exata pela física contemporânea.

Na busca de uma ordem universal do cosmo, cálculos matemáticos dos cientistas tem confirmado no plano físico sua realidade, como se, no nível psicóide, os padrões arquetípicos do mundo interior correspondessem  exatamente aos da realidade externa.

Tais fenômenos ocorrem com freqüência em nosso cotidiano sendo na maioria das vêzes relegados ao plano da casualidade. Sonhamos ou pensamos em determinado amigo,  ou situação e eis que surge na frente do intuitivo a pessoa ou fato intuído, demonstrando total conexão do mundo externo com o interno.

Sincronicidade é o termo utilizado para designar as coincidências entre estados  internos e eventos externos. É o Mago interno o responsável pelas erupções do mundo Unitário no nosso cotidiano de espaço e tempo, causa e efeito. 0 mesmo acontece quando pensamos em determinado arcano do Tarot e surpreendentemente o descobrimos como a primeira carta do baralho, fato que ocorre com freqüência. Toda a vez que tais eventos irrompem em nosso ordenado e lógico mundo, o impacto sacode nosso espírito para outras realidades e significados mais profundos. Estas experiências tem maior probabilidade de ocorrer, conforme os especialistas, na vizinhança de acontecimentos arquetípicos, como morte, perigo mortal, catástrofes, crises, sublevações, etc.


O Mago interno pode auxiliar-nos a ter consciência das visões de poder, vingança, cupidez, ou seja lá o que existe realmente dentro de nós; de maneira a confrontarmos tais aspectos mentais negativos com um ponto de vista mais consciente. Pode também ajudar-nos a descobrir nossas fantasias criativas e trazê-las à realidade. Deste modo, o consciente e o inconsciente se relacionarão de forma significativa. Sendo ao mesmo tempo a vontade do homem e a intenção divina, o Mago cria a confusão e nos guia através dela. Pois é através da consciência que nos enredamos no mundo das coisas e das categorias, e é através da consciência que nos libertamos das suas confusões. O Mago pode ser definido como a encarnação de uma conexão mais consciente entre o self  consciente e o Self  interior.

O Mago ajuda a envolver-nos no mundo dos sonhos. Coloca nossos sonhos impossíveis sobre a mesa a fim de examiná-los e ajuda a fazer com que se realizem. Na medida em que nosso Mago interior nos tornar conscientes dos sonhos que sonhamos, nossos pesadelos nunca precisarão acontecer.


O Tao te ching, milenar obra escrita por Lao Tzu, possui entre muitos, um verso para definir nosso Mago interior. Suas palavras, ecos de um passado de sabedoria e estudo, continuam atuais no seu sentido mais amplo. O segredo está em viver sem permitir a separação da alta alma “sensível” do corpo físico. A vida atual leva o homem à alienação e ao acomodamento. O corpo, incentivado pelos apelos sensoriais externos, torna-se soberano, enquanto o espírito, sem condições de expressão, vinga-se compensando com neuroses e doenças mentais o indivíduo. O Tao expressa que é possível controlar a vida, que manifesta-se como uma fonte subterrânea a procura de uma brecha para subir a superfície. A criança recém nascida expressa o renascimento conforme nos falam as religiões de mistérios da antigüidade. As visões misteriosas nascem da nossa imaginação e se projetam em ilusões, deformando a percepção da realidade. Mas através de nossa purificação interior é possível sentirmo-nos sem mácula e acabar com a tolice de querer obter respostas para o Mistério. 




A Qualidade Misteriosa

Mantém a alma sensível e o corpo animal numa unidade
para que não possam separar-se.
Controla a força vital, a fim de que te transformes 
novamente uma criança recém nascida.
Quando afugentares as visões misteriosas
de tua imaginação, poderás então tornar-te sem mácula.
Purifica-te e não procures resposta intelectuais
para o Mistério.
Amando o povo e governando o Estado, poderemos 
deixar de agir? 
Quando se abrem e fecham os portões do Céu,
conseguiremos desempenhar
o papel feminino?
Quando o discernimento penetra as quatro regiões
talvez não conheças aquilo que dá vida e a sustém.
Aquilo que dá vida não reclama qualquer posse.
Beneficia, mas não exige gratidão 
Comanda, mas não exerce autoridade.
Eis a chamada “Qualidade Misteriosa”.


   
A PAPISA – II.

Conforme a tradição oculta, esta lâmina significa segredo, mistério, ciência. O Arcano exprime no mundo divino, a ciência do Ente Absoluto que compreende os três termos de toda a manifestação: o passado, o presente, e o futuro. No mundo intelectual, o binário, reflexo da Unidade; a Ciência, a percepção das coisas visíveis e invisíveis. No mundo físico, a Mulher, que complementa o Homem, e se une a ele para realizar igual destino.

Personifica as qualidades de Ísis, figurada por uma mulher assentada na entrada do templo, simbolicamente representando a Ciência Oculta que aguarda o iniciado à entrada do santuário, para comunicar-lhe o segredo da Natureza universal. Significa o arcano da Virgem: “o espírito puro e sua luminosa ascensão acima da matéria” e em contraposição: “a prisão do espírito impuro nos laços da matéria”. Ela exprime “a fecundação da matéria pelo espírito”, indica que “a verdade foge aos olhares de uma curiosidade profana”. O livro pontifical que carrega significa que “os Mistérios só se revelam na solidão, ao sábio que se concentra em silêncio na plena calma e posse de si mesmo”. Seu sentido oculto divinatório aconselha: “bate resolutamente na porta do futuro, porque ela te será aberta; porém estuda por muito tempo o caminho em que vais entrar” e “guarda silêncio sobre teus desejos, a fim de não entregá-los às contradições dos homens”

Deusa de grande importância no antigo Egito, Ísis era representada como uma mulher com sinal hieroglífico do trono na cabeça, ou sentada num trono, sozinha ou trazendo ao colo seu filho Hórus. Seu culto teve início provavelmente no baixo Egito, difundindo-se por todo o país e chegando a Grécia e Roma, tornando-se popular em todo o império romano.  Irmã e mulher de Osíris com sua força mágica e com a ajuda do deus Tot, ressuscitou o esposo, que havia sido esquartejado por Seth em quatorze pedaços, remembrando seu corpo dilacerado. Atribui-se a Ísis o caráter de uma deusa protetora. Seu principal aspecto era o de um forte encantamento, superior ao das outras divindades. Invocada contra as doenças, tinha sob seu poder o próprio Anúbis, seu sobrinho, deus da morte. Em sua honra e de Osíris, celebravam-se “mistérios”, cerimônias ao mesmo tempo litúrgicas e licenciosas, ligadas ao culto da fertilidade.    

Na base da estátua de Ísis em Sais, estão inscritas as seguintes palavras: “Sou tudo o que era, que é, e sempre será. Nem mortal algum jamais pôde descobrir o que jaz debaixo do meu véu.” Dela é o mundo da profunda experiência interior em oposição ao mundo do conhecimento exterior. A natureza de sua magia está escondida até mesmo dela. Guardiã do nascimento e do renascimento, ela os guarda mas não os controla.

O mito agrário de Deméter, a Grande Mãe, e sua filha Perséfone na Grécia Antiga abriga grandes semelhanças com o culto egipcio à deusa Ísis e teve grande popularidade entre os gregos. Tanto na Grécia quanto no Antigo Egito os mistérios se apresentam sob a forma de ritos religiosos ou de ações simbólicas que imitam ou indicam os gestos dos deuses ou heróis. Seu objetivo é adquirir uma existência espiritualmente superior neste e no outro mundo. O mito gira em torno da vida e da ressurreição, a partir da observação das transformações da natureza, as plantas que nascem, morrem e aparentemente renascem.  Nas cerimonias de culto a fertilidade em Creta, na Sicília e na Lacedemônia, Deméter era representada inteiramente vestida, sob o aspecto de uma bela mulher, de porte majestoso. Além de uma coroa de espigas de trigo, usava diadema. Nas solenidades faziam-lhe  coroas de mirto ou de narciso, sendo interditas outras flores. Consagravam-lhe a papoula, que cresce no meio do trigo. Sacrificavam-lhe o carneiro e a porca. O mais importante destes rituais dedicados a deusa ocorria em Elêusis, onde a iniciação religiosa era transmitida à maioria dos gregos. Até mesmo Diógenes, o grande filósofo cético, cumpriu esse rito.

Espécie de centro religioso, Elêusis era para Atenas a única via de comunicação possível com o Peloponeso, Mégara, Corinto e Delfos, sendo também o caminho para Tebas e o nordeste. Os eruditos tentam reconstituir os mistérios antigos, mas sómente fragmentos destas cerimonias chegaram até nós. A partir destes estudos imaginam-se assim os Mistérios Demetríacos em Elêusis: Tomava-se parte, primeiro, nos ‘pequenos mistérios’ celebrados na primavera, num subúrbio de Atenas. Os ‘grandes mistérios’ ocorriam a cada dois anos no outono e duravam nove dias, sendo reservados apenas aos iniciáveis. Somente aqueles que participaram dos primeiros mistérios, que podiam falar grego, ou melhor ainda, que nasceram na Grécia, e não cometeram homícidio podiam participar do ritual principal. Todos independente de sua condição social, sexo ou idade, que preenchessem esses requisitos eram iguais perante as deusas. Elas não reconheciam nenhum tipo de hierarquia social. As primeiras cerimonias na Primavera eram purificadoras: limpavam-se os poços e as fontes; as jovens ofereciam sua virgindade aos rios, fazendo neles suas abluções. As mulheres sacrificavam uma porca, símbolo do útero da terra, e a jogavam numa fossa repleta de serpentes. No outono depois de afastar as serpentes com bastões, elas recolhiam a carne apodrecida, e, utilizando pinhas, faziam dela um pó, uma farinha, que era espalhada pelos campos para invocar a abundância.

Para as cerimônias preparatórias figurava uma procissão solene levando a Elêusis os candidatos à iniciação; em uma passagem paródica das Rãs, comédia de Aristófanes, é reconstituída a ambiência fervente, um dos poucos relatos existentes da época. Dioniso, foi o único deus masculino a participar destas festas, sua estatua era conduzida com grande pompa de Atenas à Elêusis. Atrás de sua imagem  era carregada uma corbelha fechada, “a cista”, que continha o “segredo da vida”. Simbolicamente Deméter representava o pão, Dioniso o vinho. Outros relatos informam que no cortejo da primavera a estatua de Hécate, a feiticeira,  precedia a imagem de Perséfone, seguindo-a na procissão do outono. O povo acompanhava a procissão, mas os que não iam participar do ritual se detinham e permaneciam diante do templo. A iniciação propriamente dita tinha por lugar o télestérion, um local que foi muitas vezes ampliado onde se acolhia grande multidão. Ela era submetida a um segredo rigoroso, geralmente difícil de interpretar, só revelado, de forma fragmentária, por alguns autores cristãos, razão do pouco conhecimento do desenrolar exato dos rituais. Havia purificações e meditações; lavavam-se e sacrificavam-se porcas e leitões; mas, depois que os candidatos à iniciação entravam no templo tendo nas mãos três espigas de trigo, nada mais se sabe de preciso. Não recebiam os iniciados um ensinamento esotérico, diz Aristóteles, mas provavam algumas impressões e eram colocadas em certas disposições de alma. A ostentação de objetos sagrados e a celebração de dramas, a execução de gestos rituais e a repetição de fórmulas consagradas ajudavam a alimentar aquela experiência mística, que tinha por finalidade realizar uma união de Deméter com Perséfone, sua filha, mestras da vida e da morte, revelar ao mesmo tempo o sentido de destino e vislumbrar a partir das transformações deste mundo, o bem estar que simbolizasse a antecipação de uma sobrevida bem-aventurada. O grau supremo de iniciação era denominado ‘Epoptéia’, termo que evoca a idéia de visão, de contemplação, e do qual Platão se serviria para designar o ápice da experiência filósofica”. Fora o povo aguardava o toque de um címbalo – que devia corresponder a ‘Epoptéa’ ou iluminação – e o aparecimento das fumaças

Ainda sobre os Mistérios de Eleusis encontramos alguns fragmentos sobre os rituais de iniciação na obra de Theon de Esmirna (séc. II ): “A iniciação é constituída de cinco partes: a primeira é a purificação prévia, pois que não se deve fazer com que participem dos mistérios, indistintamente, todos aqueles que o desejam. Mas há os aspirantes que a voz do arauto afasta, aqueles que tem as mãos impuras, aqueles cuja palavra falta prudência; há ainda aqueles que não estão preparados e devem se submeter a certas purificações. Depois desta purificação, vem a tradição das coisas sagradas ( trata-se da iniciação propriamente dita ). Em terceiro lugar, dá-se a cerimonia denominada ‘plena visão’ ( grau superior de iniciação ). A quarta, que é o fim e o objetivo da plena visão, é a ‘ligadura na cabeça’ e a ‘imposição de coroas’, a fim de que aquele que recebeu as coisas sagradas torne-se capaz de transmitir, por sua vez, a tradição aos outros, seja pela ‘dadouchie’, pela ‘hierofania’ ( interpretação das coisas sagradas ), ou por qualquer outro sacerdócio. Enfim, a quinta, que é o coroamento de todas as precedentes, é ser ‘amigo de Deus’ e gozar a felicidade que consiste  em viver uma comunicação natural com Ele.         

O primeiro culto foi o da terra mãe e o matriarcado a primeira civilização. Na antiguidade, a mulher era vista como único manancial da vida, porque o ato sexual não era considerado ligado à gravidez. Entendia-se que o homem não representava papel algum na concepção. Era até considerado como intruso, uma força destrutiva, como está representado no mito do rapto de Perséfone pelo senhor dos Infernos. Assim o princípio feminino do mistério da concepção personificado em Ísis e outras deidades semelhantes, vieram a ser ligados não só ao nascimento no corpo mas também ao renascimento numa nova dimensão de percepção, que transcende a carne.

No mundo contemporâneo, o sexo é um modelo, entre muitos outros, na experiência humana, para a compreensão dos opostos e sua transcendência final. Através da não-identidade, provocada pela união na relação sexual chegamos a experimentar a força dinâmica dos opostos em nossas entranhas, e através do êxtase da sua reconciliação, percebemos sugestões de uma totalidade que transcende o físico.

No homem, sua psique – seus humores e comportamento – sofre a influência do seu lado feminino, denominado anima. Quando o homem não percebe sua anima, pode ser inteiramente dominado e destrutivamente influenciado por ela. Quando é consciente dela e das suas necessidades, poderá inspirá-lo e conduzi-lo à sua própria totalidade. Nestes termos, a Papisa representaria para o homem um desenvolvimento muito elevado da anima. Simboliza a figura arquetípica que o relaciona ao inconsciente coletivo. Sendo mulher, a Papisa seria uma forma diferenciada de Eros; simboliza a feminilidade, um “eu” espiritualmente desenvolvido.

A deusa mãe é a grande iniciadora, a curadora, aquela da qual emanam todos os oraculos, pois ela simboliza o passado, o presente e o futuro, tudo nela está contido. Sua memória inesgotável, o inconsciente coletivo, é restituída por ela a quem lhe solicita, ela representa a fecundidade espiritual. Mas a deusa mãe pode limitar o espaço, fato do qual decorrem seu lado castrador e o seu culto sangrento.

Astartéia, antiga deusa lunar da Mesopotâmia, adorada pelos fenícios de Tiro e Sidon, representa uma forma mais primitiva do princípio feminino, seu culto incluía até sacrifícios de crianças recém nascidas. Mais tarde, em Éfeso, seu culto – transformado no de Ártemis, a Lua – tornaram-se menos sangrentos. Ergueu-se neste lugar uma estátua que representava uma deusa sentada, coberta com um véu, de asas retorcidas, semelhante a uma abelha.  As divindades femininas eram deusas da Lua porque acreditava-se que suas fases controlassem o nascimento, o crescimento e a decadência dos seres vivos. Os calendários lunares eram utilizados pelos lavradores e pastores como guia para o cultivo dos campos e trato das criações.

O poder da Lua é muito sutil, porém muito forte. Controla as poderosas marés, daí o dizer-se que as lágrimas de Ísis governam as águas do Nilo. Diferente do Sol, constante, previzível e brilhante, a Lua é inconstante, velada e escura. A natureza feminina é melancólica, e mutável como a Lua, que pode trazer boa colheita, seca ou enchentes destrutivas, depedendo dos caprichos da Grande Deusa. Segundo Jung: “A mitologia da Lua é como um ensino concreto e visual da psicologia feminina”.

Ambos os sexos estão sujeitos aos seus caprichos da deusa lunar, mas as mulheres sofrem  mais sua influência, desde o ciclo menstrual  com as mudanças de humor que o acompanham, até o irrompimento de trabalho de parto que comumente ocorre na primeira Lua cheia ao completar-se o ciclo de gravidez de quarenta semanas, conforme é de conhecimento comum entre os especialistas. Estas transformações ajudam a mulher a esperar o inesperado e a reconhecer e aceitar o lado irracional destas energias como parte da vida. Seu temperamento, como o da deusa, está intimamente ligados com ritmos da natureza em vez de sistemas lógicos.

Do ponto de vista fisiológico e psicológico, o homem está menos afinado com a vazante e a enchente de seus estados da anima. Em conseqüência, a deusa pode surpreende-lo e até usurpar-lhe sua personalidade, a ponto dele, nesse estado, quase parecer falar com sua voz efeminada, de maneira irracional e histérica.

Nos mitos de criação, a água é relacionada com o poder original receptivo, produtivo e construtor, elemento a qual o princípio feminino gerador se liga. Das profundezas do oceano, berço original se ergueu toda a criação, todas as formas de vida. Da mesma forma, das profundezas do inconsciente se ergueu o consciente. Assim o embrião individual está contido e alimentado no líquido amniótico, assim cada mente individual está contida e é alimentada no profundo inconsciente de todo o recém nascido. Assim sendo, nasce a consciência do inconsciente.


Na atualidade damos o nome de virgem a uma pessoa sexualmente pura. Originalmente, a palavra virgem não tinha relação com a castidade física. “Virgem” significava a mulher não casada, visto que não pertencia a homem algum. Pertencia a ela própria, de forma especial, livre, portanto para dar-se a Deus; psiquicamente aberta a possessão. Virgem nesse sentido era o oráculo de Delfos. A sacerdotisa representando a deusa pítica, sentava-se, robusta e sólida em sua carne para receber os eflúvios adivinhatórios, o vaso precisava ser forte. 


A Papisa pode ser vista como representando o Yin primário, ou aspecto feminino da divindade. Personifica os atributos positivos e negativos das deusas Ísis, Ishtar, e Astartéia, senhoras absolutas dos mistérios das mulheres. Seu número, o dois, é sagrado para todas as divindades femininas. Sua tiara cravejada de jóias, cuja forma de colméia simboliza fertilidade eterna, organização instintiva e nutrição doadora de vida. Suas três camadas demonstram que seu poder manifesta-se em todos os planos: no celeste, no terrestre, e mesmo debaixo d’água.


Seu toucado de três camadas intui também outra personagem dos ‘mistérios’ a pré-olímpica, feiticeira Hécate, sombria descendente direta da geração dos Titãs, que segundo a mitologia grega teve seus privilégios conservados por Zeus. Ela concede aos homens a prosperidade material, o dom da eloqüência nas assembléias, a vitória nas batalhas e nos jogos, abundância de peixes aos pescadores, numeroso gado ao criador. Invocam-na como “Deusa Nutriz”. Também preside às mágicas e encantamentos e está ligada ao mundo das sombras. Aparece aos feiticeiros com uma tocha em cada mão, e ainda em forma de animais como jumento, cadela, loba, etc. Como mágica, ela preside as encruzilhadas. Era às vezes representada como uma mulher de três cabeças.

A Papisa simboliza requinte e espiritualização de natureza instintual milhares de anos adiante da vingativa Hécate, mas lembra ao incauto que os instintos, contrariados, podem ferir com ferrões maldosos. É evidente que ela está sentada à entrada do Templo dos conhecimentos ocultos, como sua guardiã, para permitir a entrada dos iniciados que saibam respeitar os limites destes poderes secretos. Vigia também o transe do iniciado, no caminho para sua ressurreição espiritual. Ela está enraizada no lugar, passivamente sentada, imóvel. Sentimos que sempre esteve ali sentada, velando, e assim continuará pela eternidade. Ela governa pela lenta persistência, pelo amor, e pela paciência feminina. Ela controla por meio do conhecimento, da força espiritual e da idéia. Abrange com seu poder o todo; o bem como o mal - até a vida e a morte.


No Tao buscamos a universalidade esotérica da nossa  filosofia humana, originada no panteão da antigüidade clássica, um sentido mais anímico e representativo destas energias, sem o antropocentrismo dos deuses gregos, e encontramos imagem semelhante nos versos de Lao-tsé sobre a Nutriz Misteriosa. O Tao é evolucionista, pois “as dez mil coisas” que compõem seu universo estavam todas infusas num grande Uno. Em certa ocasião, pela “Porta da Fêmea Misteriosa”, esse Um fêz-se dois. E os dois transformaram-se nas dez mil coisas. É da Fêmea que brotam o céu e a terra,  dois opostos de uma realidade que atinge desde a matéria mais densa até a mais sutil.

A Fêmea Misteriosa.

O espírito das profundezas do vale é imperecível
É chamado o Mistério Feminino.
A Porta da Fêmea misteriosa é a Raiz, da qual crescem
o céu e a terra.
Fracamente visível, seu poder inexaurível permanece.
A Fêmea Misteriosa dura perpetuamente
seu uso, entretanto, jamais a esgotará.

III - A IMPERATRIZ

Segundo as tradições ocultas esta lâmina representa germinação, fermentação, incubação, fecundidade, geração, iniciativa. O Arcano expressa no mundo divino, o Poder supremo, equilibrado pela inteligência eternamente ativa e pela Sabedoria absoluta. No mundo intelectual, a fecundidade universal do Ente Supremo. No mundo físico, a Natureza em elaboração, a germinação dos atos que devem nascer da Vontade.

É “a personificação da fecundidade universal”, “o poder criador” no seu sentido oculto. A coroa de doze estrelas representa as casas que o Sol percorre, anualmente, ao redor da zona zodiacal. Esta figura feminina, uma manifestação da Ísis Celeste ou Mãe Natureza, traz um cetro encimado pelo globo; sinal da sua “ação perpétua sobre as coisas nascidas ou que devem nascer”. Seu escudo com emblema de águia significa “as alturas a que pode elevar-se o vôo do espírito”, a “inferioridade da matéria e sua dominação pelo espírito”. O significado oculto segundo os Arcanos: “espera o êxito das tuas emprêsas, desde que saibas unir a atividade que fecunda à retidão de espírito que faz frutificar as obras”.   

Como a Papisa, sua irmã, a Imperatriz representa um princípio feminino arcano. Julgando pelos seus nomes apenas, poderíamos concluir que uma representa a feminilidade espiritual, ao passo que a Imperatriz governa o reino mundano.  Diferente desta idéia superficial, o cetro de ouro da Imperatriz está encimado pelo orbe da realidade terrena, que ostenta no seu topo a cruz do espírito. Sua capacidade de ligar o céu  à Terra, o espírito à carne é seu principal atributo. Seu trono lembra um par de asas de ouro, e em algumas versões do Tarot ela chega ser pintada como uma deusa alada. A águia de ouro, efígie do seu escudo reforça a idéia da sua conexão com o espírito. Antigo símbolo associado a elevação espiritual, o seu habitat é tão inacessível quanto o monte Olimpo. Pássaro solar por excelência em todas as civilizações, mensageiro entre os deuses e os homens, foi uma águia que ajudou Psique a pegar as águas da vida e guardá-las num vaso, no mito de Eros e Psique. A águia do escudo, que ela abraça como se estivesse viva, sugere liberação e transformação, o espírito renascido da carne, criando assim uma nova entidade. Talvez  pelo fato da águia fêmea ser maior do que seu macho, não raro, representa o feminino. No caso da mãe Imperatriz, o espírito, liberado da matéria, cria a vida e transforma o mundo físico ao redor.

O modo que a Imperatriz empunha seu cetro na mão esquerda, representativa do inconsciente, demonstra que sua ligação com as energias anímicas é instintual, vem do seu interior em vez de descer dos céus. Seu cetro descansa casualmente enviesado, uma indicação de que seu governo é intuitivo, em lugar de governar de acordo com as leis criadas pelos homens e pela lógica racional. Seu domínio é flexível, quase quixotesco, porque seu coração tem razões superiores à mente. O poder do amor lhe é mais caro do que o amor ao poder.

O símbolo do orbe e da cruz  de cabeça para baixo, é o signo de Venus, deusa do amor, força unificadora e regenerativa que liga os opostos, Yang e Yin, espírito e carne, céu e Terra, num abraço criativo até que algum Ente inteiramente novo possa nascer incluindo os dois.

Quando encontramos nossa vida bloqueada por rígidas normas dicotômicas, devemos procurar a ajuda da Imperatriz. Buscar através de um diálogo interior um novo caminho de espiritualização.

Tanto a Papisa como a Imperatriz incorporam o princípio feminino, presidem conjuntamente os quatro mistérios femininos: formação, preservação, nutrição e transformação, cada qual enfatizando aspectos diferentes, conforme sua diferentes alegorias.

Enquanto que a Papisa mantém os braços em posição cerrada, protegendo os segredos do corpo, os braços abertos da Imperatriz indicam sua natureza mais sociável. A Imperatriz não esconde os cabelos numa touca; deixa-os cair livremente. Sem a pala ligniforme que cobre a Papisa, apresenta-se como mulher. Em lugar do hábito da sacerdotisa, veste uma túnica e uma camisa ornamentadas com graciosos bordados e faixas. Em vez da tiara sólida, em forma de ovo, usa uma coroa de ouro aberta, semelhante a um halo, de centro carmesim, cor de sangue, pois é essencialmente ela quem enche a oca coroa com sangue materno da realidade terrena e do amor cálido.

Diferente da companheira, não encontra-se no Portal do Templo, encerrada entre seus pilares, é representada num cenário aberto, natural. Enquanto a Papisa, com seu potencial criativo escondido, está ligada a Ísis e à gestação, a Imperatriz está associada a Ceres ( Perséfone ) e à concepção. São uma mesma entidade representada em períodos sucessivos de tempo. A Papisa é Sumo Sacerdotisa e Virgem; a Imperatriz é Madona e Rainha. A primeira serve ao espírito; a Imperatriz satisfaz o espírito. Com a Papisa, o espírito do Ente Supremo desce à matéria para fazer-se carne; com a Imperatriz, o espírito nasce para a realidade externa como Filho do Homem e finalmente retorna ao céu como o Filho Espiritual, o Redentor. A Papisa é paciência e espera, passiva; a Imperatriz é ação e conclusão. A Papisa é governada pelo amor; a Imperatriz governa pelo amor. A Papisa guarda algo velho; a Imperatriz revela algo novo.

Resumindo, a Papisa segura o livro da profecia e a Imperatriz representa e realiza a profecia. Ela é a conexão espiritual entre a ardente energia Yang do Mago e o pálido poder Yin da Papisa. O caduceu do Mago tocou as profundezas da Papisa, gerando algo novo, um mundo que inclui dois aspectos. Numerológicamente, o número um do Mago, mais o número dois da Papisa, adicionados, produzem o número três da Imperatriz, que une os opostos e a ambos abraça, gerando o fruto.


Pitágoras via o três como o primeiro número tangível, real. Os dois primeiros números eram simples essências, pois não correspondiam a nenhuma figura geométrica e consequentemente não tinham realidade física. A introvisão do sábio grego demonstra que a intenção divina concretizou-se com o advento do triângulo, e a essência nebulosa tornou-se manifesta em termos de experiência humana. O número três cria o triângulo, superfície plana com princípio, meio e fim; uma realidade que corresponde à experiência humana. Falando de um modo genérico, a função do número três reflete-se em todos os conjuntos de trindades: mãe, pai e filho; Ísis, Osíris e Hórus; passado, presente e futuro; Pai, Filho e Espírito Santo. Em todas o número três age como fator de equilíbrio, produzindo uma realidade completamente nova.

A Imperatriz pode ser retratada como a base deste triângulo, pois é através dela que o efêmero chega, pela primeira vez, ao reino da experiência humana. Todos temos momentos em que, tocados pelo Caduceu do Mago, movimentam-se nossas águas criativas. Estamos conscientes do longo e escuro período de gestação melancólica, que se segue à nossa submersão no pálido mundo lunar da Papisa. Repentinamente então, com sorte, nasce um novo dia, a chave de ouro, quando idéias vagamente percebidas começam a estourar no mundo real do nosso consciente. Então a tela branca e vazia enche-se de cores e revive; a massa informe em nossas mãos sózinha começa a criar vida própria; ou a folha branca de papel enche-se de palavras inspiradas. Ou nosso problema até então insolúvel, um dilema irreconciliável que torturou-nos semanas seguidas, surge magicamente uma nova solução.

Os físicos contemporâneos, a partir do advento do princípio da incerteza de Heisenberg e da física de Eisten, foram obrigados a mudar seus conceitos. Tornou-se manifesto que a realidade externa não pode ser percebida e sentida com precisão pelo observador humano porque, no mesmo ato de observar os fenômenos externos, ele os distorce. Em virtude da natureza da luz e as limitações do aparelho sensorial humano, nunca teremos instrumentos capazes de estabelecer a realidade externa como a equação da verdade final. Sendo uma lei natural irrevogável, precisamos voltar-nos para o mundo interior, a psique humana, na eterna busca da verdade.

Cientistas, escritores, pintores, e outras pessoas criativas relataram várias vezes como suas idéias originais surgiram por intermédio de devaneios, sonhos, imagens ou outras manifestações irracionais aparecidas espontaneamente do inconsciente. Concluí-se portanto que a Imperatriz liga, como ponte, uma nova dimensão da percepção, o Mundo Mãe de inspiração criativa e o Mundo Pai de lógica e laboratórios, através da sua compreensão intuitiva, fazendo o espírito saltar para o espaço externo a fim de ligar-se às introvisões celestes. Ela é a portadora da célula que brotará uma nova visão transcendental em que o esotérico e a ciência, o espírito e a carne, o interior e o exterior podem ser partilhados como um só mundo.

Kali

Mas a Grande Mãe nem sempre é a Boa Mãe. Na escala grandiosa da criação, o seu aspecto devorador, negativo, asfixiante, chama-se a Mãe Terrível. Nos contos é a bruxa, rainha má, a madastra cruel, invejosa da beleza da princesa. Nos mitos, aparece como mãe devoradora que come os próprios filhos. Sentimos sua presença anímica e a chamamos Mãe Natureza, a cruel entidade que procura repossuir toda a vida – a civilização – de volta ao ventre primevo. Como cataclisma natural, vulcão,  terremoto, abre literalmente seu ventre para sugar o homem e suas criações ou cospe fora lava para enterrar vivas cidades inteiras. É igualmente paradoxal, pois é ela que forneceu inspiração criadora que tornou possíveis as nossas espaçonaves e ao mesmo tempo, através da força gravitacional tenta puxá-las de volta ao seu bojo, como deusa ciumenta. Mãe Terrível é Kali, a esposa de Xiva, sedenta de sangue, representada como devoradora de homens, deusa que exigia sacrifícios humanos para aplacar sua fúria felina. O aspecto devorador da deusa torna-se aparente toda a vez que a mulher negligencia o seu verdadeiro reino, que é o relacionamento, e se torna faminta de poder; nesse momento, ela vira realmente a devoradora do homem. Sua força transmutada, já não traduz a força sutil do amor, mas o amor estridente do poder. A lenta transição da primeira para a segunda é tão gradual, sutil, de modo que a mulher cai vítima do próprio anseio de poder e se afasta do seu “eu” mais profundo. O grito sangrento da feminista devoradora de homens é ouvido em todo o lugar. A Imperatriz, que teve negado por longo tempo seu reino de direito, se ergue das profundezas com a terrível fúria da mulher ludibriada.

Hécate como deusa trina

Hécate, a vingativa feiticeira ancestral, tem muitas caras. Se a tratarmos com civilidade, poderá apresentar sua face mais civilizada. A mulher como também sua equivalente psicólogica, a anima masculina, é ainda primitiva. No homem, sua parcela feminina é muitas vezes sufocada, provocando o desequilíbrio e o distúrbio da anima causador de tantos males e violências. A mulher faz pouco tempo que foi liberta dos seus afazeres domésticos e do jugo do homem, exposta as novas influências culturais e a oportunidade de escalada social antes território estritamente masculino. Feiticeira, Mãe Devoradora, Grande Mãe, Deusa, suas muitas faces representam o verdadeiro sentido da mulher, e da parcela homem que escondido nas  profundezas do seu inconsciente possuí um poderoso aspecto de influência, ora criativo, ora vingativo; movido a compaixão num  momento e presa de ciúme furioso no outro. Talvez com o profundo estudo das lâminas dos Arcanos a seguir, e seus sentidos ocultos, possamos entender estes poderes, que são afinal de contas nossos, nossa herança psico-cultural.

Lao Tsé em sua obra fez muitas referências ao poder do feminino. Negado pelas civilizações machistas que prosperaram nos últimos cinco mil anos, colocada em estado de servidão vigiada, a mulher percorreu um longo caminho em busca da sua libertação que contudo ainda não ocorreu completamente. Por outro lado, do ponto de vista esotérico, os grandes sábios do passado nunca puderam negar o poder do feminino na Criação do Universo. Nos mitos pré cristãos encontramos principal destaque no poder misterioso do feminino na gênese do planeta Terra e da humanidade como um todo.

As Transformações do Tao.

O Tao gera o Um.
O Um gera o Dois.
O Dois gera o Três.
O Três gera todo o Universo.

O Universo criado carrega o Yin atrás
e o Yang adiante.
Através da união de princípios opostos
a harmonia é obtida.



O IMPERADOR – IV.

De acordo com as tradições ocultas, esta lâmina simboliza apoio, estabilidade, poder, proteção. Representa um grande personagem. O Arcano IV significa no mundo divino, a realização perpétua e hierárquica das virtudes contidas no Ente Absoluto. No mundo intelectual a realização das idéias do Ente contingente pelo quádruplo trabalho do espírito: Afirmação, Negação, Discussão, Solução. No mundo físico, a realização dos atos dirigidos pela Ciência da Verdade, o amor da Justiça, a força da Vontade e o trabalho dos Órgãos.

O Arcano IV exprime no seu sentido oculto; “a obra humana realizada”. Seu capacete em forma de coroa simboliza “a força que conquistou o poder”. Ele possui o cetro de Ísis e o trono feito de pedra que significa: “a matéria dominada”. A cruz traçada pela posição de suas pernas simboliza “os quatro elementos” e a “expansão do poder humano em todos os sentidos”. Significa esta lâmina segundo os Arcanos “a realização de tuas esperanças depende de um ente mais poderoso que tu: procuras conhecê-lo e terás seu apoio.   

Representa o princípio ativo, o domínio masculino do espírito sobre a natureza. É uma personificação do Logos, o princípio racional, que é a característica  do arquétipo do Pai, ordenando nossos pensamentos e energias, conectando-os à realidade de um modo prático. Embora represente um poder arquetípico, o Imperador é humano e portanto mais acessível  à consciência, e não assume uma postura rígida. Em vez disso, senta-se relaxado, à vontade, com as pernas cruzadas, visto de perfil esquerdo, ou seja, do seu lado inconsciente. Que trata-se de um soberano da paz, seguro da própria autoridade, sem medo de ataques externos ou internos, indica suas vestes, o monarca não usa armadura ou espada à cinta. O seu escudo, que possui a efígie da águia de ouro, está no chão ao seu lado, sem uso. O emblema simboliza sua conexão com os poderes celestiais, seu império por direito divino. Nada teme de homens ou feras e tampouco os deuses lá em cima.

O Imperador apresenta-se informalmente assentado sobre a terra firme. É um líder prático, intimamente ligado à espécie humana e suas atividades. Consonante com esta idéia, encima um gracioso elmo de campo, uma cobertura utilitária. As linhas elegantes do elmo permanecem na ornamentação da cadeira régia e no escudo bem trabalhado. É evidente que seu império possui refinamento cultural; mas fica claro que isso não foi sempre igual. Reparando o tamanho e a força que ele empunha o cetro, em contraste com sua mão esquerda, atrofiada e efeminada, não há dúvida que sua espada foi posta à prova em muitas batalhas. Seu império foi conquistado a duras penas. A luta humana para alcançar a consciência envolve feitos quase sobre-humanos de força, pois a Mãe Natureza guarda ciosa seu reino. Nas antigas sociedades matriarcais, a sucessão real fazia-se pela linha feminina. Assim sendo foi o rei que venceu e conquistou a princesa, ou foi ele o responsável pela morte do velho rei.

Abandonar o mundo da infância, para enfrentar a exposição e responsabilidades da idade adulta, representa para alguns enorme tarefa. A vida do cidadão na comunidade é o caminho intermediário indispensável entre a identidade inconsciente da natureza infantil e o pensamento mais consciente e individual da idade adulta. Durante esta transição, idealmente, precisamos identificar-se como membro de um grupo cada vez mais amplo; família, clã, estado, nação, governado por uma poderosa e justa figura de autoridade.

O Imperador da lâmina parece representar uma imagem assim, pois transcende a figura do pai pessoal, do chefe da clã ou nação étnica, já que os impérios abrangem vários povos e regiões. Seguro no seu reino, o Imperador ainda mantém uma ligação com o mundo matriarcal da Imperatriz, pois está voltado para ela. O casal real está também ligado pelos emblemas de águia que parecem estar olhando um para o outro, ligando o Imperador e a Imperatriz de forma sutil. A águia do emblema da Imperatriz, de asas erguidas, dá a noção de estar alçando-se na direção do céu, representando o espírito masculino da esposa, que longe enxerga, enquanto o pássaro do Imperador é representado de maneira tão estilizada que suas asas copiam o formato das aparentes “asas de anjo” no desenho do trono da Imperatriz. O Imperador não será influenciado pelo lado sombrio da águia, ave de rapina,  desapiedada e cruel, símbolo adequado ao mandatário ensandecido pelo poder ou outros indivíduos em posição de autoridade, quando ideais deslustrados e corroídos transformam-se na “força do ego”.

O número quatro que representa, inclui as quatro dimensões da vida, simboliza a totalidade, indica a orientação para a dimensão humana. O equivalente geométrico, o quadrado, representa a lei e a ordem em oposição à desordem e caos da Mãe Natureza. As quatro direções ou pontos cardeais impedem-nos de sentirmos perdidos em regiões desconhecidas. As quatro paredes de um aposento dão-nos sensação de segurança, para ajudar-nos a concentrar energias e focalizar com precisão a atenção de modo humanizado e racional. De forma semelhante, seu espírito diretor auxilia-nos a examinar as realidades da condição humana de modo consciente e criativo, talento sabidamente humano.


Na antigüidade o mundo humano e o mundo mítico eram vistos como reflexos um do outro, e o governo da sociedade como relativo à imagem da ordenação do cosmo. O mundo mítico foi personificado em formas sociais e a cidade estado foi um  modelo do cosmo no plano terrestre e humano. O rei governante de seu reino eqüivalia ao deus rei no plano divino; denominavam-se “Rei do Universo” ou “Senhor dos Quatro Quadrantes”. Eles entraram em cena como função de diferenciação da própria cultura, a qual por seu turno, era uma expressão da diferenciação da psique. Só podemos supor que a feitura da cultura é, ao mesmo tempo, a feitura da psique, que o trabalho criativo de estruturação de um equivale ao mesmo trabalho em relação ao outro.

Resumindo, portanto, o número quatro simboliza orientação do homem para a realidade. Nossa representação geométrica do número quatro é um quadrado, símbolo da ordem sobreposta por Logos, ao acaso, à natureza. Na lâmina em questão, as pernas do Imperador, cruzadas formam o número quatro, dando a entender seu conhecimento mental e sua compreensão básica, arraigada, das responsabilidades que incorpora como portador da consciência humana.

Numerologicamente, o número quatro possui seus mistérios mágicos. Assinala o fim de um ciclo e fornece ímpeto para um novo ciclo. A razão da dupla valência é que quando somamos os números, em seqüência, do um ao quatro, obtemos o número dez , que inicia o novo ciclo. Assim como o Mago, da lâmina um, forneceu a energia que iniciou o ciclo de sua criação, assim o Imperador completa esta fase, com uma nova criação – a civilização. Como semente de cereal, ele resulta de tudo que antecedeu-lhe, e ao mesmo tempo expressa a semente de um crescimento inteiramente novo.

Na psicologia, o número três também traz o quatro, resultando um novo sentimento de unidade. Todo ser humano nasce com quatro potenciais típicos para apreender a experiência pura e classificá-la a fim de lidar com ela. Estes quatro potenciais são denominados as quatro funções, porque representam os meios como funciona a psique humana. Às duas funções irracionais, que pelo seu intermédio aprendemos o mundo denominaram: sensação e intuição, porque tem funcionamento expontâneo, independente do racional. E as outras duas, pensamento e sentimento denominaram funções racionais, porque definem como ordenamos e avaliamos nossas experiências.

Quando desenvolvemos a consciência do ego, pensamos em nós mesmos como um. De acordo com o crescimento de nossa percepção, aos poucos chegamos a compreender que somos dois – consciente e inconsciente, ego e sombra. Para conciliar nossos opostos precisamos descobrir um mediador interno, o número três capaz de harmonizar os dois para que trabalhem juntos. Quando tal sucede, do trio – por meio da atividade do terceiro fator – vem a totalidade, sentimento emergente, personalidade unificada que funciona de novo como um, agora num nível novo de percepção.

Todos nascemos com o potencial necessário para desenvolver cada uma das quatro funções até certo nível. Mas cada indivíduo, no início da vida demonstra aptidão especial para uma das funções, que é denominada função especial. Descobrimos gradativamente, no crescimento, certo grau de eficiência em duas outras áreas, de maneira a ter à nossa disposição, de forma limitada, uma segunda ou terceira funções, que denominamos funções auxiliares, pois estão a disposição para auxiliar a função superior.

A quarta função, sempre permanece relativamente inconsciente, e portanto sem uso, e a denominamos função inferior, porque não está diretamente acessível ao treino consciente. Consequentemente, seu desempenho, comparado as outras funções, não inspira confiança.

Tendemos a escolher tarefas mais fáceis, relegando as difíceis, e aprimorar e desenvolver as funções mais acessíveis, deixando a inferior não reconhecida ou desenvolvida. Geralmente nossa família e a sociedade estimulam esta tendência conclamando nossos serviços onde temos maior eficiência. Em conseqüência disto a função inferior fica cada vez mais inibida. Com freqüência, só quando esta função intromete-se de maneira inesperada, inadequada ou imatura, percebemos sua existência. Neste  ínterim, nossa função superior pode ter-se condicionado a operar tão suave e automaticamente que perdeu a vitalidade original.

Com o passar do tempo passamos a ser tipificados de acordo com nossa função superior, até o ponto de considerar-nos aleijados psíquicos, obrigados pela natureza da vida a havermo-nos adequadamente apenas em uma – ou no máximo duas – áreas de percepção. Eis alguns tipos característicos, segundo sua função superior:

Intuitivo – Não é grande observador do mundo que o cerca. Vive de forma primária num mundo de possibilidades futuras. Não preocupa-se com a realidade presente e detesta detalhes. Depois de participar de uma reunião, uma assembléia por exemplo, é provável que saia sem consciência de muitos detalhes discutidos, mas com muitas idéias sobra projetos que seu grupo poderia algum dia executar. Mesmo assim deixará para os outros os problemas relativos a execução da obra.

Sensorial – Estaria melhor observando as realidades práticas que tal assembléia se veria obrigada a resolver, se as idéias do intuitivo fossem levadas a sério. Sua percepção sensorial está voltada para a realidade. Como bom investigador interessa-se por espeficidades. Preocupa-se - como podem os sonhos do intuitivo para o futuro ser adaptados às condições existente? Existe verba para o projeto?

Cada um deles reage espontaneamente à vida. O intuitivo percebe potencialidades futuras e tem palpites sem perceber como chega a informação. Da mesma forma o sensorial registra automaticamente a experiência que prepondera a sensação. Em ambos os casos, as observações imediatas, chegam inconscientemente e revelam-se como fatos comprovados, a despeito da lógica ou raciocínio contrário.

Pensante – Organiza os pensamentos em categorias lógicas, e as dispõe de forma sistêmica. Numa reunião, relaciona as coisas que precisarão constar e serem executadas antes da próxima reunião da assembléia, e elabora sua agenda para a sessão. Caso seja necessário um orador sobre determinada matéria, o pensante pode querer que seja um especialista no assunto.

Sensível – Reagiria de maneira diversa. Não tem preocupação com o conhecimento do orador, desde que este saiba expressar-se e apresente o estudo de maneira interessante. Avaliaria tal estudo mais conforme o espírito do que o seu conteúdo. Sentimento aqui não significa emoção descontrolada, pelo contrário é função racional, porque pode ser tão eficiente e discriminativo quanto o pensamento. É um meio hábil de avaliar a experiência. Auxiliaria os demais a sentirem-se a vontade e ao mesmo tempo coibiria qualquer procedimento que não sentisse apropriado no momento. Poderia fazer isto com tato, firmeza e até mesmo sangue frio caso justificassem os acontecimentos.

Caso busque descobrir sua função superior, observe qual seu comportamento numa emergência. Imagine-se perdido numa floresta, milhas distante de casa, ao cair da noite, sozinho. Pararia para preparar o plano de ação? Ou tentaria intuir onde seus acompanhantes podem ter seguido, e ir nessa direção? Ou faria um balanço das suas realidades (abrigo, água, alimentação, etc.) e buscaria onde elas estivessem ao seu alcance? Ou faria o que?

Não é fácil descobrir sua função primeira, pois na maioria dos eventos a superior e a primeira auxiliar estão tão bem desenvolvidas que torna-se difícil perceber qual representa seu tipo. Neste caso é menos trabalhoso encontrar nossa função inferior. Uma maneira consiste em perceber a espécie de tarefas cuja execução você sempre adia porque “não tem tempo” para elas. Descobrirá, com certeza, que certas tarefas são ignoradas com freqüência e outras que demandam mais tempo, mais difíceis até, acabam sendo feitas. Depois de encontrar sua função inferior, perceberá facilmente a superior, porque será, com certeza, a outra função na mesma categoria. Exemplificando, se sua função inferior for irracional, digamos a intuição, quer dizer que a superior será a outra função irracional, a sensação, e vice-versa. O mesmo vale para as funções racionais.

Conforme tomamos consciência dos quatro potenciais dentro de nós, temos a tendência de classificar-nos pela função superior. O ego identifica-se com a função superior. Temos a tendência de considerar-nos uma unidade – um indivíduo com aptidão especial, excluindo outras potencialidades inconscientes. Sentimo-nos reconhecidos por nós e outras pessoas pelos nossos dons especiais como artesãos, matemáticos ou poetas. Porém, mais tarde, acabamos reconhecendo e desenvolvendo funções secundárias – primeiramente dualizando nossas naturais capacidades. Percebemos depois uma percepção incipiente numa terceira área, que corresponde a terceira função, tão escondida na inconsciência que é difícil de resgatar. Muitas vezes são necessários anos para nós percebermos conscientemente que somos donos de três áreas de competência.

Durante todo o tempo, a Quarta função permanece escondida, imersa na escuridão, sem aproveitamento, e portanto ameaçadora para o status do nosso ego, a ponto de não podermos abordá-la diretamente. Porém na medida que continuamos a desenvolver e utilizar a terceira função, a Quarta também começa a emergir da consciência. Empregando a quarta função, “através da terceira”, é que chegamos a dominá-la. Quando isto ocorre, “o um como o quarto”, há potencial para a unidade – uma totalidade dos quatro aspectos da psique e transcende a unidade do ego com que principiamos as explorações.

O número quatro do Imperador anuncia um novo começo, pois ele desencadeia o princípio simbolizado pelo Verbo. Com seu advento, abandonamos o mundo matriarcal da ordem primitiva, não-verbal, que até então expressou-se através da música, da dança e das imagens. Entramos, tanto do ponto de vista da cultura humana, quanto no pessoal, no mundo da ordem verbal, a ordem do logos.

Nas narrativas das escrituras sagradas temos dois princípios descritos. O primeiro conta-nos que “No princípio Deus criou o céu e a Terra”. Poderíamos intuir nisso o Mago Supremo criando o Yang e o Yin primários, comumente representados pelo Mago e pela Papisa do Tarot, juntos no mundo matriarcal da Imperatriz. Agora , com o Imperador, chega-nos o segundo princípio, que equiparamos ao da Segunda narrativa bíblica que diz: “No princípio era o Verbo”. Originalmente, o Verbo, que simboliza idéia, alento, espírito, estava “com Deus”. Agora com o surgimento do Imperador o poder do Verbo é tributo também da nossa humanidade.

O mais antigo sentido de “Logos” é “aquilo por que se expressa o pensamento interior”. Palavras são a base de todo o pensamento organizado da humanidade, de todo o auto exame individual, base da Ciência, fonte dos registros históricos, alicerce de toda civilização. São as ferramentas utilizadas para aprender a abstração de idéias e servem para separar os nossos “eus” do universo primário do inconsciente. O momento que a criança diz “eu” pela primeira vez delimita um estágio fundamental na trilha da auto compreensão, marca o rompimento dela e a identidade infantil, fase mágica de identificação com a natureza, o Eros feminino, para gradativamente distanciar-se do reino da magia primitiva e ingressar no mundo civilizado da ordem masculina e do logos, que é o domínio do Imperador.


Pensamos sempre que as palavras servem unicamente para comunicarmos uns com os outros; mas temos necessidade delas, primeiramente, para comunicarmo-nos conosco mesmo. A partir da primeira infância, as palavras são chave fundamental do autoconhecimento e do desenvolvimento intelectual. Necessitamos delas para pensar, para selecionar imagens e eventos caóticos do ambiente externo e estabelecer internamente nossa própria identidade em perspectiva dele. Sem o dom da linguagem seríamos como bestas selvagens, aprisionados para sempre no reino da magia primitiva com tudo mais que nos cerca.

Os vocábulos são uma espécie nova de magia, diversa dos poderes do Mago. São ferramentas indispensáveis, para ajudar-nos a classificar e nomear o universo à nossa volta. Auxiliam-nos a revelar o sentido das coisas para podermos experimentar nosso mundo mais objetivamente. Elas são valiosas para a transmissão de recordações dos conhecimentos provenientes de nossas experiências não-verbais para outros.


Na antigüidade os homens usavam as palavras parcimoniosamente. Os egípcios antigos só falavam inspirados pelo espírito; a palavra era ação do espírito. Em nossa cultura atual, superverbalizada, da televisão, da Internet, e do computador, afastamo-nos tanto da matéria prima da vida que nós mesmos transmutamos em abstrações virtuais, perdidos no labirinto da confusão verbal das telecomunicações. Os jovens estão abandonando os livros em busca da superficialidade das frias telas, tornou-se moda denegrir as palavras como inúteis, falsas, ou puramente intelectuais.

As palavras são poderosas, tem muitas espécies de energias. Produzem vibrações em nosso interior e na Natureza. Os mantras budistas garantem uma comunicação do monge com as forças cósmicas interiores e exteriores. Dizem que as vibrações da palavra sagrada OM estão em ligação direta com as três forças da natureza: criação, preservação e desintegração. As palavras exercem uma influência mística sobre as pessoas e objetos aos quais estão ligadas, acionando mecanismos ocultos do nosso inconsciente coletivo. Na tradição judaica o nome de Iavé nunca deve ser proferido e nos Dez Mandamentos temos; “não pronunciar seu santo nome em vão”. Também na narrativa da Criação a palavra desempenha papel mágico. Pois foi só no momento em que Deus disse “Faça-se a luz” que o princípio do Logos pôde ser criado. Até mesmo o Criador, segundo as escrituras, precisou separar o conceito de luz do próprio caos interior e nomeá-lo, antes de poder criá-la na realidade do seu universo exterior.

Os nomes transmutam a realidade e influenciam seu caráter. Dedicamos tempo e reflexões aos nomes que damos a nossos filhos. Pessoas famosas consultam numerologistas, muitas vezes mudando seus nomes artísticos para trazer mais sucesso ou sorte. Empresas gastam milhões em campanhas publicitárias , onde promovem concursos para descobrir um nome com bastante vibração para novos produtos.

Nomear as coisas é função importante da tarefa do Imperador. Dar o nome correto para as coisas é uma arte criativa, que envolve não só a função pensante, mas também o sentimento, a intuição e uma boa conexão com nossa experiência sensorial. Reconhecendo este fato, nossos antepassados temendo a confusão e ferocidade das deusas lunares, passaram a adorar o Imperador, o princípio do Logos, deixando a Imperatriz fora do quadro por milênios. Atualmente, mais uma vez tendemos a denegrir o Imperador e voltar nossa adoração para a Imperatriz. Muitos de nós, jovens e velhos, temos se revoltado contra a ordem estabelecida. Uns esperam destruir seu Império, enquanto outros viraram as costas à civilização na tentativa de recapturar o mundo matriarcal pré-consciente de vagos sonhos e sentimentos.


O Imperador e a Imperatriz, como seus nomes indicam são cônjuges. Um não funciona criativamente sem o outro. Seus cetros ostentam a Orbe da Natureza, encimada pela cruz do espírito, significando  sua “união harmoniosa” de energias e dos seus dois reinos. Cada qual ostenta nos escudos a efígie da águia de ouro, indicativo de que seus poderes emanam igualmente de Deus, e que seus direitos são igualmente divinos. Com o surgimento do Imperador começa novo ciclo envolvendo novas aspirações e conexões mais sofisticadas entre o reino mundano e os céus acima dele. Sob sua influência, a humanidade atingirá, não apenas de maneira simbólica, mas de fato, os astros e as estrelas.

Se quisermos ambicionar asas ao nosso espírito, não deveremos manter sempre um pé no jardim da Imperatriz. Existirão momentos em nossas vidas que esses grandes poderes governantes terão alternadamente mais influência que seu oposto. Na verdade, os dois operam melhor numa espécie de corrente alternada. Algumas vezes devemos manter um deles em suspenso a fim de beneficiar-se do outro.

O Imperador reina fundamentalmente pelo pensamento e pelo Logos; a Imperatriz utiliza-se de Eros e do sentimento. Para o Imperador, o fato objetivo é a verdade honesta; para a Imperatriz, o fato interior é essencialmente importante. Revelar um fato objetivo que possa ferir um relacionamento seria desonesto no reino da Imperatriz, já no mundo do Imperador, ocultar qualquer fato dessa natureza seria reprovável. Ambos não podem reinar ao mesmo tempo. Entretanto se possibilitarmos a cada um o ensejo de falar, poderemos encontrar a solução legitima para o evento externo, sem violentar o evento, igualmente valioso, do sentimento interno.


Conforme o Tao Té Ching, um coração ambicioso, cheio de desejos, estará sempre vivendo num processo interminável de conquistas, que não leva a nada, só a um desejo maior. É um cavar eterno, sem jamais encontrar o fundo. O encontro com o entendimento do Tao permite a eclosão de uma felicidade completa, quando morre o desejo, pois já não tem o alimento: o sentido do ser isolado. Todas as coisas da Terra nos pertencem para sempre quando estamos de bem com a vida.

A Moderação do Desejo.     

Quando a ordem prevalece no império, os cavalos
de guerra cultivam os campos.
Quando o Caminho (a ordem, a lei) é esquecido
os cavalos de guerra correm nas fronteiras.
Não há maior crime do que ter demasiados desejos.
Dão maior infortúnio do que ser invejoso.
Quando estamos contentes possuímos
todas as coisas do mundo.



O PAPA –V.

Segundo a tradição oculta, o Arcano V significa “inspiração”, “indicação”, “ensino”; representa um homem ao qual costumamos dirigir-nos; padre, médico, advogado, etc. No mundo divino exprime, “a lei universal”, reguladora das manifestações infinitas do Ente Absoluto na unidade de substância. No mundo intelectual significa, a Religião, correspondência entre o Ente Absoluto e o ente relativo, entre o Infinito e o Finito. No mundo físico, a inspiração comunicada pelas vibrações do fluido astral; a prova do homem pela liberdade de ação no círculo intransponível da lei universal.

O Arcano V é representado pelo Hierofante, o Mestre dos Mistérios Sagrados, o sumo sacerdote que presidia aos Mistérios de Elêusis na Grécia Antiga. Na antiga Roma, era o Grão Pontífice, príncipe da doutrina oculta, o adivinho mestre. O Hierofante, Orgão Supremo da Ciência Sagrada, está sentado entre duas colunas do Templo que simbolizam respectivamente “a lei divina” e “a liberdade de obedecer”. Esta lâmina representa “o Gênio das boas inspirações do espírito e da consciência”; seu gesto, o sinal do silêncio, “convida ao recolhimento para ouvir a voz do céu no calar das paixões e dos instintos carnais”. Os dois homens prostrados, o da esquerda traz o que parece ser um chapéu de cardeal, e ambos ostentam tonsuras clericais que proclamam suas dedicações ao espírito; um vermelho e outro preto, representam o Gênio da Luz e o das Trevas, que obedecem ao Senhor dos Arcanos. O sentido oculto da lâmina é: “O Gênio do Bem está à tua direita, o do Mal à esquerda; suas vozes só podem ser ouvidas pela tua consciência; recolhe-te, e ela te responderá”.

A lâmina número cinco mostra algo novo. Em adição ao símbolo arquetípico costumeiro, pela primeira vez, surgem outras figuras antropomórficas, representadas como dois homens do clero ajoelhados diante do Papa. Reitera seu número, o cinco, simbolismo da Quinta-Essência, a preciosa e indestrutível qualidade só conhecida do homem que transcende os quatro elementos terrenos, comuns aos homens e animais. O Papa, neste caso, representa a personificação exteriorizada da luta do homem pela conexão com a divindade, que distingue-o e coloca-o acima dos animais.

A tendência religiosa, uma predisposição inata da espécie humana, é força criativa, e mais coerciva até que o anseio da procriação física. À semelhança dos instintos carnais, o impulso religioso objetiva unir os opostos. Como o Mago, liga o mundo interno ao externo, porém de forma consciente e mais franca. Podemos dizer que a função do Sumo Sacerdote consistia no passado, em tornar acessível, ao homem comum, o mundo transcendental do Grande Mistério, até então alcançado através da intuição.

Na medida que tornamo-nos cada vez mais conscientes de nossos poderes internos para o Bem e para o Mal, as projeções exageradas que fazemos das pessoas que nos cercam aos poucos desaparecem. Conforme amadurecemos as figuras de poder de nossas relações e conhecimento, já não portam características a nós pertencentes. Finalmente, ao evoluir o processo de crescimento individual, eles e nós assumimos proporções mais humanas.

Mas este ainda é um longo caminho, não só históricamente como também em nosso crescimento pessoal. Nossa consciência e a própria humanidade é jovem e fraca. Necessitamos de figuras de projeção fortes e dignas da nossa confiança objetivando tornarmo-nos sabedores das muitas energias que operam dentro da nossa psique humana. O portador ideal da nossa fé e das nossas aspirações místicas é na atualidade o Papa, como foi o Sumo Sacerdote na antiguidade humana, retratados ambos neste Arcano. Como o Imperador é o pai supremo no governo da vida da comunidade secular, o Papa é a figura do pai supremo da religião, que governa sua Igreja e sua Fé.

Seu título, a palavra pontífice, relaciona-se a pontifex, vocábulo latino que significa ponte. Um elo de ligação espiritual entre o homem e Deus. O livro pontifical contém os ritos que devem ser observados por mandatários religiosos ao celebrar missa. Liga sua experiência e conhecimento codificado da Igreja, simbolizado pelos pilares do Templo, com a experiência viva das figuras humanas a sua frente. Nos grupos de indivíduos que não aprenderam a prestar atenção a própria voz interior, ou perderam sua conexão com ela, o Papa fornece-lhes a sabedoria de um sistema de valores coletivos para apoiar e guiar seus prosélitos ao longo do Caminho.

No primitivo mundo do Mago, da Papisa e da Imperatriz, os homens viviam em íntimo contato com a Natureza, em ligação direta com seus instintos, assim as pessoas sabiam ouvir a voz do inconsciente quando surgia-lhes através de sonhos, visões ou transes. Mas com o advento do poder do Imperador, o reino da magia primitiva entre humanos e Natureza começou enfraquecer. A energia liberada era necessária para as grandes obras na construção do império da civilização. Na paisagem interior, por igual, insulas de percepção do ego elevaram-se acima da massa arcaica da consciência tribal. Quanto mais distanciado da experiência pessoal do espírito, mais o homem necessita do dogma criado da experiência mística de outros. E através dos séculos, gradativamente,  conforme envolvia-se nas suas complexas relações pessoais com a matéria, resultado de uma civilização individualista e competitiva, o homem chegou a sentir cada vez mais necessidade da confissão individual e do aconselhamento nas questões relativas à consciência pessoal.


Como porta-voz de Deus, o Papa é o árbitro final de todas as questões morais e teológicas, determinante da autenticidade final de toda experiência mística na Terra. Seu representante no Tarot demonstra simbolicamente o tamanho de seu domínio. Seu gesto, com a mão direita erguida no tradicional sinal de benção com os dois dedos estendidos, também revela que os problemas morais relacionados aos opostos Bem e Mal estão sob seu domínio, para serem amplamente reconhecidos e manipulados. O polegar, e os dois dedos escondidos, podem significar que a trindade é um mistério sagrado, que não deve ser intelectualizado, e sim examinado emocionalmente. O Papa segura a chave deste mistério na palma da sua mão.

Diferente da Papisa, nosso Papa não segura livro algum; não consulta a lei, ele escreve a lei que emana da sua interpretação particular para aplicação prática da fé. À partir de seu poder supremo determina pecado ou santidade, e impede cismas adequando a lei espiritual quando necessário, em circunstâncias que pareçam excepcionais. Como ponte e porta-voz terreno de Deus, Ente infalível, seu poder supremo, acima de toda a humanidade, põe de joelhos até mesmo o Imperador.

O Papa retratado no Tarot de Marselha, empunha um cajado com a mão enluvada, símbolo de sua posição. A mão coberta indica talvez que não é sua mão humana, individual, que possui o poder supremo da infalibilidade. Seu é um dever sagrado, imune às tentações da carne mortal. Na luva está inscrita a cruz patée, antiga forma de cruz indicativa da antigüidade da Igreja. Relicário sacro, foi usada por muitos Papas antes deste, e será sempre utilizada pelos que virão. Sua coroa de três tiaras, semelhante a da Papisa, é repetida na cruz tripla do cajado. Seu domínio sobre os três mundos, espírito, corpo, e alma, é confirmado simbolicamente e tornado mais franco. Ele segura o cajado na mão esquerda, sinal que governa mais pelo coração do que pela força da vontade.

Os dois prelados representados parecem gêmeos, parecendo simbolizar os muitos conjuntos de impulsos duais da natureza religiosa do homem na sua tomada de consciência. Imagina-se que no meio deles estariam os conflitos entre o fator exterior e o significado interior, reflexos ambíguos para o Bem e para o Mal, problemas que envolvem o poder público contra a consciência, e as muitas sutilezas do relacionamento individual – problemas fora da jurisdição do Imperador. Os dois personagens, que estão ajoelhados em contrição pela presença do seu mandatário, tem as costas voltadas para nós, sinal que apesar de emergente, a percepção dos opostos é ainda inconsciente. Os prelados não enfrentam tais conflitos diretamente; voltam-se para a autoridade maior em busca de direção e orientação. Não estão individuados pois dependem e são funções de uma unidade maior, filhos da Igreja Mãe, ensaiando os primeiros passos em busca da própria evolução individual.

O Papa, como o Imperador é capaz de organizar e verbalizar suas idéias num sistema formal, racional, também personifica o Logos masculino, mas suas preocupações são de ordem espiritual, com o mundo interior da consciência e responsabilidade de seus fiéis. O Papa, diferente do Imperador, olha para os indivíduos à sua frente; concede-lhes audiência, comunica-se com eles. Esta interação entre o arquetípico e o humano marca um passo importante no desenvolvimento histórico da consciência humana.

Na infância da consciência humana, e na nossa própria, os poderes simbolizados pelos Arcanos iniciais controlaram nossas vidas até então sem questionamentos ou desafios ao seu poder. Sua magia parecia tão formidavelmente poderosa, que nossa frágil consciência do ego não poderia fazer frente a tal poder. Nosso ego humano infantil estava informe. Como as quatro primeiras lâminas do Tarot revelam, a consciência do ego individual não tinha lugar no imaginário da nossa infância psíquica. Na lâmina do Papa, pela primeira vez, a humanidade confronta o arquétipo. Existe um diálogo entre a consciência e os poderes instintuais da psique, representados pelos dois prelados em busca de consolo e iluminação.

O Papa do Arcano representa uma figura mortal, humana, que busca comunicar-se, mas também pode excomungar. Seu lado sombrio pode ser, de fato diabólico, como a história já mostrou, figurando o dogmatismo e o fanatismo entre suas manifestações mais conhecidas. Quando pretende que o ego identifique-se com qualquer imagem arquetípica, irradia sua força ao mesmo tempo fascinante e coagente, mas também terrificante e repelente.

O Papa é uma representação do Logos e como tal, simboliza o animus, termo utilizado para designar o princípio masculino inconsciente que aparece na psique da mulher, assumindo muitas formas, várias retratadas no Tarot. Distinguem-se quatro fases na evolução do Logos, da mesma forma como surgem externamente na cultura e internamente no inconsciente das mulheres em geral. A primeira fase compreende a idéia do “poder dirigido”, retratada no Tarot como O Mago. A segunda, “ato”, é simbolizada pelo Cavaleiro do Tarot, mais tarde conhecido como o jovem rei da lâmina O Carro. A terceira fase do desenvolvimento do animus é chamada “palavra”, personificada no Tarot pelo Imperador. E a quarta fase, “significação” é representada pelo Papa.

Como há homens de formidável força física, homens de ação, homens de palavras e homens de sabedoria, assim também difere a imagem do animus, em relação com determinada fase de desenvolvimento da mulher e dos seus talentos naturais. O problema especial da mulher nos dias de hoje é chegar a um acerto com o animus da “significação”. Com dificuldade a mulher atual encontra respaldo e satisfação na religião estabelecida. A Igreja que antes satisfazia suas necessidades espirituais e intelectuais, já não lhe fornece satisfação integral. Antes o animus, junto com seus problemas comportamentais, podia ser transferido como forças do além, e assim sua espiritualidade era expressa de maneira convincente nas formas estabelecidas pelos cânones da religião, não desenvolvendo nenhum conflito.

A necessidade de encontrar expressão espiritual e intelectual é tão instintiva e necessária nas mulheres quanto nos homens. Seus principal problema hoje é chegar a um entendimento com seu animus espiritual. Através do controle anticonceptivo e da tecnologia atual, energias antes gastas na gestação e nos trabalhos domésticos estão liberadas para o desenvolvimento espiritual. A mulher, como Eva espiritual, atraída pelo fruto da árvore do conhecimento, é confrontada com a necessidade de comer a maçã, quer seja boa de comer ou não, pois o paraíso da naturalidade e inconsciência, se foi para sempre.

Atualmente urge encontrar para mulheres e homens o significado da verdadeira espiritualidade. Não mais esperamos soluções mágicas para nossos problemas nem pajelanças levadas a efeito por feiticeiros da tribo. Não existem novos horizontes no planeta para serem explorados, para exaurir nossas energias em atos. Nossa fome espiritual não está sendo saciada devidamente. A figura do Papa já não satisfaz nossas necessidades místicas. Precisamos descobrir dentro de nós seu equivalente e encontrar um jeito de relacionar-nos com este arquétipo.

O Papa representa numericamente o cinco, número da humanidade, pois o homem tem cinco sentidos, cinco dedos em cada mão e pé. Muitos povos primitivos não sabem contar além de cinco; em nossa cultura  o cinco serve para facilitar contagens, possui também uma qualidade mágica: quando o elevamos ao quadrado volta sobre si mesmo. Os antigos chamavam-no número esférico e consideravam-no ligado ao infinito. Ele encarna os quatro elementos comuns da criação, mais o um representativo do Ente Absoluto da energia primal. Os quatro primeiros números representam princípios da realidade, ao passo que o número cinco simboliza a Realidade Final, podendo significar o nível psicóide do homem, o permanente substrato da psique, a partir de onde tudo mais evolui. A razão disto é que os números ímpares, quando divididos, sempre deixam livre o um – número do espírito. O Um nunca poderá ser dividido nem danificado até o final dos tempos.

Os chineses simbolizam o homem como um pentagrama. O pentagrama cabalístico, representativo da síntese universal, de acordo com sua posição representa ordem ou confusão. Com uma ponta para cima representa o Salvador: com duas pontas para cima representa Satanás, o rei do inferno, o bode chifrudo do Sabá. Virado para baixo representa desordem intelectual, e loucura, um mau presságio, aviso de magia negra. Em pé, guia e protege o homem. Magos usam o sinal diante de suas portas para reter as forças positivas e afugentar os maus espíritos.

A quinta lâmina do Tarot reúne poderes positivos e negativos; salutares e destrutivos, sua função interior é trazer bem estar espiritual, consciência inata que adverte-nos quando pecamos contra o Espírito; mas quando se torna infalível, projeta uma sombra do mal, denunciando histérica as mazelas de nossos amigos e vizinhos que imaginamos devam ser punidos pelos “pecados” que cometeram por não concordarem com nossos pontos de vista, crenças ou ideologias.


Segundo o Tao Té Ching, o homem perfeito é inútil  no julgamento falho dos homens superficiais, que tem toda sua vida regulada pelo acumular de riquezas e poder. Os que estão “cheios de si”, cheios de memórias de tempos mortos, de sinais dos encontros nos caminhos da vida, nunca poderão alcançar o verdadeiro despojamento dos que veêm a verdadeira face de Deus. O caminho do Tao é sutil demais para ser trilhado pelos que estão cheios de si e estes nunca vão alcançar uma abertura total à natureza das coisas.


OS VELHOS MAGOS DE ANTANHO

Os sábios perfeitos da antigüidade eram misteriosos,
sobrenaturais, penetrantes, profundos demais
para serem compreendidos pelos homens.
Não podendo ser compreendidos, errônea será toda
Descrição. O que podemos dizer é apenas
uma pálida aproximação da realidade.
Eram atentos como o homem que cruza o tormentoso rio
em pleno degelo depois do inverno.
Prudentes como se temessem seus vizinhos.
Formais com aquele que é hóspede de alguém muito
Cerimonioso. Evanescentes como o gelo ao derreter.
Despretensiosos como a madeira bruta, que não recebeu
qualquer forma das mãos humanas.
Livres como o vale!
Turvos como a água enlameada.
Quem pode tornar-se calmo e assim para sempre
permanecer?
Aquele que segue o Caminho Perfeito
não deseja estar cheio de coisa alguma
E por não estar cheio (de si mesmo) pode parecer
que está gasto,
inútil e desprovido da perfeição temporal dos homens. 
  
              
 
  O ENAMORADO – VI.

Segundo a tradição oculta, esta lãmina significa atração, amor, beleza, idealismo. O Arcano VI representa no mundo divino, a Ciência do Bem e do Mal. No mundo intelectual, o equilíbrio da Necessidade e da Liberdade. No mundo físico, o antagonismo das forças naturais, o encadeamento das causas aos efeitos.

O Arcano VI é representado por um homem de pé e duas mulheres; uma à direita, cingida por um toucado que personifica o apelo ao racional e outra à esquerda que representa o apelo ao emocional. Acima e atrás deste grupo, Eros, invisível, entesa seu arco em direção ao coração do homem. O conjunto exprime a luta entre as paixões e a consciência humana. Seu sentido oculto é “toma cuidado com tuas resoluções”. “Obstáculos impedem o caminho da felicidade que procuras”; “sortes contrárias pairam sobre ti, e tua vontade vacila entre partidos opostos”. “A indecisão é mais funesta que uma escolha má”. “Avança ou recua, porém não hesites e saiba que uma cadeia de flores é mais difícil de romper que uma cadeia de ferro.

A carta número seis dramatiza  uma questão muito humana: um homem envolvido com duas mulheres. A figura central parece ser  uma pessoa comum, sem nada de mágico ou divino, que enfrenta a vida e suas questões com os pés firmes plantados na realidade cotidiana. Podemos ver pelos seus trajes e maneiras, um passo à frente na evolução da consciência e da percepção individual, longe da consciência grupal. É a personificação do jovem e vigoroso ego, pronto para enfrentar a vida a própria custa. Inexiste aqui figura de autoridade que possa orientá-lo e portanto precisa encontrar dentro de si, a força para enfrentar a confrontação da vida, assumir sozinho a responsabilidade por qualquer ato praticado.

Anteriormente vimos com Pitágoras que o triângulo, primeira forma geométrica, simboliza uma realidade humana fundamental e está ligada à alma. Da mesma forma vemos aqui duas figuras femininas na carta em questão. Na percepção comum de homens e mulheres, as figuras masculinas representam comumente, consciência, consecuções intelectuais e espírito; as femininas simbolizam aspectos corporais, emoções e alma. Na figura é evidente que o personagem masculino está envolvido com as duas mulheres de corpo e alma. Certamente uma lhe fala mais a paixão física, erótica, enquanto a outra possui o domínio dos sentimentos secretos e esforços espirituais. Uma, de postura mais imponente, que usa o toucado, tem a mão possesivamente colocada no ombro do rapaz, enquanto a loira, à direita, parece tocar-lhe de perto o coração. Acima o arqueiro alado visa também ao coração do jovem. Talvez ambos, arqueiro e loira sejam aliados.

Nosso personagem central acha-se imobilizado entre as duas mulheres como se estivesse preso entre duas tenazes. Cada mulher representa algo importante para ele, pois volta-se com a cabeça para a personagem à direita, que ele escuta, enquanto o resto do corpo oscila na direção da amante loira à esquerda, seu lado do coração. Encontra-se aparentemente dividido interiormente por estímulos conflitantes. Caso tivesse de escolher uma das duas, permaneceria metade de si para trás, emergiria dilacerado, impedido da oportunidade de desvendar os secretos atributos potenciais da abandonada e os reclamaria como parte da própria psique. Os valiosos poderes interiores ficariam para sempre guardados pela mulher preterida nas sombras inconscientes da sua mente.

Ambas exercem tirânico poder, uma atração mágica, hipnótica, parecem pertencer-lhe de forma compulsiva e misteriosa. Não consegue libertar-se de forma externa, no mundo da realidade, pois fazem parte de sua realidade interior. De maneira ideal, resistindo e suportando tanta tensão de poderes e desejos antagônicos, e conhecendo cada uma como ser humano individual, ele se libertará destas influencias e voltará ao seu próprio eixo existencial. Terá assim dado um passo decisivo em direção à própria individuação. Contrariamente, sua anima, poderosa força instintual, manipulará suas emoções e sua vida.

Estas duas forças femininas, humanamente, incorporam poderes da casta Sumo Sacerdotisa e da Grande Mãe, representadas anteriormente como a Papisa e a Imperatriz. Simbolizam ambas o principio Yin. A consciência recém emergente, como numa distante moldura, cria uma espécie de visão dupla. Mesmo elas não tem, segundo a tradição esotérica, vida própria sem o Enamorado. Ambas parecem extremamente possessivas em seu estado inconsciente, e ele está sendo possuído por elas.

Sabemos que ele está emocionalmente envolvido com as duas, mas desconhecemos os pormenores envolvidos no drama representado. O Tarot de Marselha, diferente dos baralhos modernos, representam uma estória ilustrada sem enredo. Dando portanto ao consulente total liberdade para preencher as lacunas de acordo com sua intuição e introvisão individual conforme as necessidades e o ambiente cultural existente.

A mulher à nossa esquerda, pode ser sua mãe literal, representa um tipo maternal, oferece ao seu ego jovem e tenro, apoio, proteção e sustento. Possui domínio sobre ele, seus cuidados talvez sejam excessivamente protetores e restritivos, tendentes a mantê-lo num nível infantil de comportamento e impedindo seu crescimento. Ela potencializa a rainha poderosa mas possui a sombra sinistra da feiticeira.

A jovem loira, à direita, com cabelos semelhantes ao personagem central, intui ser sua anima ou imagem da alma, seu lado feminino inconsciente. Sua semelhança indica que eles, inconscientemente, tem um relacionamento. Ela pode representar uma princesa ou cortesão, nobre e inspiradora ou caprichosa e exigente. Como escravo da sua vaidade talvez nosso personagem masculino escalasse a mais alta montanha e como escravo de seus caprichos talvez perdesse a vida tentando.

A poderosa influencia das duas presenças femininas obriga nosso homem a ter que lidar com uma de cada vez. A fascinação que sente pela anima loira  pode afastá-lo do tipo maternal. Talvez não vivam felizes para sempre, mas através deste envolvimento terá cortado seu cordão umbilical e dado um passo importante na sua evolução pessoal, como ser humano responsável e maduro. Mais tarde poderá retornar ao encontro com o tipo maternal, desta vez sem a subordinação filial, mas numa base adulta de relacionamento.

Psicologicamente ele terá que pactuar com ambas se quiser atingir sua estatura de homem. Seja quem for a preterida, o seguirá até os confins da Terra, literalmente ou psicologicamente. Todos conhecemos como pode ser obsessivo qualquer aspecto que tentamos deixar para trás no inconsciente. A fúria da mulher desprezada pode assemelhar-se a da vingativa Hécate, a feiticeira do mito grego, ou das Erínias, chamadas também Eumênides, “Deusas Benfeitoras”, eufemismo destinado a apaziguá-las, eram deusas de violência e terror, nascidas das gotas de sangue que fecundaram Géia,  a Terra, caídas de Urano, o Céu, mutilado por Cronos, seu filho, enquanto dormia. Chamavam-se Aleto, Tisífone, e Megera. Eram representadas como gênios alados, cujos cabelos eram entremeados de serpentes. Levavam nas mãos tochas ou chicotes. Moravam  nas Sombras Infernais, no Érebo. Protetoras da ordem social, castigavam o crime que perturbava a sociedade e principalmente a família. Fustigavam e atormentavam suas vitimas, sem dó nem piedade. Eram odiosas até ao próprio Hades, senhor infernal. Perseguiram Orestes que por vigança pelo assassinato do pai, o rei Agamenon, assassinou a própria mãe, Clitemnestra e o amante usurpador do trono, sendo o herói poupado pelas Erínias sómente após ser julgado e absolvido pelos deuses, graças ao voto de desempate da deusa Atena.

Alguns iniciados associam a lâmina o Enamorado como alegoria ao Julgamento de Páris, outro julgamento onde Eros representou importante papel. Sua associação psicológica carece ser explorada. No mito grego, Juno e Atena ofereceram a Páris razões convincentes e subornos para receberem cada uma o prêmio do Pomo de Ouro da beleza que acreditavam ter direito. Mas Vênus, representada como a loira na gravura, descobriu-se de suas vestes, revelando encantos divinos, enquanto seu filho Eros lançava sua seta do amor ao mancebo. Vênus ganhou a maçã e Páris foi por ela premiado ligando-o a Helena, cujo rapto dela do marido levou seu mundo ao sofrimento e ao derramamento da sangue, mas legou-nos esta introvisão e inspiração imortalizada pelo épico de Homero, a Guerra de Tróia.

O papel de Eros é ambivalente neste drama também, mas o sentido simbólico é o mesmo em todos os casos, o Enamorado precisa libertar-se da atração regressiva  do ventre que busca encerrá-lo, seja qual for sua escolha, e ingressar na própria maturidade e virilidade. Como em toda concepção haverá sangue, mas também o renascimento de uma nova vida. Na forma humana, a Mãe Terrível à esquerda na nossa figura transforma-se na madrasta cruel, na rainha malvada ou feiticeira de cujo domínio o nosso herói precisa libertar a princesa aprisionada, seu “verdadeiro amor”, sua outra metade, sua alma. Sua meta deve ser desvencilhar-se desta fascinação mortal, libertar-se e envolver-se na vida. É através deste processo psicológico que o Arcano, o Enamorado, símbolo do ego, transmuta no herói, símbolo da consciência humana em busca da autocompreensão. Nesta lâmina, nosso desafio consiste em conectar a vida espiritual à emocional e através do apaixonado envolvimento com a vida, alcançar um novo relacionamento com as pessoas e uma nova harmonia consigo mesmo.

O conflito é a essência da vida e pré-requisito necessário ao crescimento espiritual. Nossa vida não pode ser vivida no abstrato e apenas enfrentando cada conflito individual e sofrendo-o até sua solução, resolução ou transcendência chegamos ao âmago de nosso eu. São conflitos aparentemente insolúveis, ou seus sintomas neuróticos causados pela repressão ao conflito, que levam as pessoas a auto análise e a coloca no rumo da individuação. Como intuíam os velhos magos e alquimistas, o conflito é o primeiro ingrediente indispensável ao crescimento espiritual.

A paz interior alcançada através da tomada de consciência dos nossos conflitos, seu enfrentamento e da resistência que lhe opomos, longe de ser o objetivo final, é uma consecução temporária, um nível intermediário no meio da longa travessia. Cada nova percepção alcançada ao longo da jornada surge como novo conflito. Portanto, buscar uma análise cada vez mais profunda significa submergir em conflitos mais profundos, mas ao mesmo tempo experimentar reinos mais profundos de percepção e paz.

Com certeza nosso herói precisa fazer uma escolha e assumir a responsabilidade pelas conseqüências de seus atos, entretanto como observamos, forças invisíveis de ordem divina pairam sobre sua cabeça influindo na decisão. Como sempre acontece, a seta de Eros envolve-nos numa espécie de confusão aparentemente desastrosa do ponto de vista lógico. Desgovernada, a emoção vigorosa que ela induz pode destruir tudo a volta, porém sem a intensidade apaixonada do calor emocional, nenhuma transmutação ocorre. O ouro do nosso espírito permaneceria forjado em chumbo frio.

Eros é uma poderosa divindade pré-olimpica, força fundamental do mundo. É considerado uma divindade nascida ao mesmo momento que Géia, a Terra, oriundo diretamente do primitivo “Caos”, ou ainda nascido do Ovo Primordial, concebido pela “Noite”. Ele assegura não só a continuidade da vida, mas a coesão interna dos elementos. Era um deus mais ambivalente, mais próximo do Destino, símbolo do poder fatal que atraí os opostos e como tal juntou as forças primevas que originaram o Universo, trazendo harmonia ao caos e tornando possível toda a vida. É o espírito, a encarnação do impulso da vida universal.

Como potência sexual, o deus Eros pode causar discórdia, destruindo velhos padrões da lei e ordem conhecida, assim rompendo trilhas para uma nova forma de vida. Transcendendo a paixão sexual , no sentido alquímico, utiliza-se do “Fogo Divino”, que mantém com condição necessária à Grande Obra da transcendência do ego e do auto descobrimento. Uma profunda experiência amorosa dá partida muitas vezes, a busca da individuação. Na nossa vida um novo envolvimento emocional marca geralmente um estágio novo no nosso desenvolvimento, surgindo como ato do destino, sina inevitável. Experimentamos todos os aspectos de vida e morte da seta do amor. Quando perdemos alguém no amor é uma espécie de morte, o fim da existência puramente centrada no ego, assinalando na nossa jornada de vida uma nova fase de renascimento e transcendência.


O grande mestre Jung, ao descrever este arquétipo focaliza seu papel ambíguo: “Eros é um sujeito suspeito e assim permanecerá para todo o sempre, seja o que for que a legislação do futuro tenha para dizer ao seu respeito. Pertence a um lado da natureza animal primordial do homem que perdurará enquanto este tiver um corpo animal. Por outro lado, está ligado ás mais altas formas do espírito. Mas somente medra quando o espírito e o instinto estão em correta harmonia. Em lhe faltando um ou outro aspecto, o resultado é danoso ou, na melhor das hipóteses, assimétrico, podendo resvalar para o patológico. O animal em excesso distorce o homem civilizado, a civilização em demasia deixa doentes os animais.”

Platão denominou Eros de “o desejo e a busca do todo”. Exteriormente a sobrevivência desta força instintual sem assimilação correta do seu significado e poder leva o indivíduo ao desequilíbrio. Experimentado como realidade externa, sem uma preparação adequada da psíque pode resultar em donjuanismo. O nosso herói buscando a completação e a totalidade, exclusivamente, através de muitas ligações amorosas, sem ficar mais próximo da anima do seu interior, único caminho do autoconhecimento e estabilidade que busca, nunca efetivará seu destino de individuação.

Numerologicamente o número seis é único. Pitágoras denominou-lhe número perfeito porque um, dois e três, suas partes alíquotas, somados dão o número seis. É considerado também o número da completação. Simbolicamente é representado como uma estrela de seis pontas, composta de dois triângulos, um deles apontado para cima e o outro apontado para baixo em relação ao observador. O superior é o triângulo de fogo que aponta para Eros, o Destino, figura arquetípica que não temos controle algum e o inferior o triângulo de água aponta para o reino material da escolha humana, assim estes elementos unem-se para criar a estrela do destino humano, uma força aglutinadora que transcende a ambos.

“Como em cima, assim embaixo”, diz a máxima hermética sobre a estrela de seis pontas. Na religião Hindu expressa o sinal de Vishnu, e representa o casamento místico de shiva e shakti, o macro e o micro entrelaçando-se na eternidade. O seis é o único número considerado simultaneamente masculino e feminino.

O sentido principal desta lâmina, seja qual for a decisão do nosso personagem e para onde vá, terá que acompanhar-se, isto é, fazer companhia a ele mesmo. Portanto pouco interessa sua escolha do caminho, mas sim o lugar em que escolhe. Este momento retratado é fatídico e fatal, ele tem que dar tudo o que tem e não esquecer as próprias preces e mantras para sua própria proteção e sanidade.

O Tao Té Ching fala da busca de um momento de paz em meio ao turbilhão, o lugar que chamamos  “olho do furacão”, devemos procurar o retorno às origens de nosso próprio destino, penetrar as camadas superpostas da cristalização de hábitos mortos com que tentamos proteger-nos iludidos em construir algo permanente. No meio da luta, do conflito, do choque, o “olho” está lá a espera de que nos assentemos em firmemente em repouso e meditação, longe do acelerado ritmo da atualidade, onde a maioria hipnotizada busca acelerar o ritmo da existência a fim de aumentar seus bens acumulados, adquirir mais conhecimentos tecnológicos inúteis ao próprio crescimento interior, mais excitação, mais experiências materiais, tônica de uma civilização alienada que nunca sente a consciência do Tao.

Retorno à Raiz.

Podemos obter o estado de vazio quando com fervor
nos assentamos em repouso.
Todas as coisas entram em seus processos de atividade
e depois voltam a absorver-se no repouso.
No mundo vegetal, ao atingirem as formas a máxima
Plenitude, vemo-las, aos poucos, retornarem às suas
origens.
Este retorno à raiz chama-se estado da tranqüilidade.
Essa tranqüilidade é uma prova , um sinal de que finalmente conseguiram
atingir sua meta suprema.
O retorno ao próprio destino é uma constante,
conhecer essa lei é mostrar-se inteligente
não conhece-la leva a maus resultados.
O conhecimento dessa regra imutável nos torna
Magnânimos e aquele que é magnânimo é, na verdade um rei
Assemelha-se ao céu
Pois seguiu o Caminho Perfeito e com o Tao se uniu.
Assim permanece para sempre.  
E quando o dia chegar, e seu corpo desaparecer,
Já nenhum perigo o espera. 


O CARRO – VII.

Conforme a tradição oculta esta carta significa “providência”, “auxílio”, “triunfo”. O Arcano VII significa; no mundo divino: o “Setenário”, isto é, tradicionalmente um espaço de sete dias ou sete anos, “a dominação do Espírito sobre a Natureza”; no mundo intelectual: o “Sacerdócio”, e o “Império”; no mundo físico: a “submissão dos elementos e das forças da matéria à Inteligência e ao trabalho do Homem”.

O carro de guerra de forma quadrada estampado na lâmina simboliza a “obra realizada pela Vontade que venceu os obstáculos”. As quatro colunas do pálio representam os quatro elementos sobrepujados pela figura central, o rei, senhor do cetro. O sentido oculto da lâmina é “a exaltação ilimitada do poder humano no infinito do espaço e do tempo” e “o Poder equilibrado pela Inteligência e a Sabedoria”. A coroa de ouro que cinge a fronte do triunfador representa:  “a posse da luz intelectual que desvenda todos os Arcanos da fortuna”. Os três esquadros traçados na couraça, símbolo da força, significam: “retidão do Juízo, da Verdade, e da Ação”. O cetro encimado pelo triângulo, símbolo do Espírito, e por um círculo que simboliza a Eternidade, significa: “a perpétua dominação da Inteligência sobra as forças da Natureza”. Os dois cavalos representam o Bem e o Mal, um conquistado e o outro vencido, ambos servos do Mago que triunfou em suas provas de libertação do Espírito.

A lâmina VII exprime que “o Império do mundo pertence àqueles que possuem soberania do Espírito”, isto significa, “a luz que ilumina os mistérios da vida”. “Vencendo obstáculos esmagarás teus inimigos que são suas paixões e defeitos, pois as pessoas que nos fazem obstáculos são apenas instrumentos destinados a testar nossa evolução neste plano”. “Penetras no futuro com a audácia armada pela consciência do teu direito”.

O Carro representa um veículo de poder e conquista, em que nosso herói, o Mago, cingido pela realeza, pode viajar pela vida em busca de explorar suas potencialidades e ultrapassar limitações. A jornada exteriorizada não apenas simboliza a jornada interior, mas também o veículo para nosso autoconhecimento. Em qualquer jornada aprendemos muito ao nosso próprio respeito através do envolvimento com outras pessoas e nosso enfrentamento de desafios do novo meio, que oferece inúmeras oportunidades e novas percepções e também expõe-nos ao perigo da desorientação. Longe de casa, da família e dos amigos, o herói pode descobrir quem realmente é, ou ser destruído pela experiência.

Consciente ou não desta ligação entre jornada interior e exterior, nosso herói sai em busca de fortuna muito mais valiosa que o simples ouro mundano. Como nos mitos criados pelas conquistas da Alexandre Magno e seu domínio sobre o mundo conhecido, ligando-o ao triunfo sobre seu mundo interior. Também na volta de Ulisses a seu reino temos um paradigma da jornada do autoconhecimento, com nosso herói enfrentando inimigos com poderes Olímpicos e vencendo obstáculos em busca do retorno ao lar.

O Carro é o veículo simbolicamente ideal à jornada em busca da individuação. Possui poderes celestiais como o Carro do Sol, grande veículo do Budismo esotérico. Na Cabala sagrada hebraica representava o meio para os crentes subirem em direção a Deus e a Alma Humana unir-se a Alma do Mundo. Assim é um veículo que funciona no sentido de unir o homem à divindade, como o carro místico de Elias e o Carro de Fogo de Ezequiel que tinha rodas inusitadas representantes dos poderes numinosos, isto é, do estado religioso da alma inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade.

As figuras centrais do Carro e do Papa estão diretamente ligadas entre sí, conforme as gravuras exibidas nas lâminas. Na lâmina número cinco, o sumo sacerdote, localizado no quadrado formado pelos dois padres e pelos dois pilares, intui um quinto elemento, transcendente dos quatro pontos cardeais da realidade comum. Assim também o rei da lâmina sete figurado na moldura formada pelas quatro colunas representa um elemento quinta-essencial dotado pela majestade, de poderes e privilégios especiais, acima da humanidade comum. Sua coroa de ouro, como um halo de santidade, conecta-o à iluminação e à energia solar. Sua figura age como auriga, força direcionadora localizada no centro  íntimo do veículo psíquico. Do ponto de vista psicológico, significaria que tais elementos, figuras majestáticas, foram aglutinados no interior da própria psique como seu principio diretivo. Diferente das figuras masculinas de poder anteriores, o rei é jovem, indicando trazer consigo novas energias e idéias.

Seu carro permite-lhe maior movimento e flexibilidade. A força motriz fornecida pelos dois insólitos cavalos, o vermelho significando o aspecto físico e o azul forte o espiritual, simbolizam os pólos negativo e positivo da energia animal que existe em toda a natureza. Apesar de não serem uma parelha perfeita, pelo menos avançam em determinada direção. Para desconcerto nosso os cavalos não possuem rédeas. Parecem fazer parte do veículo, como um organismo psicofísico que mantém e transporta o rei. Seu condutor necessita o poder suprapessoal dos heróis épicos para dirigir este veículo.

As colunas e o baldaquino compreendem um espaço seguro, que protege e contém as energias do monarca, como os quatro pilares do ser psíquico. Dois são vermelhos e dois são azuis, repetindo as cores dos cavalos, indicando que os vários aspectos da psique estão a trabalhar para um propósito comum.

O seu condutor, um jovem rei, símbolo de um ativo princípio diretivo, necessitará da proteção do baldaquino, e toda estabilidade que puder manter, pela dubiedade do carro, que como todo veículo de duas rodas, exige seu perfeito equilíbrio, mantendo os opostos em constante equilíbrio.

Muitos buscam nas drogas, na televisão, e outros artifícios formas mecânicas de “viagens”, na maioria das vezes prejudiciais a saúde ou obliterantes do espírito. Viajantes criativos dispensam tais ajudas pois sabem que interiormente dispõem de um “carro” a sua disposição, coisa que a maioria dos homens já esqueceu. É fácil imaginarmo-nos viajando nesse carro mágico, nossa jornada cotidiana onde basta fecharmos os olhos e fazer o contato com as esferas superiores.

Sua coroa dourada conecta-o diretamente com a energia áurea do Sol. A partir de seu poder divino recebe a direção a seguir de forma misteriosa. Como sugere Papus as duas máscaras sobre seus ombros sejam as insígnias de Urim e Thummim ( do hebraico lit. “Luzes e Perfeições”), objetos sagrados pertencentes ao Racional do Juízo, de inspiração sacerdotal egípcia, usados pelos sumos sacerdotes de Israel sobre o peito, ao lado do seu coração, quando se apresentava diante do Senhor para perscrutar as vontades de Jeová, ou simbolizem as luzes diretivas do Sol e da Lua. Por meio do Urim e Thummim, mantido guardado em uma dobra do Racional do Juízo, o Hierofante consultava a vontade de Deus em casos difíceis, assuntos judiciais, de interesse público somente. Por tal razão seu lugar era no Racional do Juízo, onde se encontravam gravados os nomes das doze tribos de Israel sobre pedras preciosas.  Não só eram consultados no santuário, onde estava a Arca, como em qualquer outro lugar onde estivesse o pontífice devidamente autorizado. As respostas eram simples, consistindo em afirmativas ou negativas. O sacerdote ao vestir o éfode com o Urim e Thummim, e fazer oração a Deus, ocorria-lhe uma idéia, cuja origem divina se confirmava por um brilho estranho das pedras preciosas do Racional do Juízo, o peitoral. Deste fenômeno originou-se a palavra  Urim, que significa luzes. Possivelmente, o mais correto seria crer que o Sumo sacerdote investido destes objetos sagrados, para obter a luz e a verdade, com o fim de buscar o conselho de Jeová, humildemente punha diante Deus sua petição. A resposta vinha-lhe a mente, e como tivesse feito seu pedido de acordo com as instruções divinas e baseado na promessa que receberia luz e verdade, tinha-a como expressão da vontade de Deus. A fé em Deus baseava-se na evidencia das coisas não vistas. Esta interpretação do sentido do uso do Urim e Thummim encaixa-se com o espírito de todo o ritualismo do tabernáculo. Conforme alguns autores a resposta consistia em uma iluminação interna, sem nenhum sinal exterior, em paralelo com as revelações dos profetas bíblicos. Outros pretendem tratar-se de um sistema de adivinhação similar aos utilizados hoje em dia, como o I Ching, o Tarô, ou o Mô tibetano. Seu mecanismo oracular perdeu-se no passado, e foi utilizado, segundo os relatos bíblicos, por ultimo pelo rei Davi.

O Carro simboliza o poder de transporte da psique, essencialmente um processo dinâmico, que como a paisagem que passa quando deslocamo-nos numa viagem, dentro de nós o olho interior capta as imagens como numa fita de cinema. Imagens incertas, muitas vezes não reconhecidas, dão feição a nossa vida e nossos atos. Contém a semente vital da vida.

Seu número, o sete está associado ao destino, e à transformação. Na China o número sete é considerado como Yang, e seus múltiplos positivos possuem significações particulares. Entre os vários domínios da fisiologia, seu significado é muito importante. A idade de sete anos distingue os meninos das meninas, suas diferenças fisiológicas começam a acentuarem-se visivelmente. Aumenta de ano em ano a carga positiva, a atividade Yang entre os meninos, e a carga negativa, a atividade Yin, entre as meninas. Na idade de 14 (7x2) anos, as menstruações aparecem, bem como a atividade sexual masculina; é o terceiro período fisiológico. Nos anos subsequentes aparecem cada vez mais fenômenos fisiológicos mais ou menos perceptíveis. Na idade de 49 (7x7) anos, as menstruações cessam. Na filosofia oriental existe a lei séptupla da harmonia divina e os sete chacras. É um número cabalístico, representado primordialmente pelos sete atos isolados da criação no Gênese, e inclusive no processo alquímico onde há sete estágios de transformação sob o influxo de sete metais e sete planetas.

O Carro assinala o início de nova era e sua energia conduz-nos aos demais Arcanos denominados Reino do Equilibrio, na seqüência: O Imperador; A Roda da Fortuna; A Morte; A Torre da Destruição; e O Sol, cada uma responsável por dar início a um novo ciclo de desenvolvimento.

O Imperador define nossa transição da infância em meio ao grupo familiar para a juventude junto ao grupo masculino dos amigos, o Carro indica outra iniciação num contexto social mais amplo, descobrindo seus potenciais e limitações mais singulares. Dentro deste processo evolutivo da personalidade apenas nossos atos revelam quem somos.

No centro do veículo está o rei, principio diretivo superior à consciência do ego, função mediadora entre o homem e Deus, já que acumula o pontificado. É um monarca jovem, inexperiente ainda, mas carrega em seu interior a semente do crescimento futuro, e da autopercepção, principio diretivo que opera do interior da psique. Erguem-se sugestões de um poder que transcende sua consciência ainda limitada. Ele apreende aqui suas primeiras intuições, embora fugazes, de sua psique como ferramenta hábil para tornar seu eu mais profundo manifesto. Apreende vestígios de sua função transportadora da consciência e conecta seu destino pessoal a um objetivo maior.

O nobre cocheiro na sua frente tem representada uma barra horizontal, que divide a lâmina entre o que está acima e o que está embaixo, separando o auriga, sua força diretiva, dos cavalos, energia instintual motriz capaz de puxar o carro para frente. Nosso personagem assim colocou-se acima de sua natureza animal e de sua identidade individual como ser humano mortal julgando-se superior a sua humanidade instintual.

O Carro retrata o estado de inflação do ego que os antigos denominavam hybris. Psicológicamente representa a condição em que o ego, ou centro da consciência individual acredita ter-se tornado uma figura arquetípica, acima das limitações humanas.

Na mitologia grega mortais que ultrapassavam limites humanos eram castigados e perseguidos pelos deuses. Até mesmo os deuses e seus rebentos estavam sensíveis a hubris algumas vezes.  Faetonte, filho de Apolo, pediu ao pai, como sinal do reconhecimento de paternidade do deus, o permitisse guiar o carro Celeste do Sol. Depois de muito hesitar Apolo cedeu, recomendando-lhe que não saísse do caminho traçado na abóbada celeste. No entanto seus cavalos, percebendo a fraqueza do cocheiro, tomaram os freios nos dentes, e ora o carro chegava tão próximo da Terra que a abrasava toda, ora subia tão alto que os astros estremeciam, temendo que ele lhes fosse ao encontro. Zeus, para evitar desastre maior fulminou-o com um raio. Morto, ele caiu no Rio Erídano.

Muitas vezes a poderosa intensidade de uma inflação subliminar termina com um mergulho da consciência no vasto caudal do inconsciente, o que para alguns representa a morte simbólica ou não, ou ainda seu equivalente espiritual a loucura. Até mesmo Apolo não era imune a hubris, porém reconhecia suas limitações, pedindo orientação superior e ajuda aos poderes celestiais para manter seus possantes corcéis no caminho.

Nosso herói ainda carece desta humildade. Aparentemente o dossel sobre sua cabeça impede qualquer ajuda dos céus pela vontade do jovem cocheiro. Sua única esperança parece ser na sabedoria das duas máscaras que cingem seus ombros. Talvez como os antigos césares em triunfo murmurem mensagens de humildade ao jovem rei antes que seja tarde demais.

A despeito destas características negativas, o Carro define um ponto crítico no crescimento pessoal deste nobre eu. Surge como primeiro experimento de suas próprias capacidades interiores, jovens e vigorosas, um poder a que está intimamente ligado. Já não carece de figuras barbudas de poderes sobre humanos, sentados em tronos distantes, pois pode alcançar seu próprio julgamento e destino.

Nos mitos o herói é sempre representado como um jovem rei ou príncipe que comanda e salva o coletivo de alguma ameaça externa. Simbolicamente expressa que vencendo o inimigo externo impulsiona a consciência para posição mais elevada, derrotando o monstro do inconsciente e restaurando o equilíbrio psíquico da sua comunidade. Como rei-herói de coragem, força e intuição inusitadas, o nosso personagem desempenha o drama da individuação para o coletivo fraco e inconsciente.

Krishna e Arjuna

Tradicionalmente, nosso herói é apresentado ultrapassando uma série de privações nos contos e estórias, a primeira consiste em resistir à tentação de ser convencido de desistir de sua busca pelo envolvimento regressivo com o feminino, simbolicamente pela sua mãe, ou feiticeira sedutora que pretende desviar sua jornada e impedir seu prosseguimento. Não admira que ele surja do primeiro encontro num estado de inflação do ego. Ele terá de ultrapassar por muitas provas desse tipo até que seu ego humano estabeleça firme identidade e mantenha um duradouro relacionamento com seu principio diretivo interior. No decorrer da campanha ele mudará, o cocheiro régio assumirá novas formas e dimensões mais amplas.

Muitas ciladas esperam ao longo do caminho. Teatralizar a viagem apenas no nível externo pode ser uma delas, o jornadear compulsivo evitando o desafio da busca interior e o descanso necessário a sua realização. Alguns buscam na vida nômade, de forma legitima, encontrar um significado interior, outros perambulam num vaguear sem fim para escapar ao vazio de suas vidas.

Alguns buscam nas drogas um atalho para a própria iluminação, impacientes com os aparentes resultados lentos na busca da individuação, deprimem a consciência do ego por meios artificiais, expondo mais o inconsciente. Independente dos graves riscos a saúde, na maioria das vezes não atingem o objetivo de ampliação da percepção desejado. Como em qualquer viagem o importante é o nível de interação alcançado e a assimilação das experiências de forma qualitativa e não o volume de novas sensações desconcertantes.

Intoxicada, a consciência do ego submerge, levada por conteúdos inconscientes, sem poder desafiar os seus monstros nem interagir com outros aspectos desse estranho mundo alucinado. Por outro lado ao regularmos nossas viagens nessa terra desconhecida naturalmente, através de nossos sonhos, fantasias, visões e outras manifestações espontâneas do inconsciente, poderemos interagir com o material e assimilá-lo e não seremos totalmente submersos.

A psique é um sistema auto regulável. Consciente e inconsciente enquanto ativos poderão inclinar o Carro de muitas formas e violentamente, mas com menos probabilidades de virar. Por outro lado se apenas um dos membros da parelha estiver funcionando, o desvio da estrada é evidente, podendo levar nossa carruagem ao fracasso do atoleiro. O equilíbrio das tendências é fundamental para manter o veículo na estrada.

Segundo um velho adágio: “a vida não examinada não vale a pena ser vivida, e a vida não vivida não vale a pena ser examinada”.

O cheio, o acabado, o terminado, não tem qualquer uso, pois nada mais pode conter. Certa vez um mestre Zen que viveu durante a era Meiji recebeu a visita de um ilustre professor universitário que desejava conhecer sua filosofia. Segundo o costume o mestre convida-o para o chá. A chávena do visitante já está cheia, mas o mestre continua imperturbável derramando o líquido que escorre pelo chão. O professor exclama: “a chávena está cheia! Chegou o momento de parar”. Ao que o mestre responde: “assim como a chávena, também estás cheio de conceitos e especulações. Como poderei falar-te do Zen, se não te esvaziares primeiramente?”

A Virtude do Vazio.

Trinta raios convergentes unem-se ao cubo formando uma roda.
Mas é seu vazio central que permite a utilização do carro.
Modelai o barro para fazer um jarro
Recortai no espaço vazio das paredes portas e janelas
a fim de que um quarto possa ser usado.
Desta forma o ser produz o útil
mas é o não-ser que o torna eficaz. 
  

               
A JUSTIÇA –VIII.

Segundo a tradição secreta dos Arcanos esta lâmina representa justiça, equidade, retidão, equilíbrio, plenitude. No mundo divino representa a “Justiça Absoluta”. No mundo intelectual a “Atração e a Repulsão”. No mundo físico, a Justiça relativa, falível e limitada que provém dos homens.

Representa o antigo símbolo da Justiça que pesa os atos e que opõe ao mal, para contrapeso, a Espada da expiação, sinal de proteção ao bons e ameaça aos faltosos. A Justiça oriunda de Deus, é a reação equilibrante que refaz a ordem, o equilíbrio entre o direito e o dever. Seus olhos são representados bem abertos para demonstrar que sua penetração é muito além das razões parciais dos que se acham sob sua jurisdição.

O sentido oculto deste Arcano exprime que “obter a vitória e dominar os obstáculos vencidos, é apenas uma parte da tarefa humana”. “Para realizar a obra é preciso estabelecer o equilíbrio entre as forças que são postas em movimento”. “Toda a ação produzindo reação igual, desafiando a vontade prever o choque das forças contrárias, para temperá-lo e anulá-lo”. “Todo o futuro balança para o Bem e o Mal”. “Toda a inteligência que não sabe equilibrar-se é como um Sol abortado”. “O equilíbrio é a base da Grande Obra”.

Na sua representação mais antiga conhecida, fruto da civilização egípcia, tinham como centro da sua visão moral , o equilíbrio cósmico, encarnado pela deusa Maat, portadora de duas penas na cabeça. A deusa Maat encarnava a “verdade-justiça”. O seu símbolo, a pena, liga-a ao reino do ar e ao espírito dos pássaros. Cabia a deusa pesar as almas dos mortos a fim de determinar-lhes o destino no mundo inferior. Para isso colocava a pena num prato e o coração do falecido no outro. Aqueles em cujos corações a culpa pesava mais do que a pena não preenchiam aos requisitos estabelecido. A execução desta tarefa deve Ter exigido uma discriminação tão sutil e delicada quanto o equilíbrio dos pratos. Esta bipolaridade é confrontada com a “libração da balança” do Arcano VIII, a Justiça. Mais tarde a alquimia herdou do Egito este princípio de oposição e o simbolizou através da bipolaridade Mercúrio-Sulfuro.

A justiça relaciona-se com Libra através de sua antepassada, Astréia filha de Zeus e Têmis, irmã do Pudor, e conforme o mito perambulou pela Terra durante a idade de ouro e exerceu uma influência benigna sobre a espécie humana. Difundia entre os homens o sentimento de justiça e a virtude. Tendo os mortais degenerado,  a malvadez, a impiedade e a violência se apoderado do mundo, obrigaram a deusa a subir ao céu, pois a desarmonia era contrária a sua natureza, onde se transformou na constelação da Virgem. Mais tarde foi dividida simbolicamente para criar os signos astrológicos de Virgem e Libra.     

O Reino do Equilíbrio situa-se no meio do caminho entre o céu e a Terra. É através do homem que as energias do Ying e Yang serão sintetizadas e expandidas. Neste domínio o homem começa a desempenhar um papel mais ativo no contínuo processo da evolução criativa.

Apesar de séculos de sofrimentos e injustiças a humanidade persiste na idéia de que, ao final a justiça prevalecerá, tanto a divina quanto a humana. A sua imagem, presente em nossa mente, incorruptível, onisciente e prestativa no sentido de poupar-nos dos conflitos morais julgando demandas entre inocência e culpa continua presente. Segundo a tradição vulgar a virtude sempre é recompensada.

Na verdade os dois pratos da balança permanecem vazios, preparados para receber e aceitar a dualidade humana, num mundo onde todos somos inocentes e culpados. Na medida que aceitamos nossa natureza humana seremos aptos a abordá-la e entende-la melhor evitando as simplificações de inocência e culpa.

Este simbolismo acentua e revela sistematicamente uma junção harmoniosa de forças opostas, tanto no eixo celeste quanto no terreno claramente relacionadas na elaboração do equilíbrio. Sentada no trono a figura representa o principio feminino sobrehumano e a coragem masculina no trajar o elmo e nas armas que ostenta.

Não empunha sua espada na condição de defesa ou ataque, mas sim ereta como um cetro, um símbolo de poder. A imensa espada é feita de ouro, o que revela seu valor mais permanente. Sua imagem intui ser guardiã das portas do paraíso da infância perdida, o fim da inconsciência, impondo a plena responsabilidade de todo e qualquer conhecimento do bem e do mal que tenhamos adquirido.

Agora não mais podemos culpar os progenitores pelos erros cometidos para justificar nossos próprios pecados, por mais reais que suas falhas tenham ocorrido na nossa criação. Só o néscio interessa-se por culpas de outros visto que é impossível para ele mudá-las. Nem diabos ou infalíveis salvadores, devemos cortar o cordão umbilical, livrar-se de nossas dependências infantis, tanto as negativas quanto as positivas com o uso da espada ritual. Só então teremos um relacionamento adulto equilibrado entre gerações.

Cumpre ao jovem ego separar a fantasia da realidade, sacrificar ilusões e pretensões de muitos tipos, longe do paraíso de sonhos impossíveis. O gládio dourado simboliza o poder de discriminação que faculta-nos atravessar camadas de confusão e falsas imagens para revelar uma realidade central.

A justiça segura em posição ereta, com a ponta voltada para o céu, o gládio que age como fio de prumo para manter-lhe as decisões fiéis ao espírito. Na outra mão, a balança móvel, cujos dois pratos estão ligados por uma haste horizontal que destaca o eixo terreno, dá a entender a relatividade da experiência humana e a necessidade de pesar cada evento individual como fenômeno único. Suas duas formas associadas formam a cruz da luta espiritual contra a limitação humana, do idealismo contra a praticidade. A Justiça apresenta-se como mediadora entre as duas realidades.

Ela não olha para seus instrumentos, e sim fixamente para frente, como em transe, sugerindo introvisão espiritual antes do que visão intelectual. É evidente que sua introvisão espiritual transcende a visão intelectual. A Natureza com sua imensa sabedoria busca o equilíbrio entre as forças em disputa. Quando um indivíduo perde ou enfraquece algum sentido seu, os demais tornam-se mais apurados pela lei natural das compensações. O que se ganha nunca é idêntico ao que se perde, nem sempre também é seu oposto.

Nossa psique, como nosso soma, fazem parte da natureza, de modo não ser estranho que siga as mesmas normas similares de compensação. Nosso inconsciente age de forma compensativa em relação ao nosso consciente. Nossos sonhos modificam a posição do ego de forma complementar, como auxiliares empenhados numa tarefa mutua, adversários num jogo amistoso, objetivando tornar completo do ponto de vista da psique. Nossa psique é um sistema auto-regulador que não visa a perfeição, senão à totalidade e ao equilíbrio.

Da mesma forma, negando o absurdo intelectualismo dos nossos tempos, da internet e da mídia eletrônica, as figuras das lâminas do Tarot são uma reação compensatória aos estéreis dogmas das religiões ocidentais. O seu ressurgimento é a resistência dos indivíduos em busca de respostas que não cheguem pelas vias eletrônicas, massificadas, da psicologia de computador. Suas mensagens, seus ideogramas auxiliam-nos efetivamente a recuperar o equilíbrio.

Nossos sonhos também trazem-nos imagens, numa dramatização de nossos próprios aspectos que escapam da nossa mente enquanto consciente. Como os dois lados da balança, consciente e inconsciente travam um diálogo permanente, como numa gangorra, oscilando num bailado de movimento permanente.

Nesta observação da Justiça da lâmina, as forças opostas trabalham juntas, sem hostilidade ou conflito, como dois pilares de sustentação localizados em paredes opostas, sustentando toda estrutura da cobertura.

Historicamente e também do ponto de vista individual de desenvolvimento, antes os opostos não se diferenciavam, tudo era confuso e fluido. A consciência estava mergulhada no inconsciente aquoso, levaram séculos para que a espada chegasse às mãos da justiça para manter ou dividir a mente do homem.

Nas crises de stress, quando perdemos contato com o gládio, retornamos aos primórdios inconscientes, onde os opostos estão tão juntos que parecem virtualmente iguais. Quando possuídos pela aquosa deusa lunar, nossos estados de espírito vagam em ressonância com ela, rimos e choramos ao mesmo tempo, enxotamos o amado do lar comum, com raiva mortal, e nos desmanchamos de imediato em lágrimas de paixão. Com maior intensidade das pressões nossas avaliações morais podem sucumbir submergidas na emoção, e raivosamente brandimos a espada para figurativamente ferir os seres amados ou mesmo literalmente praticando crimes passionais.

Quando sentimos tensões emocionais crescendo interiormente, a visualização meditativa sobre os pratos da balança de ouro da Justiça pode auxiliar-nos a recuperar o equilíbrio perdido. Eles representam a possibilidade de que todos os opostos do universo podem funcionar juntos, criativamente. Seu travessão de ouro os separa de maneira que os opostos como bem e mal, amor e ódio, permanecem separados, e ao mesmo tempo presos um no outro, sem possibilidade de tornarem-se autônomos. Como na mitologia Hindu; Shakti e Shiva na sua perpétua dança, um movimento perene e gentil.

Na civilização ocidental cada renascimento do ventre da inconsciência carrega um sentimento de culpa pois parece ser um rompimento do todo. A consciência é uma atividade do eu; e essencialmente é uma questão particular e individual. Quer projetada em leis, normas ou credos externos, quer resolvamos problemas morais individualmente, nosso ponto de culpa é relacionado à nossa introvisão particular. Nunca devemos esquecer que nossa moral não nos veio do Sinai em tábuas de pedra para ser imposta ao povo, mas é função da alma humana, tão antiga quanto nossa própria humanidade. É regulador instintivo da ação que também governa a vida coletiva do rebanho. Mas existe, inevitavelmente, uma demora natural, um atraso entre a expressão da consciência individual e a sua regulamentação em lei pública.

Uma decisão salomônica não é um golpe brilhante através do nó górdio das complexidades, mas um julgamento feito pelo sentimento, exatamente como nos templos de Saturno, onde se exibia uma balança e conforme a tradição astrológica está bem colocado quando no signo de Libra, influenciando a capacidade de relacionamentos com equanimidade, responsabilidade e harmonia.

Aqui a Justiça não tem preocupação com a exatidão matemática, senão, como Astréia, com a harmonia, a beleza funcional e sua espécie particular de verdade não intelectualizada. A beleza é a verdade, a verdade é a beleza. Seu tipo de justiça poética não se preocupa com as questões de crime e castigo. Sua dedicação maior é a restauração das leis universais da harmonia e do equilíbrio criativo.

Mais uma vez lembramos a queda e destruição do infeliz Fáeton, que não conseguiu dirigir o carro de seu pai Apolo, e foi fulminado pelo raio de Zeus, motivado em salvar a ordem do universo, o equilibrio da natureza e não praticar ato vingativo. Assim procedeu o rei do deuses como ato de misericórdia, mais para manter a unidade do todo do que para punir o jovem inexperiente.

A Justiça representada na lâmina no Tarot não é afetada pela ira ou pela vingança. Não serve como imagem de adoração, mas como mediadora que se usa. Como tal prepara sua balança para acercar-se da condição humana, pois é atributo de ambas as naturezas, humana e divina, criar harmonia entre forças opostas. Para prosseguirmos espiritualmente adiante precisamos estar atentos ao poder dessas forças ocultas. Esquecer esta influencia  significa inclinar nossa balança interior em direção ao autoritarismo ou noutro extremo a escravidão, despojando o homem de sua humanidade.

Identificar-se com qualquer energia arquetípica é fatal. Imaginar-se a bela e bondosa deusa Astréia é colocar-se numa posição celestial acima de nossos semelhantes. E como em relação as outra lâminas, quando representada no seu simbolismo exterior, sem prestar atenção ao significado interno, gastamos nossas energias levando problemas aos tribunais em vez de examinar e corrigir nossa própria desarmonia. Todos conhecemos indivíduos, almas envoltas em trevas, que alternadamente  enganam e são enganadas, constantemente envolvidas em demandas judiciais, verdadeiras cruzadas desesperadas de todo gênero.

Às vezes, com certeza erroneamente, buscamos encontrar na justiça humana respostas que só encontramos nas cortes celestes. Todos necessitamos conectar com um princípio de harmonia e equilíbrio universais para certificarmo-nos da existência de um Tribunal Superior de apelação, um Juiz Supremo para o qual podemos defender nossa causa. Deus só atende nossa imagem de uma justiça mais elevada se argumentarmos e debatermos com Ele, desenvolvendo nosso diálogo interior entre o Ente Absoluto e a criatura, o homem.

O dualismo em que vivemos que divide aquilo que é uno, fragmentamos o conhecimento da realidade buscando melhor compreende-la. Não conseguimos perceber que tudo não passa de ilusão nesta vida. O excessivo racionalizar leva o homem a um beco sem saída, onde cada palavra é um paradoxo na consciência. As energias que movem nossas ações, na maioria das vezes estão condicionadas ao nosso dualismo. A harmonia entre forças opostas, sentimento de interação onde os ensinamentos são aprendidos sem palavras                       

      

O EREMITA – IX.

Segundo a tradição esotérica esta lâmina simboliza prudência, proteção, sabedoria, circunspecção. Este Arcano no mundo divino representa a “Sabedoria Absoluta”. No mundo intelectual, a “Prudência”, diretora da Vontade. No mundo físico, a “Circunspecção”, guia dos atos.

O Arcano IX é representado por um ancião que anda apoiado no seu bordão e carrega uma lâmpada acesa, meio escondida sob o manto. Este personagem simboliza “a experiência adquirida no trabalho da vida”, a lâmpada acesa significa “a luz da experiência que deve estender-se sobre o passado, presente e futuro”. O manto que a encobre parcialmente significa “discrição”. O bordão representa o “apoio prestado pela prudência ao homem que não revela seu pensamento”.

O sentido oculto do Arcano IX diz que “a prudência é a armadura do Sábio”. A Circunspecção faz “impedir os escolhos ou abismos e pressentir a traição”. “Toma-o por guia de todos os seus atos, mesmo nas menores coisas”. “Nada é indiferente neste mundo; uma pedrinha pode fazer tombar o carro de um senhor do mundo”. “A palavra é de prata, o silêncio é de ouro”.

O Eremita representa o Velho Sábio, personifica uma sabedoria que não encontramos nos livros. Seu poder é tão elementar e perene quanto o fogo de seu lampião. Homem conciso, de poucas palavras, habita no silêncio da solidão. Como um Monge do oriente não traz sermões, apenas sua simples presença que ilumina as trevas inescrutáveis da alma humana, aquecendo corações vazios de esperança e significado. É a personificação do espírito, nosso sentido oculto no caos da vida. Parece apenas uma figura humana, despojada de outros atributos existentes nas lâminas anteriores, que pisa o chão com determinação e comedimento, levando seu lampião para iluminar o caminho tortuoso que observa atento. Não pensa no que ficou para trás, absorveu e assimilou as experiências do passado. Nem busca potencialidades futuras ou vislumbrar horizontes distantes. Parece satisfeito com o presente imediato. Seus olhos estão bem abertos para receber as novas experiências, que serão tratadas conforme sua própria iluminação.

Seu lampião é um ícone adequado para uma introvisão do místico. No oriente uma lâmpada assemelha-se muito a uma vida. A chama tremula por um breve período, e quando o combustível se esgota essa chama diminui e desaparece, restando somente uma pequena coluna de fumaça do pavio ainda quente. Muitas vezes é utilizada nos Ensinamentos dos monges, para simbolizar a chama da vida, nossa não permanência na Terra, e que nós devemos nesta existência trazer um pouco de iluminação aos nossos próximos. Alguém “iluminado”, diz-se no Oriente, é como uma lâmpada em pé em lugar sem correntes de ar, sem turbulências que façam a chama tremer. Segundo outro adágio oriental “é melhor acender uma vela que amaldiçoar a escuridão”, significando que mesmo a luz bruxuleante de uma vela é melhor do que a falta de luz. Todos nós, por mais principiantes que sejamos no Caminho da Espiritualidade, podemos e devemos contribuir para a evolução da humanidade, exibindo a nossa luz espiritual, para que com nossos exemplos os homens permitam ter seus passos dirigidos pela luz de nossa conduta e nossa espiritualidade.

O Eremita oferece-nos a possibilidade de iluminação individual como potencial humano universal, experiência não limitada a santos canonizados, mas sim ao alcance de toda a espécie humana. Sua chama representa a luz interior que dissipa o caos e a treva espiritual. Protegida dos elementos pelo seu arcabouço de venezianas, parcialmente escondida, impedem que sua luminosidade cegue seu portador ou ofusque os outros no seu caminho. Ele entende que seu lume precisa ser controlado para ser de utilidade. Contido, poderá servir para acalentar o espírito; incontido, o seu fogo pode destruir tudo a volta.

Uma das venezianas da lâmpada do Eremita é avermelhada, e a luz coada por ela tem nuanças de humanidade, cor de sangue, carne e osso. Colorida com as paixões e compaixões destiladas das vivências experimentadas em nossa existência terrena. O manto do monge é azul-celeste, representando o Espírito Celestial tal como é na natureza, seu forro amarelo sugere uma conexão com o “ouro dos filósofos”, preciosa substância cuja descoberta e liberação era meta dos alquimistas. Como atesta seu lumiar, o Eremita atingiu esta meta.

Muitos buscam este tesouro, literal ou simbolicamente falando. No âmbito da ciência, novas fontes de energia são pesquisadas, em função da iminente crise energética mundial e o crescimento descontrolado das populações. Forças gigantescas foram liberadas pelos cientistas, oriundas de partículas encerradas numa estrutura atômica. O enfraquecimento do espírito humano, motivado pelo excessivo materialismo, e sua conseqüente privação da energia psíquica, força cada vez maior número de pessoas em todas as áreas a olhar para dentro da mente com o objetivo de explorar o eu superior, não descoberto, com suas imensas reservas de sabedoria antiga e energia primitiva. Vivemos no limiar da era de Aquário, momento das grandes descobertas exteriores e interiores do ser humano.

Nos mitos encontramos o herói em busca do seu objetivo, perdido em alguma encruzilhada da sua missão, em meio a um grande impasse, quando um velho sábio, um hermitão feiticeiro surge do nada trazendo luz e esperança. Ele possui dentro de sí algo que nossa sociedade ignorou ou perdeu em determinado momento, e de repente reaparece para trazer sua antiga luz aos problemas atuais.

Dentro de nossa atual época, torna-se cada vez mais claro que a desvitalização da religiosidade convencional, associada ao colapso da estrutura da família criando um vazio imensurável no âmago do nosso ser. Falsas deidades e guias espirituais personalistas emergem diariamente afastando nossa espiritualidade da verdade, e sujeitando nossa intensidade de paixão, não devidamente utilizada, colocando-a ao serviço do demo.

O Homem, animal religioso, em princípio carece de sentido vital, de significado e propósito, parte de um desígnio maior, que transcende as meras ocupações do ego. Dentro de sua jornada busca uma autoridade maior, pai, presidente, rei, papa ou guru, para firmar a própria consciência projetada nestas figuras. Com o eremita, se estiver em perfeita sintonia com sua mensagem, prestar a atenção devida, poderá encontrar sua própria lâmpada com a ajuda da sua sabedoria. Terá que estar suficientemente maduro para não interpretar erroneamente a lição.

Caso encare literalmente a figura em questão, pode deixar a barba crescer, criar um novo culto ou seguir algum guru em terras distantes, o que pode ter conseqüências desastrosas. Sofrer uma lavagem cerebral, ser esmagado pelo peso do impossível, reduzido a uma depressão vegetativa. Ao substituir o barrete do louco imprevidente pelo capuz e carranca do eremita, é duplamente triste, pois perdeu suas verdadeiras potencialidades espirituais perdidas em dogmas exóticos e sem sentido.

Esta busca fez de nós outros tantos Hamlets, num momento brandindo a espada irresponsavelmente e no momento seguinte perdido em monólogos conflitantes. Nossa civilização cada vez mais distante do Deus interior, procura em toda a parte o espírito da iluminação, na maioria das vezes em lugares profanos.

Este eremita deve ter a força de uma Santo Antonio para resistir as tentações de mil demônios, aberrações da mente humana que assaltam o homem na solidão. Ele talvez tenha voltado para ensinar-nos a arte esquecida da solidão. Multidão solitária, atualmente percebemos como mascaramos nosso isolamento com uma falsa unicidade, que tem nenhuma ligação com o relacionamento humano. Defendemos nossas fracas inseguranças com a fortaleza da conformidade social.

Ao ser humano comum parece ser cada vez mais difícil aceder ao caminho solitário para o autoconhecimento. A arte de individuar-se, quando tornamo-nos nosso único eu, é objetivamente intensamente pessoal, uma experiência na maioria das vezes solitária, não um fenômeno de grupo. Compreende a difícil tarefa de desfiar nossa própria identidade do tecido da espécie humana. Para descobrir quem somos precisamos perceber as partes de nós mesmos que projetamos imperceptivelmente em outras pessoas, buscando no fundo de nossas psiques encontrar os potenciais e defeitos que antes só percebíamos nos outros. Este processo é facilitado se for possível afastar-nos da sociedade por curtos períodos e aprender a viver só consigo mesmo.

Encontrar-se consigo mesmo em compensação, pode ser uma verdadeira experiência de introversão, carregada de uma vida imaginativa vigorosa. Sem o companheirismo exterior, descobrimos novos personagens de nosso mundo interior, aparecem como entidades vívidas, surge um diálogo animado, histórias são contadas, cobranças são feitas, antigas canções vem nos embalar, novas melodias surgem. Nesta fase o eremita vem em nossa ajuda. Se nossa mente inchar com tamanho fluxo de imaginação criativa a ponto de pretendermos ficar acima de nossos semelhantes, ele traz-nos para baixo novamente, e auxilia-nos a buscar, desta chama de ouro, a luz necessária ao nosso luminar pessoal. Com a ajuda dele permitimos a nós mesmos e a outros oportunidades de introversão criativa sem culpas ou desculpas. Estes períodos de solidão não são mórbidos ou anti-sociais. Tem o poder de trazer-nos ao mundo com renovada energia para a execução com mais sentido de individualidade, identidade e consciência de nosso papel especial com relação a humanidade.

Segundo o evangelho de São Tomás, Jesus disse: “quando uma pessoa se encontra solitária, estará cheia de luz; mas quando se encontra dividida, estará cheia de trevas”. Inexoravelmente quem conseguir este tipo de unidade interior pagará o preço prometéico da solitude, da culpa e do sofrer. Segundo Jung:

“O Livro do Genese representa o ato de nos conscientizarmos como a quebra de um tabu, como se a aquisição do conhecimento significasse que uma barreira sagrada havia sido impiamente superada. O Gênese, sem dúvida, está certo, visto que cada passo no rumo da consciência maior é uma espécie de culpa prometéica. Através da compreensão, o fogo dos deuses, em certo sentido, lhes é roubado. O que quer dizer que algo pertencente aos poderes inconscientes foi arrancado às suas conexões naturais e subordinado à escolha consciente. O homem que usurpou o novo conhecimento sofre uma transformação ou alargamento da consciência, que já não se parece com a dos seus semelhantes. Elevou-se, por certo, acima do nível humano do seu tempo (“serás como Deus”), mas ao fazê-lo, também se alienou da humanidade. A dor da solidão é a vingança dos deuses...”

Esta alienação experimentada pelo solitário significa simplesmente que ele já não participa da primitiva inconsciência partilhada pela massa humana.  Ele pode expor-se ao caos dos eventos atuais, tendo atingido uma unidade interior, não precisa afastar-se do mundo e de seus problemas sendo envolvido pela vida de outro modo. Conforme descrito, aquele que atingiu tal grau de autocompreensão é um solitário em relação aos demais seres humanos, condenado a viver assim até que outros individuos a sua maneira consigam atingir fase semelhante de iluminação. Até mais eremita, diz Jung, é a própria espécie humana, solitária, pois em virtude de sua capacidade única de consciência está sozinha neste planeta, dissociada das outras criaturas vivas. Ele descreve esta situação do homem:

“Neste planeta, ele é um fenômeno único que não se pode comparar com mais nada. A possibilidade de comparação e, portanto, de autoconhecimento só surgiria se ele pudesse estabelecer relações com mamíferos quase humanos que habitam outras estrelas...” “Os graus diferentes de autoconhecimento dentro da própria espécie são de pequena monta comparados com as possibilidades que se abririam graças a um encontro com uma criatura de estrutura similar, mas de origem diferente...”

O número nove do Eremita, é sem dúvida o número da gestação humana, período indispensável para a formação de um novo ser humano. Historicamente está também associado à idéia de iniciação, considerado como número sagrado entre os neoplatônicos, como Apolônio de Tiana. Seus discípulos utilizavam-no como amuleto e reservavam a nona hora como tempo de silêncio. Era proibido mencioná-lo em voz alta. Os mistérios heleusícos iniciavam os candidatos por um período de nove dias. Os romanos, que também consideravam o nove como iniciatório, celebravam uma festa de purificação para todas as crianças do sexo masculino no nono dia após o nascimento. Enterravam seus mortos no nono dia e faziam uma festa denominada “Novennalia”, de nove em nove anos, em memória do morto. Este costume existe hoje ainda entre os católicos, as novenas, serviço de oração celebrado durante nove dias consecutivos em que se reza para que a alma seja tirada do purgatório.

Numerológicamente, o nove também possui qualidades misteriosas, pois sempre volta a si mesmo. Por exemplo: 1+2+3+4+5+6+7+8+9= 45, a soma dos dígitos é nove. Da mesma forma, 9+9=18. E sua multiplicação por cada dígito de 1 até 9, produz um resultado que se reduz a 9. É fácil portanto compreender por que o nove é o número da iniciação: simboliza a própria jornada do iniciado em direção à autocompreensão. Independente das condições em que cumpre sua jornada e sejam quais forem as experiências que possa encontrar pela frente, o iniciado também precisa, no fim, voltar ao próprio encontro.
  
Deixar de responder ao chamado do Eremita, não dando atenção a sua mensagem de introversão, pode resultar na solidão e no isolamento forçados de alguma moléstia física ou mental. Entretanto se soubermos perceber atentamente, aprenderemos com o velho sábio a arte do isolamento voluntário da sociedade, e nossa capacidade de retornar ao mundo do homens quando chegar o devido momento. Quando o mundo exterior querer exigir nossa atenção, não seremos apanhados entre sombras de negra introversão, nem obrigados à extroversão forçada, usando constantemente a máscara risonha do mascate em função de nossa verdadeira identidade estar mergulhada na caverna do nosso ser.

Ele quer nos falar da jornada, não de uma meta. Está dizendo com seu movimento sereno, um ritmo tão natural quanto respirar, que a vida é um processo e que cada um de nós tem que descobrir a própria luz interior. É certo que sua luz, usada para clarear a própria escuridão, brilha para outros também, mas não deliberadamente. Ele está apenas sendo ele mesmo, sua única forma de ajudar aos semelhantes. Cada um de nós tem que achar a própria luz interior.  No momento em que delegarmos tal responsabilidade a algum líder político ou religioso, psicólogo ou guru, teremos perdido a nós mesmos, nossa identidade, nossa própria humanidade.



A RODA DA FORTUNA – X.

Segundo o sentido oculto, esta lâmina representa a fortuna, destino, elevação, ascensão, supremacia. O Arcano X significa, no mundo divino, o princípio ativo que vivifica os entes. No mundo intelectual, a autoridade governante. No mundo físico, a boa ou má fortuna.

A lâmina segundo seu significado tradicional simboliza o Destino, sempre pronto a ferir à direita ou à esquerda, e que conforme gira a roda sob seu impulso, deixa subir os mais humildes e derruba os mais altivos. O Arcano X é figurado por uma roda presa a duas colunas por um eixo. À direita, Hermanubis, gênio do bem, esforça-se para subir ao ponto mais elevado. À esquerda Tífon, é precipitado para baixo. A esfinge em equilíbrio, no alto nesta roda, tem uma espada nas suas garras de leão.

 Tífon, genio do mal, foi originado da ira da deusa Hera ao descobrir que seu esposo Zeus havia concebido Atena sem o princípio feminino, como vingança invocou a Terra, o Céu, o Tártaro e os Titãs para conceber e criar sem o principio masculino, um filho que não fosse inferior em força a Zeus. Tífon foi considerado o progenitor de vários monstros espantosos, como o cão Ortos, a Hidra de Lerna, a Quimera, a Esfinge, etc., cuja mãe teria sido Equidna, monstro com corpo de mulher e  cauda de serpente. É considerado fator negativo, retratado em plena derrocada na carta.

A criatura que se ergue à direita é geralmente associada a Anúbis, o deus egípcio com cara de chacal, que junto com Maat, pesava as almas dos mortos para franquiar ou não a vida eterna, associado a Hermes pelo caduceu, já comentado anteriormente no Arcano O Mago. É considerado fator positivo de integração e está subindo para o topo. 

Mais uma vez nos deparamos com os dois opostos representados nas outras lâminas, aparecendo como duas formas de libido animal inconsciente, sujeitas ao ciclo interminável da natureza: a busca do yang de organizar e dominar, e a tendência do yin para receber e conter. Os dois são instintuais em toda a natureza, e em nós.

Em cima da roda, se encontra a Esfinge com uma espada, simbolizando a força equilibradora entre as forças positivas e negativas, em suma, o controle das forças da natureza, a evolução consciente do homem.  Com sua coroa de ouro sentada numa plataforma acima da roda, está separada da atividade e embora guarde a Roda, a Esfinge não lhe fornece força motriz. Sugere que embora sua energia seja primitiva, seu poder é divino. Tem cara de macaco, corpo e cauda de leão. É um personagem feminino, estreitamente relacionado com a esfinge da mitologia grega, que representa um princípio materno negativo. 

Parece dizer-nos que é tarefa de todos nós humanos, que trabalham para atingir a consciência, liberar nossas energias animais cativas na roda instintual repetitiva, de modo que a libido possa ser experimentada de forma mais consciente.

A figura da Esfinge maternal negativa ficou imortalizada no mito de Édipo, obrigado a buscar soluções aos enigmas por ela elaborados. Como hárpia sedutora, impede o progresso no seu caminho com suas garras, tira-lhe a vitalidade, ameaçando sua vida. Representação mítica das mulheres que ainda hoje saltam sobre nós com uma série de questões exigentes. Mesmo decifrando o enigma e destruindo a Esfinge, Édipo continuou preso ao destino cruel, matando o pai e casando com a mãe, tão indefeso como qualquer um preso a Roda, desempenhando sua sina exatamente como fora predestinado. O resultado psicológico resultou fatal ao Herói.

 A suprema ironia do mito reside ser a própria Jocasta, sua mãe, a figura humana da Devoradora arquetípica, que nosso herói pensou ter vencido para sempre. Seu intelecto superior foi punido pelos deuses, pois tem ciúmes do comportamento arrogante de alguns mortais.

No Oriente como no Ocidente, o princípio feminino é percebido como o poder implacável e monstruoso que governa as fortunas voláteis da humanidade. As experiências e mutações servem para corrigir o ser humano em sua caminhada pela vida, rebaixando os que são levados pela hubris, atirando-os ao chão como vingança ao orgulho excessivo do indivíduo. Afinal tornando a mercê desta experiência todos nós mais humanos.

Aqui a Esfinge, como outras figuras femininas, sejam deusas, feiticeiras, ou mulheres comuns, estão plenas de contradições. De um lado oferecem ao herói, o desafio da essência humana, buscar um sentido num sistema dirigido pela energia animal. Por outro lado, com seus enigmas confundem e distraem nossas energias com suas exigências insaciáveis.

Nosso intelecto é inútil ao confrontarmo-nos com a Roda. Não podemos libertar nossa energia criativa com exercícios mentais nem ludibriar o nosso destino humano com respostas intelectuais racionalistas. Dentro do processo histórico da natureza humana, o homem tem buscado libertar-se do comando automático representado pela sua natureza animal, no objetivo de vislumbrar um padrão por trás do enigma de nascimento, crescimento e decadência intermináveis, característico da vida, descobrir um sentido transcendental nos altos e baixos do destino.

A Roda na Idade Média era instrumento de tortura, no qual os orgulhosos são quebrados no inferno, enquanto o Diabo gira a manivela. Segundo a mitologia grega, Ixião, rei Tessaliano, tentou violentar Hera, esposa de Zeus. No entanto ele abraçou uma nuvem configurada a semelhança da deusa. Desta maneira engendrou os centauros, monstruosas criaturas que tinham a cabeça e ombros humanos e corpo de cavalo. Assim  Ixião, negando suas raízes humanas, tentando alcançar a divindade, não gerou nenhum super homem de potencial divino, mas sim uma mutação, uma cisão da psique, uma criatura binária, cuja potência e sexualidade brutas haviam regressado ao nível bestial. Como punição, Zeus, fê-lo alimentar-se de ambrosia, o alimento dos deuses, tornando-o imortal e depois o colocou no Tártaro, ao lado dos grandes criminosos onde está ligado para sempre a uma roda de fogo.

Os seres animalescos presos em seus raios servem para lembrar as limitações impostas pela nossa natureza animal. São ao mesmo tempo o desafio para transcendermos tais limitações, sua energia define as limitações da natureza e ao mesmo tempo o potencial para libertação dos nossos limites pessoais. O truque reside em liberar parte desta energia cativa para uso consciente sem vitimar-nos com os enigmas da esfinge.

Buscar decifrar enigmas seria fatal para nossa vida, como acontece com as intrigantes questões vislumbradas em nossos sonhos. Melhor resolveremos as charadas da Roda olhando as imagens apresentadas e percebendo-as numa diversidade de contextos. Cada sonho, como cada lâmina do Tarot, elabora perguntas cujas respostas são absolutamente intuitivas. Só liberando a imaginação dentro do giro da Roda da Esfinge, evitando pensamentos circulares, e libertando nossas energias encontraremos os verdadeiros significados ocultos que protege.

A vida surge como processo, um sistema circular de constante cambio, uma espiral ascendente, que envolve criação, integração e destruição. Geração e degeneração, tudo começa a ser e tudo morre ao mesmo tempo. Devemos morrer a cada dia e a cada novo amanhecer levantar renascidos.

O cubo no centro da roda representa as leis universais e seu aro as aplicações diárias individuais. No centro está o arquétipo  e o permanente, no aro o casual e efêmero; no centro o subjetivo e o ideal; na periferia o objetivo e o real. O centro representa a totalidade da energia do eu superior, a divindade, cuja essência é  a unidade imutável e imperecível, ao passo que seu aro fornece modificação, novas experiências e movimentação, naturalmente com menos energia  que a unidade.

Perceber a Roda quer dizer que os momentos de nossas vidas não são eventos de repente jorrando do nada numa data pré-determinada do calendário. São parte de um processo em permanente mutação de passado, presente e futuro, e auxiliá-nos a melhor perceber os paradoxos de determinado momento.

A Roda da Fortuna representa um ponto decisivo que sucede em qualquer idade e continuará girando para nós muitas vezes. Nunca está imóvel, quando achamos que está encalhada em algum obstáculo da vida, não é ela mas nós mesmos que encalhamos em sentimentos recorrentes.

Um manuscrito do século XVII relaciona o processo como uma roda de oito raios em que Hermes faz girar a manivela. É uma mandala, que na filosofia oriental tem tido seus similares  utilizados a milhares de anos como instrumento de meditação. Com efeito, em sonhos aparecem mandalas, como tentativas expontâneas em momentos de crise do indivíduo, do inconsciente em criar a ordem.

É o conflito do destino com o livre-arbítrio. Podemos sentir sermos apanhados pela Roda inevitavelmente, sujeitados a sua natureza cíclica, percebendo nossas experiências externas e nosso conseqüente desenvolvimento interior. Percebemos nossas limitações motivadas pela genética da hereditariedade e  pelo nosso meio, dando razão ao descontrole de nossos destinos. Entretanto temos espaço suficiente, dentro da Roda para modificar nosso movimento em busca de nós mesmos.

Extrovertido e Introvertido, buscam suas direções dentro da Roda, o primeiro em direção ao centro e o segundo ao exterior, sua periferia. Suas técnicas são próprias para atingir uma unidade interior maior. O Extrovertido, um conglomerado de personalidades discretas, experimenta a vida como uma montanha russa, altos e baixos desconexos. Sua vida emocionante vai sucedendo-se em vertiginosa rapidez, sobrando-lhe pouco tempo para pesar seus atos e vislumbrar padrões no seu destino, sempre cambiando sua personalidade básica conforme cada ocasião. É pai, filho, adolescente, dono da verdade, cidadão, e revolucionário, mudando facilmente, que nem sequer percebe os conflitos existentes em cada papel. Só quando a Roda da Fortuna o sacode, com um grave solavanco, é quando se vê forçado a parar e surpreso  perscrutar seu papel no destino.

Somente através da imaginação criativa a Esfinge da Roda desvenda seus segredos. Quando sobrevier a crise descubra um lugar sossegado, sem perturbações externas, tente imaginar o conflito ou problema de forma destacada. Feche os olhos e permita que a cena evolua em sua tela interior, como se fosse uma experiência de outrem. Observe os personagens interagirem, seus diálogos, gestos, inflexões, como fosse o problema na realidade. Deixe a imaginação divagar, como num cinema ou teatro. Qual é o enredo? Quem são os heróis? E o vilão? Como pode resolver-se o conflito? Perceba seus sentimentos agitando-se dentro de você. Já sentiu-se assim antes? Existem outros momentos em sua vida com acontecimentos similares? Identifique os acontecimentos imaginados com romances, contos de fadas, ou mitos conhecidos. Caso não obtenha sucesso, espalhe diante de si  os trunfos do Tarot, para usá-los na sua jornada reflexiva. Qual lâmina poderia simbolizar sua atual situação? Quais são as que representam outros personagens? Existe algum Arcano que possa ser-lhe útil agora? Como seria seu comportamento como personagem criado pela sua imaginação?

Escreva os diálogos dos personagens, caso não queiram falar. Exponha-o ao palco e observe o que ele diz ou faz. Busque montar um roteiro completo com desfecho do drama, cenário, caracterização e diálogo. Detalhes e auto censura não são recomendados, não censure idéia alguma, por mais estranha que apareça na sua mente.  A Esfinge dá seus recados de maneira misteriosa, suas respostas são escritas muitas vezes com tinta invisível. Onde antes existia um espaço em branco, uma nova idéia pode aparecer de repente.

Estas técnicas buscam estabelecer para o extrovertido uma ponte segura para o inconsciente. Usando a imaginação, muta estes acontecimentos externos em reflexo de seus padrões interiores, tentando perceber com mais nitidez os motivos que geraram a crise. Através  da dramatização pode descobrir as qualidades e tendências em si mesmo e mudar de comportamento, encontrando em sua própria psique, sabedoria, imaginação e força para auxiliarem a resolver seus problemas. O achamento de personagens com vida própria, vilanescos, presos ao nosso inconsciente, dá-nos uma empatia pelos “homens maus” do nosso drama exterior; encontrando também nossos “heróis” e salvadores que fornecerão energia necessária para confrontar estes sujeitos malvados em todas as frentes, tanto interiores, quanto exteriores no cotidiano.

Para o extrovertido a vida lhe parecerá menos acelerada e caótica, irá em direção ao centro da Roda. Seus interesses ficarão ligados ao cubo central, mais estável e sólido.

Tais técnicas podem ser de utilidade também para os introvertidos. Mas introvertidos costumam sentir seus problemas de maneira diversa, de modo que as questões levantadas não serão as mesmas dos extrovertidos. Generalizando, o introvertido tende a ter um contato maior com o desenho do seu ser interior, visto que vive no centro da Roda. Seus hábitos são mais lentos e ponderados que o do extrovertido, evita atividades e relacionamentos imprudentes, e ao aventurar-se tende menos a deixar partes de si mesmo para trás.

Em permanente contato com sentimentos interiores, o introvertido muitas vezes tem dificuldade de expressar seus sentimentos ao mundo exterior. Como resultado disso, dentro de uma cultura extrovertida, o introvertido se sente, e na verdade é, mal entendido. Os extrovertidos muitas vezes percebem seus passos lentos, e os longos silêncios, como grosseria, hostilidade, ou até mesmo dissimulação. Seus gestos tímidos de amizade parecem toscos e inadequados. Quando o extrovertido, desconfiado e surpreso se afasta, o introvertido se sente rejeitado. Magoado o introvertido mais uma vez busca sua toca para lamber suas feridas, reafirmando a impressão inicial do extrovertido sobre ser  ele “fechado” e “complicado”.

Quando tal acontece, sua questão para a esfinge não é – Quem sou eu? Pois isto ele sabe mais ou menos. O que deseja o introvertido é saber – Quem são eles? Necessita da ajuda da esfinge para decifrar os seres inexplicáveis e acontecimentos estranhos que encontra lá fora. Uma pessoa introvertida sensível não suporta uma nova encenação destes dramas na sua tela interior, como pode o extrovertido. Mas pode ter contato com os sonhos. Pode utilizar-se das mesmas técnicas de abordagem acima sugeridas para decifrar seus sonhos, captá-los no papel para digeri-los imaginativamente, como um drama da vida real.

Nossos sonhos são como dramas, seguem as estruturas temáticas das grandes tragédias, desde Ésquilo até nossos dias. Introdução, exposição do conflito, crise e resolução, são partes integrantes no sonho similares a dissecação de uma peça teatral, onde a seqüência temporal é importante. Portanto a abordagem deve ser pelo começo, a primeira sentença, observá-la, lê-la cuidadosamente, visualizando a imagem focada e prosseguindo através do sonho, seqüência por seqüência, detendo-se em cada cena para refletir antes de passar para a seguinte.

A imagem inicial, ou primeira cena define com o movimento dos elementos no “palco” a atmosfera do que vai acontecer a seguir. Ao erguer-se a cortina o sonhador surge – onde? – Em alguma floresta, castelo, trem ou enterro? Qual o sentimento inicial?  Surgem os personagens: monstros, fadas e duendes seres imaginários ou, homens saídos de nossa realidade, pessoas que o sonhador está envolvido, é quando o sonho fala diretamente à situação manifesta. Se são personagens históricos ou parentes já desaparecidos, simbolizam atitudes interiores ou padrões arquetípicos inconscientes operando.

Devemos lembrar que os objetos inanimados, num sonho são personagens e representam um papel vital no drama. Podem representar até mesmo o personagem principal no conflito. Mecanismos que enguiçam em momentos inoportunos, ou veículos que salvam o sonhador de alguma queda ou afogamento. O automóvel, por exemplo, é a atrelagem dos tempos modernos que circula freqüentemente nos sonhos: o motor (os cavalos) simboliza o ser humano, o motorista ( o cocheiro) simboliza a inteligência. O veículo em movimento representa a evolução e os eventos que o acompanham, assim como a adaptação da pessoa a esta evolução, ela mesma em relação com o estado do automóvel. A carroceria é o reflexo da persona, a imagem pessoal que se quer produzir nos outros. Parte integrante do homem moderno, o automóvel é a imagem do ego. Conduzido por um outro traduz dificuldade de conduzirmos nossa vida como queremos, ou a existência de um complexo. O mau motorista que coloca em perigo a vida dos ocupantes do carro, revela falta de domínio em sí mesmo, a irresponsabilidade, a necessidade de disciplinar seus impulsos. Se há falta de combustível, houve presunção de forças, ou elas não são empregadas como se deve. Os veículos enormes, caminhões, carretas, bloqueando o caminho, podem ser a encarnação de um parente cuja presença ou atitude, opõe-se ao progresso do sonhador. Os ônibus evocam a vida social. Se aparecem freqüentemente no sonho, é tempo de rever nosso comportamento e de pensar nossa evolução pessoal negligenciada em proveito da vida da coletividade.

Após descrever cenários e personagens, expõe-se o argumento central, isto é, o problema ou o conflito. A tensão é crescente até alcançar um pico ou crise. No fim ocorre um desenlace em que o conflito é usualmente resolvido.

Algumas vezes seu enredo é tão confuso, a ação tão vaga e incoerente sendo difícil determinar-lhe sentido. Neste caso questionamos: Qual foi o problema suscitado pelo sonho?e Como foi resolvido o problema? Levantar questões oferecerá imediatas ligações dos simbolismos com sua vida. Observar o modo com que o sonhador meteu-se em apuros trás implicações valiosas na vida real, e observar como os conflitos são resolvidos fornece o rastro necessário para a solução destes problemas. Porém quando o desfecho é incerto ou o sonho termina , de repente, no clímax, sem indicação do final sugerimos a útil técnica de nós mesmos escrevermos o ato final. Vão surgir várias soluções possíveis para o sonho. Escreva-as todas. Qual delas é da sua preferência? Qual oferece a melhor solução ao seu problema real?

Busque registrar seus sonhos junto ao seu diário pessoal, caso o tenha, e depois verifique se ocorrem tramas semelhantes, e como estava sua vida na época em que tais sonhos ocorreram. Fazendo isto talvez por comparação com situações passadas você encontre uma solução do seu problema atual. Espalhe a sua frente os trunfos do Tarot e busque as ligações viáveis entre os Arcanos e os personagens surgidos no sonho. O objetivo é encontrar um padrão  nos acontecimentos externos do cotidiano e conectá-lo ao papel que desempenha no sonho, encontrar soluções nestes sonhos, receber a energia e a confiança necessária deles para representar um papel mais ativo na resolução dos problemas da vida exterior. Criamos assim uma ponte entre o mundo interior e o exterior, de forma que nossos sentimentos, idéias e essência íntima chegam íntegros aos demais como pretendemos que fossem.

Ninguém pode ser ou é cem porcento introvertido ou extrovertido todo o tempo, devemos aprender a caminhar juntos, pois todos temos interesses tanto no mundo externo quanto no interno. Necessitamos ligar os dois mundos e consequentemente ligar-nos uns aos outros, trabalhar em paz e harmonia, mantendo cada qual sua identidade. Devemos imaginar em liberdade e assim encontraremos formas de mover-nos de um lado para outro. Imaginar é a chave.

Quando nos aproximamos da esfinge utilizando unicamente nosso intelecto do ego, ficamos fadados aos pensamentos circulares, divagações filosóficas e psicológicas que nada servem. Perguntas que acabam em recriminações ou acusações, derrotando nossas energias criativas e sepultando-as sobre toneladas de culpa. Ou sentindo-nos culpados carregamos o mundo todo as costas, ou culpando os outros queremos castigá-los, paralisando por completo nossa criatividade.

Simbolizando a meditação contemplativa, a Roda da Fortuna oferece infinitos significados. Nos momentos de confusão, quando jogados pelos altos e baixos da vida, meditarmos sobre o centro estável da Roda nos acalma. Quando apáticos, sem vida, contemplando o movimento externo do aro, auxilia-nos a manter o contato com a ilimitada energia da vida.

A vida é ilusão, nosso pensamento linear engana nossos sentidos, fazendo-nos pensar a vida como seqüência de evoluções levando-nos cada vez mais alto até atingirmos a perfeição total. Somente aqueles que percebem a imagem da vida como jornada árdua em busca da iluminação, com escalas ascendentes e descendentes poderão suportar os percalços do caminho.

Numerologicamente, o número dez da Roda da Fortuna é um número mágico que lembra a unidade, mais uma vez, anunciando nova época de integração e percepção. O zero celestial, trazido pelos deuses, representa o círculo do céu, conceito abstrato matematicamente, agora encontra-se ao lado da unidade, simbolo do homem, o ser consciente que anda erecto. Presságio de nova era de iluminação e integração do macro com o microcosmo, isto é, com o indivíduo.

O Tao Té Ching adquire novos sentidos à medida que relemos seu texto, é um caleidoscópio de significações. Apresenta momento a momento verdadeiras chaves de compreensão. Nossas excessivas atividades impedem seu entendimento, seja em pensamento, palavra ou ação. Poucos são os que vivem no presente do indicativo. Ser, viver, perceber, amar, são impossibilidades, pois os movimentos da vida nos dão a ilusão da atividade constante. Se todas as coisas tem a raiz do Tao, que é imutável, a parada ou repouso é a única realidade que está  por trás de todo o movimento. A consciência de ser, de “parar”, nos dá a percepção do Eterno. Aqueles que vivem no Eterno jamais morrerão.

ADVERTÊNCIA.

A fama ou a vida?
O que mais se deseja?
A vida ou a riqueza?
O que vale mais?
Os fortes apegos geram grandes sacrifícios.
O acúmulo de bens é a fonte de grandes perdas.
Aquele que está contente, não se envergonha
Aquele que sabe parar, está livre do perigo
e vive longamente.



Arcano XI – A FORÇA.

Segundo a tradição oculta este Arcano exprime força, energia, trabalho, ação, vitalidade. No mundo divino, “o princípio de toda a força espiritual e material”. No mundo intelectual, “a força moral”. No mundo físico, “a força orgânica”.

O Arcano XI é representado pela imagem de uma jovem que sem esforço abre com a mão a goela de um leão. Simboliza a força, que a fé em sí mesmo e a inocência comunicam à vida. “Para tornar-se forte é preciso impor silêncio às fraquezas do coração; é preciso estudar o dever que é a regra do direito e praticar a justiça como se tivesse amor a ela”.

Nesta jornada arquetípica, o herói busca seu crescimento pessoal no mundo interior. Seus interesses e energias antes voltados à exterioridade, garantindo sua sobrevivência e capacidade de competição, agora voltam-se ao autoconhecimento e a necessidade de unificação. As questões racionais envolvidas com o logos, sua parte masculina, cedem lugar a natureza instintual, seu princípio feminino ou anima. Nesta lâmina figura uma mulher comum, um ser humano, que de forma incomum está domando um leão. Representa uma imagem interior ativa do herói, acessível à consciência. Como faceta do inconsciente do herói, atua como mediadora entre o seu ego e as mais primitivas forças de sua psique.

Com roupagens refinadas e um chapéu semelhante ao do Mago, na forma de lemniscata, símbolo algébrico do infinito, sugere uma nova mágica, onde esta dama maga regerá todo o processo de iniciação. Seu poder e energia não está em nenhum instrumento particular, mas reside em seu próprio ser, nas mãos que sem medo seguram as mandíbulas da fera. Sua magia benevolente é mais humana, pessoal e direta.

Nosso herói com esta magia irá explorar escuras florestas do seu inconsciente e as criaturas selvagens que nela habitam, e com sua ajuda aprenderá a controlar as energias selvagens dos seus instintos. O poder, a coragem e o valor da mulher do Arcano XI são ajuda indispensável para domar sua natureza animal, reduzindo-a de maneira que ele não fique mais todo o tempo sob seu poder.

A Dama mágica enfrenta o leão, significando que a natureza humana do consulente, nosso herói, é capaz de fazer frente à sua natureza animal. Porém a consciência do ego não pode haver-se diretamente com as forças indomáveis do inconsciente. Sómente com a mediação da anima, a figura feminina da maga, pode ser levada a cabo uma relação entre esses dois aspectos.

A força deste papel feminino encontra-se presente em vários contos e mitos. Como em “A Bela e a Fera”, a personagem feminina por amor aceita a natureza bestial do animal, que é domesticado e depois transformado. Tais mitos simbolizam a poética interior, quando a consciência humana reconhece e aceita sua natureza primitiva e liberta o poder autônomo do instinto enquanto ao mesmo tempo liberta e transforma o lado instintual.

Existe uma conexão íntima entre a Dama e o Leão. Seu poder, determinado pela anima sugere completo controle sobre a fera, mais sutil e menos dramático. Com suas mãos nuas explora as formas e anseios do animal, verifica se tem fome, pois uma fera faminta pode consumir seu corpo e espírito, que do ponto de vista psicanalítico, representa a capacidade obliterada de nosso herói, seu lado Eros, em relacionar-se com outras pessoas bloqueado. Seria ele então possuído de um desejo de poder, orgulho, raiva típicos dos atributos leoninos.

Muitos já foram engolidos por seus sentimentos de afeto. Explosões de emoções podem literalmente agarrar-nos como uma fera, saltar sobre nós, vindo do interior, para exigir seu espaço. Forças incontroláveis são detonadas, a consciência do ego é posta de lado. Trememos de raiva ou medo, ou rimo-nos histéricos sentindo lágrimas brotando e molhando nossa face. Quando tal sucede, o eu contido em nosso ego, humilhado foge simbólicamente ou até mesmo literalmente, deixando para trás o incidente vexatório.

Quanto mais buscamos deixar para trás essa parte animal de nós mesmos, ela torna-se ainda mais insaciável. Ao ignorarmos suas exigências podemos ser visitados por uma doença psicossomática. As energias instintuais, ignoradas persistentemente, podem arrebentar amarras emocionais de maneira profundamente destrutiva, exemplo disso os crimes passionais. Outros distúrbios podem ocorrer em função de uma dissociação de nosso lado animal, como esquizofrenia e outros males psíquicos.

Para não sermos sacudidos por tais forças interiores poderosas não podemos colocá-las atrás de nós, longe de nossas vistas. Teremos que prestar-lhe grande atenção como nossa Maga está fazendo. Colocar as mãos em seu focinho escancarado e familiarizar-nos com esta fera. O estudo consciente destas energias que brotam de nosso lado sombrio, em vez de sua exteriorização descontrolada é a verdadeira terapia necessária. Precisamos lutar com nossos sentimentos descontrolados, conscientizar-nos individualmente deste nosso lado bestial, e assim reduzirmos os conflitos motivados de raivas pessoais.

Tememos nossa fera interior. “É o medo da psique inconsciente”, diz Jung, “que não somente impede o autoconhecimento mas é também o mais grave obstáculo à compreensão e conhecimento da psicologia”.

A Maga desconhece o medo. Ao observar sua figura intuimos talvez uma melhor forma de domar nosso leão interior. Alguns dizem que está fechando a boca do leão, outros que ela está abrindo. Esta ambigüidade proposital serve para definir que existe ocasião para cada ação. Há momentos que a fera precisa exalar seus bocejos e esticar-se como bom felino, outros que até mesmo grandes mandatários precisam aprender sobre paciência e autocontrole. As duas personagens parecem estar em plena harmonia e confiança mutua, um dialogo sem palavras.

O título da lâmina refere-se a qual dos dois elementos? A Dama ou o leão? Talvez ambos, pois soam poderosos com suas forças triplicadas pelo mutuo convívio. Participam das essências de cada um, transmitindo a energia do animal para ela através do contato, subindo pelo seus braços até a coroa de ouro que cinge a Dama em seu chapéu exótico.

Esta força feminina possui abordagem diversa dos grandes heróis míticos masculinos que lutavam frente a frente em combate singular com as feras sanguinárias. Matando-as passavam a usar um troféu permanente como os dentes ou a pele do animal e com isto absorver magicamente sua força e astúcia. A Maga, ao contrário, vence a besta calmamente e de maneira sutil, aproximando-se por trás, o lado oculto e inconsciente da fera. A Dama não precisa matá-la para obter uma presa. Sempre que enfrentamos nossa besta interior, nos sentimos vencedores revividos e supridos pela experiência. O contato com nossas energias interiores rompe os laços de limitação do ego, nossos afetos levam-nos para fora das nossas mentes e de novo para nossas entranhas. Conquistada pela magia da mulher, a fera oferece sua áurea energia que flui pelos membros da Maga tornando-a parte dela.

O leão simboliza o próprio Sol e a iluminação da divindade, suas características positivas são: generosidade, luz, poder, vontade, chama, energia, força. Suas características negativas são: orgulho, vaidade, autocracia, tirania, senso desmesurado de grandeza, inveja. Utilização dos outros. Segundo as escrituras o leão do rei Salomão segurava entre dentes a chave da sabedoria, sendo portanto associado a este atributo. Parece representar, conforme Jung supunha, uma tendência primitiva, a necessidade inerente ao instinto religioso, nosso anseio de reunião com a divindade, tão básica e natural no ser humano quanto o sexo. A natureza pura do leão, fiel aos seus instintos, não corrompida pelas mazelas do homem civilizado simboliza o autodesenvolvimento, o poder energizante do sol central da psique, o eu.

A maioria das pessoas tem pouco acesso ao nível da psique simbolizada pelo leão. Porém sem o sangue dourado do leão em nossas veias seríamos bonecos dominados, obedecendo estupidamente as ordens dos outros. Alguns ainda aprisionados numa rigorosa educação religiosa, não se atrevem sequer pensar em remover as restrições impostas, outros buscam um código religioso ou filosófico, para aprisionar o amoral leão interior. Como Jung reitera, uma mudança da consciência humana não acontece em massa; a psique humana individual é a única hospedeira e portadora da consciência.

Poucos tem acesso à camada amoral da psique. A maioria de nós, confinados em uma educação religiosa baseada no pecado e na promissão, sequer pensam questionar  ou imaginar o que seriam capazes sem estas restrições superpostas na psique. Outros, criados sem dogmas ou credos, buscam com frenesi um código religioso ou filosófico, para enjaular internamente seu leão aterrador.

O dualismo representado pela força leonina, ambivalente, capaz de ser doadora de vida, quanto destrutiva. Representam nosso orgulho arrogante, e nossa sede de poder. Também pode simbolizar nosso anseio de redenção, o fanatismo de profetas e adeptos, seitas ensandecidas sedentas de mártires e sacrifícios de sangue.

Devemos buscar-lhe o poder criativo, sem contudo permitir que engula nossa humanidade. Jung intuiu-o como perigo específico estas forças instintuais relacionadas com a figura leonina e escreveu:

“Os leões, como todos os animais selvagens, indicam afetos latentes. O leão representa um papel importante na alquimia e tem um significado muito parecido. É um animal “ardente”, um emblema do diabo, e representa o perigo de ser engolido pelo inconsciente”.

Se não quisermos ser levados ou esmagados por esta força devastadora, devemos refletir no sentido da figura pintada na lâmina. São indispensáveis força e experiência no trato de nossos impulsos instituais, a maga tem a introvisão e fortaleza necessária para subjugar o leão momentaneamente. Os dois movem-se em harmonia, mas sem o domínio permanente da Dama Maga, pois ele pertence ao reino de Diana/Ártemis, a deusa dos animais, nunca domesticada, selvagem e imprevisível também.

Ártemis, era venerada em todas as regiões selvagens e montanhosas da Grécia, não só na Arcadia, mas ainda em Esparta, na Lacônia, nas montanhas do Taígeto, na Élida. Seu mais célebre santuário era o de Éfeso. Seu culto era contaminado com o de uma antiga deusa asiática da fecundidade. Associada desde a origem a Apolo, seu irmão, de quem partilha a luz, os antigos a interpretavam como encarnação da Lua que erra além das montanhas, como ele era o Sol. Entretanto seus cultos não são lunares. Consagravam-lhe o loureiro. Se bem que fosse representada nas moedas com um archote preso nas mãos, coroada de estrelas, os estatuários destacavam-lhe sobretudo o caráter de deusa agreste, jovem, esbelta, de beleza severa, ancas estreitas, cabelos presos; com o chíton dório curto, calçava sandálias e andava acompanhada de cães ou corças selvagens. Dedicava-se aos prazeres da caça, na região arcádica, com seu cortejo de sessenta Oceânides e vinte Ninfas. Era considerada protetora das Amazonas, também guerreiras e caçadoras, independentes do jugo masculino. Ártemis é apresentada com um aspecto rude e bárbaro, sombrio e vingativo. Basta a mais simples ofensa, um desafio, alguém que tolamente se vangloria ou mata um animal que lhe é consagrado, e manifesta-se-lhe a inominável crueldade. Contrariada pode tornar-se pior que a feiticeira Hécate e igualmente ardilosa em magia negra. Esta idéia é dramatizada no mito do jovem Actéon, que ao espreitar a deusa banhando-se a noite numa fonte, esta atirou-lhe um punhado de água fresca no seu rosto, trnasformando-o em cervo que foi imediatamente despedaçado pelos seus próprios  sabujos que não o reconheceram.

Este mito ilustra uma verdade psicológica. Se dermos aos nossos instintos liberdade total para agir, eles poderão voltar-se contra nós e despedaçar-nos. Seu significado oculto na alegoria indica que no passado o homem tinha dificuldade para controlar seus instintos e não podia sujeitá-los com facilidade. Agora tendemos a esquecer sua existência até o momento que surge fora de sua jaula interior com a fúria dos deuses. Entretanto a natureza animal faz parte de nossa vida. Devemos encontrar formas de utilizar esta energia inesgotável de forma positiva, como sugere o Arcano. Trilhar ao seu lado em plácido companheirismo. Os instintos suprimidos e feridos representam os perigos que ameaçam o homem civilizado; os impulsos não reprimidos são os perigos que ameaçam o homem primitivo. O homem primitivo deve subjugar seu animal interior e fazer dele companheiro útil; o homem civilizado precisa curar o animal interior e torná-lo seu amigo.

Ver o que poucos vêem. O segredo da vida consiste em aprender a olhar o lado oculto das coisas. Lá iremos encontrar a resposta às nossas perguntas, que geralmente são simples produto das ilusões de nossos sentidos e instintos. Devemos buscar entender-se com a Natureza de maneira íntima através de nossa percepção. Segundo o Tao Té Ching, o sábio prefere mergulhar no profundo, no coração, perscrutar o universo interior em busca de respostas.

A Repressão dos Desejos.

As cinco côres cegam os olhos humanos
As cinco notas ensurdecem os ouvidos
Os cinco gostos injuriam o paladar
As corridas e caçadas desencadeiam no coração paixões furiosas e selvagens.
Os bens de difícil obtenção causam ferimentos diante de perigosos obstáculos.
Por esse motivo o sábio ocupa-se do interior e não da exterioridade dos sentidos.
Ele rejeita o superficial e prefere mergulhar no profundo


 

Arcano XII – O Enforcado.

O sentido tradicional desta lâmina conforme o ocultismo é expiação, sacrifício, martírio. O Arcano no mundo divino significa a Lei revelada. No mundo intelectual, o ensino do Dever. No mundo físico, o sacrifício.

O Arcano XII é representado por um homem suspenso por um pé a uma trava que se apóia em duas árvores que tem cada uma seis ramos cortados. As mãos deste homem estão atadas por trás, e a dobra de seus braços forma a base de um triângulo invertido, cujo cimo é a sua cabeça. É sinal de morte violenta, sofrida por um funesto acidente ou para expiação de um crime, ou então aceita por um heróico devotamento à verdade e à Justiça. Os doze ramos cortados representam a extinção da vida, a destruição das doze principais expressões da vida humana. O triângulo de ponta invertida simboliza uma catástrofe.

Está nas mãos do Destino. Não tem poder para dirigir sua vida nem suportar seu fardo. Só espera uma força exterior que o liberte das mãos da Mãe Terra em sua atração regressiva.  O Enforcado, imóvel entre dois vigorosos símbolos maternos, só encontra inspiração nas profundezas do ser.

Uma iniciação assim ocorre em vários momentos da nossa vida, sempre em geral quando chegamos ao fim de uma fase, ou estágio do ser e a existência exige de nós uma transição para novos caminhos. É sempre um momento crítico, pois necessitamos abrir mão das antigas maneiras de encarar a vida e creditar-nos à nova vida, ainda não percebida ou experimentada. Exige tal conduta toda nossa coragem e sacrifício. Todos nós podemos atravessar estes momentos incertos, quando um problema psicológico originado nas sendas da vida, onde os antigos padrões de comportamento já não podem manter nossa estabilidade em pé, o chão parece desaparecer sob nossos pés, e ficamos suspensos entre os dois universos, imóveis, orando para que a fase transcorra logo. Nestes momentos a vida parece trair-nos, somos humilhados e despojados do orgulho, ficando exposto nosso eu secreto, sem a mágica da nossa “persona”. O destino nos coloca frente a frente com tudo aquilo que rejeitamos e desprezamos. Somos forçados a descer da condição de reis coroados para nosso nível inferior e sombrio. Necessitamos para evoluir mergulhar profundamente no poço lodoso da nossa humilde realidade de ser humano confrontado com a mágica força infinita do universo. Nós que fomos desligados de nossas raízes, temos necessidade de descer, retrocedermos às nossas origens culturais e naturais. O motivo do sacrifício e do desmembramento representado no Arcano, é sugerido nos cotos vermelhos de sangue das árvores cortadas. Repete-se nos braços e pernas da figura pendurada, dando como certo que deve haver sacrifício do personagem central, isto é, deve tornar “sagrado” seu entendimento de que a vida não é uma mãe protetora sempre pronta a satisfazer toda e qualquer fantasia e defender o homem contra o infortúnio.

Devemos não só explorar os atos conscientes que a vida está perturbando e desalojando para sentir o sabor da nova experiência. Podemos tentar projetarmos nessa imagem, entrar neste corpo suspenso. A meditação pode prolongar esta sensação, desvendar visões celestiais, abrir nossas portas da percepção em busca da iluminação satori. Caso adotássemos esta postura na solidão de nossas considerações interiores, poderíamos purificar e fortalecer nosso espírito contra as ondas perturbadoras e angustiantes que o destino pode reservar.              

Quando meditando, o Taoista, imitando as formas vegetais e animais, pendura-se de cabeça para baixo, fazendo que a essência do seu esperma suba para o cérebro. Os tan-t’ien, os chacras concentradores de energia, encontram-se nos recessos mais secretos do cérebro e do ventre; é nestes campos onde se prepara alquímicamente, o embrião da imortalidade.

Quem sou eu para que isto me aconteça? – Deve ser a pergunta, meio caminho para a libertação final, pois sua independência lhe foi tirada, mas algo novo e precioso pode estar surgindo, riquezas ocultas que colocarão nosso personagem em conexão com um novo sentido da vida. Encontra-se suspenso, a beira de um precipício, oscilando, sem contudo cair, pronto para mudar de sua posição imóvel que invertida a carta, ficando o pendurado de pé,  lembra o movimento de uma dança medieval.

Mas este alegre finale ainda está obscuro, escondido no futuro, pertence ao significado de outros Arcanos que ainda não apareceram. O pobre personagem ainda não percebe a figura dinâmica escondida em suas entranhas. Permanece imóvel, suspenso, sem defesa, preso a árvore imortal do tempo. Ele precisa amadurecer na árvore sacrificial até que sua velha crosta anímica apodreça e morra. O núcleo desta experiência de iniciação é enfrentar a terrível solidão do abandono e da traição, o personagem precisa estar só para perceber o que o sustenta quando já não pode sustentar-se. Somente uma experiência assim proporcionará uma estrutura indestrutível a ele.

Sua sustentação é feita pela árvore da existência humana, da Natureza de Deus que é conectada diretamente a sua natureza interior. É no inconsciente onde se verifica a completação, a orientação e a solidez das mudanças, representada na figura pelo quatro formado por suas pernas vistas de baixo para cima. Ele está absorvendo nova compreensão, exposto a intervenção dos deuses para seu crescimento espiritual que deve assemelhar-se ao crescimento da árvore que ao deitar novas folhas cresce suas raízes para maior sustentação da planta. Ele desvenda a jornada para a autocompreensão, irregular, cheia de revoluções cíclicas da espiritualidade. O Enforcado inicia um novo movimento de crescimento e consolidação a partir das raízes, prometendo novas folhagens aos troncos cortados da figura, quando o próprio personagem sairá outra vez para o mundo. Agora sua percepção será estendida no sentido vertical, em duas direções; para cima, em direção as dinâmicas forças celestes, e para baixo, em direção ao mundo subterrâneo das forças vegetativas. É necessário estabelecer um equilíbrio entre as forças opostas. Encontra-se manietado ao seu destino, não pode fazer nada contra a tortura experimentada como uma crucificação.

Uma súbita mudança, um problema financeiro, pode despojar uma pessoa, da noite para o dia, de todos os seus bens materiais e da carreira a que dedicou a vida, pondo em desordem o presente e perturbando sua visão do futuro, destruindo suas esperanças. Ou talvez sinta-se traído por alguém que amava, ao redor do qual sua vida girava, destruindo seu amor próprio e sua confiança no mundo, deixando-o só e inseguro. Pode acontecer que sua crença pessoal, política ou religiosa venha ser colocada em cheque em determinado momento, virando suas idéias, seu universo de pernas para o ar deixando sua vida sem sentido. Ou sua saúde obriga-o a imobilidade.

Uma enfermidade espiritual pode deixar uma pessoa indefesa. Antes confiante e preparada para a vida, sente-se repentinamente sem forças, nem energia para dominar as tarefas diárias. Desta forma o intelecto do seu ego é comprimido e depreciado como se observa na imagem do Arcano. Igual ao personagem adota-se um comportamento de impotência vegetal. Em casos extremos, uma pessoa afetada desta forma pode tornar-se literalmente num vegetal. Perdido no inconsciente, incapaz de participar das atividades exteriores, ou reconhecer suas necessidades vitais e cuidar delas, necessita de tratamento profissional urgente.

Jung percebeu que as neuroses e psicoses existentes nestas vias aparentemente sem saída não como doenças que inibem  a vida, mas como correções visando estabelecer o equilíbrio psíquico num novo patamar. Considerava tais fenômenos como o jeito natural de curar o organismo psíquico. Observou que toda vez que o intelecto e a vontade tornavam-se rígidos e dirigidos pela luta do poder, a natureza usava medidas extremas de modo que obrigasse o homem a explorar outros caminhos da psique. Jung via a figura do Enforcado como um convite de iniciação, um desafio, não um castigo, uma nova oportunidade para sondar nas profundezas do ser. Segundo o mestre:

“O inconsciente sempre tenta produzir uma situação impossível, a fim de forçar o indivíduo a desenvolver o que tem de melhor. Aliás, paramos de repente diante do que temos de melhor, não nos completamos, não nos compreendemos. Faz-se mister uma situação impossível, em que temos que renunciar a própria vontade e ao próprio juízo e não fazer outra coisa senão confiar na força impessoal do crescimento e do desenvolvimento.”

Os terapeutas convencionais resistiram bastante ante tais conceitos. Defrontados com um paciente na situação do Enforcado, reagiam tentando virá-lo de cabeça para cima, como todos reagem a figura da carta. Consideravam mais importante recolocá-lo no mundo das realizações externas de maneira a retomar sua vida no ponto que foi rompida. É razoável pensar desta maneira, já que estamos predispostos a dar mais valor as realidades corriqueiras do cotidiano mundo exterior, do que as do universo interior do indivíduo, cujas manifestações são menos vívidas,  tendendo a pessoa comum negar sua existência. Freqüentemente os leigos, desconhecedores de doenças espirituais, diante de alguém deprimido, buscam  através de terapias de choque, sendo até mesmo rudes, tentam tirar o amigo do estado de depressão. Era comum nas clinicas psiquiátricas  o uso de choques elétricos em pacientes que sofriam de depressão aguda. Esperam através destes procedimentos sacudir os pacientes para que voltem ao “normal”.

Atualmente os pesquisadores em psiquiatria aceitam o ponto de vista de Jung. A doença mental é, na sua natureza uma ferramenta psíquica para restabelecer o equilíbrio de um sistema doentio. Substituindo as terapias forçadas por agentes químicos e artifícios mecânicos, pelos processos curativos da Natureza, os psiquiatras buscam novas formas de auxiliar a Natureza em seu processo de renovação, em vez de levar o paciente para seu molde anterior, orientado  para o ego. Oferecem suporte psicológico em seu momento de transição e afastamento da vida exterior indicando para o percebimento de uma nova oportunidade do paciente descobrir sua própria vida interior, antes escondida. Descobrindo através dos arquétipos dos mitos humanos e utilizando como analogia estes símbolos, um psicólogo analítico qualificado auxilia seu paciente em dar sentido às imagens distorcidas vindas do inconsciente, para que sua vida torne-se ordenada e o mais importante de tudo, satisfatória e razoavelmente feliz.

Quando tais terapias são bem sucedidas, os resultados compensam, pois o paciente emerge de seu processo de “iniciação” forçada, não só reagrupando os fragmentos de sua personalidade anterior, mas também de fato renovado. Uma nova pessoa conectada ao seu centro espiritual. Junto com o paciente, o terapeuta acompanha-o através de uma jornada aparentemente caótica e ajuda-o a reunir os fragmentos, pedaços perdidos, como num caleidoscópio onde os padrões giram sobre um centro. O psiquiatra adepto desta técnica ajuda-o a reagrupar os fragmentos caleidoscópicos de forma importante, tornando o centro do paciente uma potência clara e ativa na sua vida.

Mesmo com todo apoio psicológico e esse novo entendimento terapêutico, a percepção das monstruosas forças inconscientes demanda paciência, aceitação e coragem. A imagem dramatizada do Arcano o Enforcado, como realidade externa, tangível, traduz uma confrontação interior, um sentimento de sacrifício – o esquecimento consciente da existência do ego como força orientadora da vida e a aceitação do seu destino com submissão. É a verdadeira crucificação do ego.            

Por intermédio desta aceitação de crucificação, o ser coopera com o destino, em certo sentido, o escolhe. Quando isto ocorre, liberta-se dele, porque o transcende. Este sentido ressaltado pela narrativa bíblica dos últimos momentos de Cristo, quando no primeiro momento do suplicio vociferou contra o pai dizendo: - “Deus meu, Deus meu, por que me abandonasse?” – aceita depois resignado seu destino ao clamar: - “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!”, exalando seu último suspiro.

Assim o Enforcado aceita seu destino e “entrega seu espírito” a um poder maior que a consciência do ego, podendo deixar exalar seu último suspiro da personalidade anterior e penetrar numa nova existência com sua essência espiritual renovada. Se agüentar e perceber o sentido da crucificação, sairá renascido desse encontro nas trevas, além do abismo do mundo interior. Tendo alcançado esta meta de transposição ao outro lado, partirá mais uma vez em seu caminho, mais consciente e dedicado ao bem viver e integrado com o meio. Até então aquele que vivia dedicado em viver com toda a plenitude a vida exterior, agora como representa o Arcano, rompe a estrutura entre velho e novo, nunca mais podendo retornar à vida concentrada na satisfação do ego.          
                          
O conhecimento, ou logos serve à construção de estruturas e novas tecnologias para simplificar a vida. Mas quando o conhecimento formal vira uma barreira a evolução espiritual do homem, e mesmo a evolução destas tecnologias uma ameaça a existência humana no planeta, devemos refletir seu significado. Viver bem é uma coisa que poucos sabem fazer. A maioria das pessoas não vive: é vivida pelos acontecimentos, assim como a chama consome uma vela. As causas deste comportamento do homem comum apontadas pelo Tao TÉ Ching é o  dualismo com que pretendemos dividir o que é uno. Tudo é relativo, sempre de acordo com quem observa, uma questão de ponto de vista, de profundidade de julgamento, de focalização da consciência. O homem comum, na sua visão exterior da existência, julga-se esperto e útil, ao passo que o sábio é flexível como o oceano. É como o junco, que sobrevive porque se curva ao furacão que passa. Quando irrompe o turbilhão, ele é a tempestade. Quando vem a bonança, é paz absoluta.


O MUNDO E EU.

Bane o saber e as aflições acabam.
Entre o sim e o não, que grande diferença existe?
Entre o bom e o mau, qual a distância?
Aquilo que os homens temem
na verdade é para ser temido;
Mas, ai de mim! Tão longe está o despertar!
Os povos do mundo estão em festa
como se estivessem comendo as oferendas do sacrifício,
ou subindo as colinas durante a primavera.
Somente eu me sinto fraco como um desempregado,
ou um recém nascido que não pode ainda sorrir,
desgarrado como alguém que não tem lar.
Os outros homens possuem o supérfluo, só eu sou por
todos deserdado.
Meu coração precisa ser como o de um louco
que se tornou enlodoado, nebuloso!
Os vulgares se sentem sábios, luminosos;
somente eu me sinto estúpido, confuso.
Os vulgares se sentem inteligentes, seguros de si mesmos,
somente eu estou deprimido,
à merce das coisas como as ondas do mar,
incerto, aparentemente sem rumo.
Os povos do mundo tem um propósito,
Somente eu pareço obstinado, extravagante,
eu somente sou diverso das outras pessoas,
venero profundamente a mãe que a todos alimenta.
(O Tao)   


Arcano XIII – A Morte.

Seu significado segundo a tradição oculta é morte, destruição, transformação. O Arcano XIII representa no mundo divino, o movimento perpétuo  da criação, destruição e renovação. No mundo intelectual é a ascensão do Espírito às esferas divinas. No mundo físico, a morte natural, isto é, a transformação da natureza humana, chegada ao fim de sua existência material.

O Arcano XIII é representado por um esqueleto ceifando cabeças e membros num prado, que saltam, para a direita e a esquerda a medida que a foice continua sua obra. Vemos aqui retratado o desmembramento do ser, suas idéias, simbolizadas pelas cabeças, seus pontos de vista, figurados como pés, e suas atividades, representadas pelas mãos, relacionadas as suas experiências passadas, jazem inúteis espalhadas pelo chão. Todos os seus princípios orientadores e aspectos de sua vida anterior foram despojados, como demonstram os personagens esquartejados, inclusive seu centro condutor na figura da cabeça coroada. Não poderá mais reger seu destino como antes.

Nas sociedades primitivas, é comum o desmembramento do herói e a utilização de seu corpo como alimento para assegurar a fertilidade das colheitas e a renovação dos reinos. Antropofagicamente, as partes do velho regime ainda vitais e úteis são incorporadas na nova ordem. Na natureza nada se perde. A igreja Cristã até hoje preserva esta idéia na Sagrada Comunhão, em que os fiéis compartilham o pão e o vinho, que representam o corpo e o sangue do Cristo, como dramatização da incorporação do espírito do messias dentro do seus corpos.

Os membros mutilados já irradiam nova vida. No Arcano a idéia de revitalização e renovação é reforçada pela profusão de novos brotos em toda a parte, pelo modo como as mãos e os pés estão fincados na terra fértil. São representações da natureza interna, das manifestações psíquicas, símbolos da intuição e do espírito, atributos interiores do ser. A Morte ilustra o momento que o ser se vê “feito em pedaços”, espalhado, sua velha personalidade e seus modos transfigurados e mutilados. O herói levará tempo para reagrupar seus fragmentos pessoais  e reaparecer novo e inteiro, numa nova vida.

Mesmo percebendo a necessidade de encararmos novas mudanças no contexto de nossa vida terrena, o ser humano sempre preso a condicionamentos e hábitos é resistente na sua aceitação. Nas camadas mais superficiais, na vida cotidiana, resistimos a qualquer mudança em nossa vida, até mesmo as propostas conscientemente por nós mesmos. Até quando efetuamos uma mudança substancial em nossa vida e conduta pessoais, ainda pranteamos as velhas formas de viver. Sentimos falta até mesmo dos maus hábitos que parecem ter vindo para ficar conosco. A separação é uma doce tristeza, pois nos afeiçoamos a tudo a nossa volta. Nada queremos perder na verdade, na ilusão que tudo nos pertence. Estamos especialmente conectados aos modos instintuais de nossa existência animal, de nosso corpo natural que tenta manter rotinas existenciais.

É necessário reconhecer o conflito entre o homem espiritual e o natural, avesso as mudanças. É difícil separar-nos das partes desgastadas da psique. Assim percebendo e fazendo, diz Jung, “eles redescobriram a velha verdade, segundo a qual toda operação neste sentido é uma morte figurada, razão da violenta aversão das pessoas quando precisam ver através de suas projeções e reconhecer a natureza da própria anima”.

Mas entre um momento e outro, entre a poda e o renascimento, há um período de negro luto. Bem aventurados os que choram suas perdas. Aquele que pranteia a amputação de uma atitude inconsciente adquirida desde a infância, ou deplore a perda de alguma rígida projeção que serviu de apoio a um ego vacilante, pode sentir-se abençoado. Será, ao final, recompensado com introvisões maís válidas e com uma estrutura mais duradoura e flexível.

O esqueleto parece dançar uma estranha coreografia, sugerem seus movimentos estabilidade, união de sua estrutura articulada, essência final do ser. Representa a eterna verdade sobre nossa mortalidade revelada ao herói em sua jornada. Embora sua vocação seja a transformação turbilhonante, sua dança é eterna e imutável.

Observando a carta mais de perto, percebemos que ela inclui muitos opostos. A segadeira brandida pelo esqueleto identifica-o com Cronos, deus grego do tempo, da colheita, da dissolução, da decadência. Sua forma de crescente, símbolo das divindades lunares femininas, sugerem ciclos intermináveis de regeneração e renovação. A postura ativa do esqueleto está carregada de energia criativa, nesta figura unem-se macrocosmo e microcosmo, como num diagrama.

Entretanto acreditar nesta carta no sentido unicamente da mudança psicológica e espiritual é pura covardia. Demonstra nossa dificuldade de encarar e nomear a morte física. Quem quer que tenha desenhado e gravado pela primeira vez esta carta deve ter tido dificuldade em nomeá-la. No tarô de Marselha original não há nome algum. Todos hesitamos em nomear o monstro. Tememos atrair seus serviços ao nomear a figura assexuada, reduzida a pele e ossos. Apesar de nossos temores, tem seus olhos sempre voltados para nós, e apesar de ser um esqueleto movimenta-se com a velocidade dos pensamentos. Não é por acaso que seu número no Tarô é o treze, considerado de azar em nossa cultura.

“A pálida morte tanto bate à porta da choupana dos pobres quanto à porta dos palácios dos reis”, escreveu Horácio, o ilustre escritor latino. Intelectualmente buscamos raciocinar para aceitar pelo menos teoricamente sua presença. Buscamos dizer a nós mesmos que as mudanças são necessárias para dar espaço as novas manifestações da vida. Devemos aceitar filosoficamente a lógica de que a morte não é uma antítese da vida, nascimento e morte são na verdade os dois pilares onde a vida repousa. Tudo isto conhecemos e podemos recitar muitas máximas neste sentido. Mas como percebemos nossa própria mortalidade? Como podemos aprontar-nos para a morte?

A morte é certa. Devemos esquece-la. Dizia Balzac sobre sua inexorabilidade. Quando tentamos evitar sua presença esquecemos de viver nossas próprias vidas. Permanecemos escravos, apegados ao corpo, presos na armadilha do egocentrismo mortal. “Aceitar o fato que você perece a seu tempo”, diz Jung, “é uma espécie de vitória sobre o tempo”.

Pessoas que tiveram experiências no limiar da morte, que foram até “às portas da morte” e voltaram, afirmam que este vislumbre do além vida abriu-lhes novas dimensões de espiritualidade. Muitos outros que jamais trilharam este caminho depararam com ela, através da perda de um ente querido, que depois de um processo longo e doloroso ao final libertou-lhes o espírito em relação a vida material. Aceitar morte e nascimento, como parte integrante da vida, é tornar-se realmente vivo. “Não desejar viver”, disse Jung, “é sinônimo de não querer morrer. Vir a ser e deixar de existir são a mesma curva”. E mais: “Quem quer que não acompanhe essa curva permanece suspenso no ar e fica paralisado. A partir da meia idade, só permanece vivo quem está disposto a morrer com a vida”. 

Esta alusão ao Arcano anterior não deixa de ser proposital. O Enforcado se não quiser ficar suspenso no ar, ficando espiritualmente paralisado com o passar do tempo, necessitará dar o passo seguinte, que emerge através da aceitação da decadência e morte do ser humano. Antigos cerimoniais de civilizações primitivas de passagem ou transformação espiritual, requeriam, de fato, o enfrentamento da morte pelo iniciado. Seu corpo era dependurado, ou era jogado na mata para sobreviver entre a natureza sem nenhuma condição material, como forma de ingresso na maioridade ou um ritual tribal de incentivo a coragem dos guerreiros.

Com as epidemias que assolavam os antigos, incompreensíveis para os médicos de então, a Morte era vista e representada como um estranho intruso, impiedoso, que chegava ninguém sabia de onde, matando milhares e destruindo o mundo civilizado. Este trunfo foi representado numa infinidade de formas, algumas semelhantes ao Tarô de Marselha. É retratada quase sempre como um crânio arreganhado, olhar diabólico de soslaio, e ar zombador. Pode ser o quarto cavaleiro do Apocalipse galopando com sua imensa espada em direção da humanidade. Um esqueleto pálido, montado numa montaria também esquelética, galopando frenético em direção a um grupo de figuras humanas de todas as condições sociais. As figuras, todas misturadas e a mercê deste senhor impiedoso,  lembram o desmembramento caótico da Morte do Tarô. Nestas obras figurativas da antigüidade, a Morte é representada como poder impessoal, golpeando os homens em geral, e não um adversário que enfrentamos sózinhos. Talvez porque sua ação no passado destruía comunidades inteiras, através das catástrofes naturais e pestes, bastante comuns. Como ainda acontece nas comunidades rurais pobres, os sacramentos religiosos, os costumes da vida comunitária e tribal, proporcionam os rituais necessários para enfrentar a morte. O falecido morre comumente na sua própria casa, onde é velado pelos conhecidos e parentes, e depois enterrado com o auxilio da própria comunidade, dando dignidade apropriada na passagem do morto através do culto religioso e luto ritual. Nas grandes cidades, com o colapso da fé religiosa, estes rituais acabaram deixando de existir, ficando o homem urbano desprotegido, sem condições espirituais de enfrentar sozinho este monstro assustador. “Só os loucos e as crianças não tem medo da morte”, disse Erasmo.

Devemos perceber que a experiência da morte propriamente dita é essencialmente pessoal e intransferível. Cada um de nós deve enfrentá-la a sós, cada qual possui o seu momento da verdade. Esta unicidade é representada pelo esqueleto envolto por um manto negro que aponta seu dedo descarnado direto para o próximo escolhido do momento. Mesmo sabendo que o morrer é uma experiência comum a todas as coisas vivas, cada um percebe o chamado da morte como um dedo que pode ser apontado só para sí. Ela desafia cada ser humano para que encontre o sentido por trás do gesto. Exige de forma especial ao homem, único animal capaz de antever a própria morte, filosofar sobre ela e experimentar conscientemente sua ocorrência.

A Natureza não se preocupa com o indivíduo; sua iniciativa é exclusivamente no sentido da preservação da espécie. Morrer é algo trivial na natureza, faz parte do seu eterno ciclo de renovação da vida no planeta. Nossa tarefa primordial, entretanto deve ser apreciar a vida e prestigiar o indivíduo, pois é através dele que brota a consciência. A morte deve ser considerada como no nascimento, um momento especial do indivíduo, inigualável em qualquer existência em particular.

Quando perguntaram a Krishnamurti: “Que acontece depois da morte?”- Ele respondeu – “Saberei quando lá chegar. Por enquanto não preciso saber”. Perguntaram também ao mestre indiano como se preparava para a morte. Ao que ele respondeu: “Todos os dias morro um pouco”. Sua idéia consiste em enfrentar a mudança diariamente, a cada momento, libertando-se aos poucos, dos apegos inconscientes. Evitando-se a ansiedade de esperarmos uma grande transformação de passagem, parece fazer intuirmos que cada dia oferece muitas novas aberturas para uma nova vida. Basta a nós querer abri-las.

Jung reforçou esta idéia, acreditava que a vida plena é a melhor e mais natural forma de abordar a morte. Perguntado como devíamos nos preparar para a morte, sua resposta foi que devíamos continuar a viver como se a vida continuasse infinitamente.

O truque consiste em reconhecer o essencial, livrar-nos de todas as bagagens desnecessárias, como melhor maneira para empreendermos uma longa jornada, de duração infindável. Devemos examinar nossos pertences, escolher o suficiente ao nosso bem estar espiritual e físico. Diariamente temos oportunidade de fazermos esta espécie de escolha espiritual. Devemos evitar os rodeios tentadores, os atalhos promissores que seduzem nossas energias, ou acalentar-nos para retornarmos ao ventre da infância. Ao recusarmos o desmembramento do nosso eu desgastado criamos uma paralisação integral no fluxo vital, que resulta na morte espiritual e até mesmo a morte física. Jung reforça esta idéia ao afirmar:

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, esta atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se esta ainda fosse capaz de guiar para um atalho promissor. Mas ela está presa num beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento poderá arrancá-la”.

Ser seduzido, embalado, ou tentado a fugir de uma participação consciente na vida é ser induzido a cooperar com a morte, satânica tentadora. Devemos evitar mover-nos com desatenção distraída, aceitando seus carinhos sutis, de modo a nos tornarmos propensos a acidentes ou ao suicidio, ou mesmo tentar eliminarmos incoscientemente nosso lado sombrio, assasinar de uma vez por todas o aspecto problemático rejeitado de nós mesmos, em busca da autodestruição do indivíduo. Existem muitas formas de promovermos nosso suicidio, tanto física quanto espiritualmente. Caso não suportemos as tensões desencadeadas com as mudanças, e não percebermos que em determinados momentos da existência devemos permanecer inativos, como o Enforcado, em relação às nossas antigas tarefas, se tentarmos forçar nossas energias a morte poderá aparecer sobre suas diversas formas, doenças, compulsões, ou vícios. Pode ainda acontecer que uma pessoa presa num círculo vicioso de autopreocupações mortais possa simplesmente desvanecer, espiritual e fisicamente. Como Jung sugeriu, a Natureza pode encontrar muitas formas de apagar uma vida sem sentido.

O homem criou o conceito de morte como um evento único, que se verifica irrevogavelmente em certo momento do tempo. Como percebemos, no entanto, a morte é um processo contínuo que ocorre na Natureza. O conceito de vida e morte como dicotomia distinta é simplesmente contra o fato observável.

Esta verdade, reconhecida filosoficamente há muito tempo, virou-se agora numa questão de interesse prático. Em conexão direta com os transplantes de orgãos, deve-se determinar com exatidão o momento em que o doador esteja clinicamente morto, antes do prejuízo total de seus orgãos vitais. Os conceitos de antropofagia tomaram uma nova dimensão neste século, graças a grande evolução da medicina atual. O desmembramento e reconstrução do homem perfeito, representados através dos rituais sacramentais dos templos, estão agora presentes nas salas de cirurgia. A pergunta feita pelos especialistas e cientistas da saúde é: Quando é o exato momento da morte? Quando o paciente pára de respirar, quando o coração pára de bater ou quando o EEG não indica mais ondas cerebrais? Percebendo que a Natureza desconhece o momento específico da morte, o cientista necessita estabelecer arbitrariamente o limite, objetivando resolver questões práticas sobre a vida. Neste sentido o homem, literalmente, “cria a morte”.

Se “criamos a morte”, por que tanto tememos sua figura? Por que simplesmente não vivemos a vida, levando fé em nossos instintos de autoconservação para os reais momentos de crise física, quando precisamos de fato de defesa? A resposta é que não podemos assim fazer. Na sua universalidade, em todos os povos e culturas humanas ao redor do planeta o temor da morte está presente, interrompendo o curso natural da vida, isto é, desviando nossa atenção do que está sendo feito, como parte de nossos medos irracionais.

Antigamente a Igreja exercia um importante papel na intermediação do ser ante a morte. No terceiro milênio tal mediação tornou-se mais flexível, o conceito judaico-cristão deixou de ter sentido para muitos. A morte passou a ser um fenômeno puramente físico, que deve ser tratado por especialistas de saúde. Agora já se revelam os fatos aos pacientes que estâo para morrer. Permitem que passem seus últimos dias em casa junto com os familiares. Criam-se grupos e seminários para debater e partilhar com outros a dolorosa experiência da perda. Afinal, já se pronuncia em voz alta o nome fatídico. Descobrimos que seu rosto é menos assustador do que se pensava.

O confronto do homem com sua mortalidade pode ter sido o impulsionador da ciência e da religião através dos tempos. A nossa empatia e horror com a morte de outras pessoas distingue-nos dos outros animais. Difere este sentimento do nosso instinto de autoconservação e temor da própria morte. A reação natural do homem primitivo, em condições normais de saciedade era fugir da visão de um cadáver, sentimento ainda permanente em nós, e incomum para os animais das outras espécies. Esta reação podemos denominar “o horror ao incompreensível”, em oposição com  “o medo do específico”. É a primeira experiência humana do “totalmente inacessível”. Os homens primitivos também realizavam o sepultamento de seus parentes, utilizando já ritos funerários e de culto aos ancestrais. Este sentimento é o detonador para o desenvolvimento de uma nova imagem do mundo ao redor, e leva consequentemente a uma expansão da consciência do ser em direção a duas vias: a da fé religiosa, que auxilia a aceitarmos nossa mortalidade, e da ciência, que pesquisa os fatos da morte e tenta controlá-los. O segundo caminho, a defesa contra a morte através do conhecimento, sugere uma afirmação do ego em sua adaptação a realidade externa; o primeiro, da aceitação do destino, sugere uma conformação com a realidade interna. Um conduz, através da magia do conhecimento, à dominação da ordem física, por meio da ciência natural, o outro leva à religião e à percepção do ser.

A idéia de que Deus muda a ordem dos acontecimentos para atender as súplicas dos homens é de um primarismo contundente. As criaturas são os “cães de palha”, que eram utilizados nos sacrifícios na antiga China e eram destroçados impiedosamente. O conceito de piedade humana não tem qualquer valor num plano universal. A verdadeira piedade provém do Tao, que ama a criação e se expressa através dela sem preferências. O homem, o cão, ou a árvore tem tanta importância para o Ente Absoluto quanto o monarca mais poderoso da terra. O bom Legislador, conforme o verso doutrina, deve alcançar a imparcialidade e, freqüentemente, a indiferença da própria Natureza. Para compreendermos o Tao devemos esvaziar os conteúdos emocionalistas que impregnamos nossas coisas e percebe-las como realmente são em seu vazio. É a existência deste vazio que permite que o espaço nunca fique exaurido. A idéia do fole simboliza algo que quanto mais trabalha melhor produz. Todos nós possuímos um eu interior, sem limites definidos, verdadeira raiz de nosso ser. A única forma de nos mantermos livres de fato é percebendo o vazio que apresenta-se diante de nós em cada fato que ocorre. Na atualidade, onde a tecnologia nos leva a uma repetição dramática de tarefas, a uma compartimentação sob todos os aspectos, a uma automação cada vez mais sensível no dia a dia, nossa liberdade encontra-se como sempre no mundo interior. No vazio inesgotável. Escutemos então os versos do Tao Té Ching.

A NATUREZA.
                                        
                                          A Natureza é cruel.
O céu e a terra não são humanos.
Não tem qualquer piedade.
Ela trata a criação como cães de palha
que serão destruídos no sacrifício
E cruel é o Legislador:
como cães de palha condenados
ele também trata o povo.

Como se parece com um fole o Universo
esvazia sem exaurir-se
e quanto mais acionado
mais ele revivifica a chama
Muitas palavras também exaurem o espirito.
Mas ainda assim o âmago  do coração
 se mantém fiel e livre.



  Arcano XIV– A TEMPERANÇA.

Segundo a tradição oculta esta carta simboliza metamorfose, mudança, mutações. O Arcano XIV representa, no mundo divino, “o movimento perpétuo da vida”, no mundo intelectual, “a combinação das idéias que criam a vida moral” e no mundo físico, a combinação das forças da natureza.

É o símbolo das combinações que se operam incessantemente em todos os reinos da natureza. É representado pelo Gênio do Sol, tendo na mão duas jarras e derramando de uma para outra a água da vida. Deita a seiva condutora da vida de um vaso azul num vaso vermelho. Simboliza tradicionalmente a dissolução das velhas formas e o desatamento dos laços rígidos, revelando uma libertação do mundo dos fenômenos.

O Gênio da Temperança é crucial na seqüência de nossa jornada pelo autoconhecimento. Inspira boa parte dos demais Arcanos, e a ação que se segue a seguir. Ressalta a bipolaridade do ser, quer pensemos nos vasos vermelho e azul, como yin, feminino e yang, masculino, consciente e inconsciente, sendo combinados os liquidos em iguais quantidades, representando nossa constante busca do caminho do meio, do equilíbrio. O líquido que flui entre os dois vasos não é vermelho nem azul, senão branco puro, sugerindo uma pura essência, ou energia. O personagem preside nos escuros recessos da psique, na combinação dos elementos necessários para poder operar nossas mudanças perante o mundo.

A figura alada em sua sabedoria e poder, abrange os dois lados, sustém com igual interesse o azul e o vermelho. Suas asas a colocam acima dos interesses mundanos, como um árbitro. Nenhuma figura humana está presente na carta, significando que os eventos ocorrem no nível inconsciente do herói, sem a percepção ou a participação do ego.

Os Gênios ou Anjos, derivam das entidades protetoras pagãs, ou Daímons como denominavam os gregos. Nos mitos de várias civilizações eles tem sido representados como entidades subalternas da deidade, mensageiros alados vindos do céu. O Arcano comentado, a Temperança é uma figura assim. Do ponto de vista psicológico, representações de experiências internas de caráter mágico servem de ligação entre o homem e o mundo arquetípico do seu inconsciente, trazem em momentos  críticos de nossa vida mundana novas introvisões e revelam novas dimensões de nossa experiência interior. De acordo com Jung, um anjo personifica a conscientização de algo novo que  vem do inconsciente profundo, definiu-os mais especificamente como “transmissores personificados do conteúdo inconsciente, que anuncia que eles desejam falar”.

Na Biblia são sempre os arautos, aparecem tradicionalmente para fazer uma anunciação ou revelação de importância metafísica. Vem para trazer sua mensagem ao indivíduo que sente e vê a visão, quase sempre em momentos críticos da humanidade, pressagiando fenômenos milagrosos, como o nascimento do Cristo, ou no Juízo do Apocalipse.

Entretanto o Gênio da Temperança posta-se diante de nós tranqüilamente, como presença permanente, entretido no afã de verter seu líquido sagrado. Este ser alado não acabou de descer do céu, está fincado ali há muito tempo esperando que alguém perceba sua presença. Parece querer transmitir a mensagem: Há poderes que operam no universo e em ti e que estão além da tua experiência cotidiana; confia nas correntes profundas da vida; deixa-te fluir nelas”. Ele, tal como o vemos, na verdade ainda não fez pronunciamento algum, mas se o herói buscar o diálogo e desejar ouvir a mensagem, estabelecerá o relacionamento com o “outro” interior sem dificuldade.

O método de dramatizar nossa conexão interior, personificando-a com uma figura do incosciente, é o que Jung denominava “imaginação ativa”, era utilizado também pelos alquimistas, como “diálogo interior com alguém invisível, como também com Deus, ou consigo mesmo, ou com o anjo bom da pessoa”. Podemos acrescentar também o diálogo com o anjo negro da pessoa, adição pertinente, pois como Jung lembrou, os anjos, à semelhança dos demais arquétipos, são criaturas de moral duvidosa. O nome grego daímon foi que deu origem na cultura católica medieval ao nome demônio para designar os anjos caídos, servos do Mal.

Não é o caso do Anjo da Temperança, merece toda nossa confiança, pois traz na testa a flor da iluminação. Sua forma circular sugere uma mandala, símbolo da quinta-essência, colocada no lugar do terceiro olho, a área da consciência suprema, segundo Jung, o lugar da individuação. Nas estátuas de Buda a flor de lótus na cabeça e o sinal na testa representam a consciência despertada, o símbolo dos nascidos duas vezes.

Nosso herói emergiu da confrontação com a morte como alguém nascido duas vezes; sente e percebe o desabrochar de uma nova vida. Vislumbrando com dificuldade no inicio o ser angélico, sua percepção do anjo aos poucos vai emergindo da profundidade da alma para sua mente consciente, nosso herói agora se sente escolhido, separado da turba.

Muitas vezes esta mensagem compensadora de cura e unidade geralmente vem para nós em momentos em que estamos mais sós – quando nossa vida interior e exterior parece mais fragmentada. Nessas ocasiões, quando o ego se sente inseguro, figuras arquetípicas do inconsciente profundo se movem em nosso campo de percepção.

O herói apresenta-se nesta fase numa situação assim. Esse momento marca um ponto crítico psicológico evidenciado pelo sentido do Arcano, a Temperança, indicando uma mudança dinâmica no fluxo da libido. O terror pelo recente confronto com a morte, o Arcano anterior, deixou nosso herói abalado, sózinho e desorientado, sentindo-se posto de parte. As introvisões ao defrontar-se com o esqueleto e a gadanha não permitem que volte aos velhos hábitos e métodos; sua vida anterior jaz fragmentada. Embora sua couraça protetora da antiga segurança esteja rachada, através destas frestas pode vislumbrar-se uma nova luz, uma visão libertadora em direção à individuação.

No meio deste turbilhão de vozes interiores, idéias, sentimentos e opiniões em conflito, começa a manifestar-se um centro de silêncio oculto. Olhando com a visão interior começa a perceber os contornos vagos do seu anjo da guarda, tal como é representado no Arcano do Tarô. Nosso herói consegue escutar o som calmante das águas interiores, a correnteza subterrânea que começa a fluir outra vez, suas energias vitais se aceleram em direção ao salto de uma nova vida. O poder da morte findou; uma nova libido renasce.

É o momento de deitar a libido em outro vaso, mas esta não pode ser uma mudança desejada ou dirigida pelo consciente. “A energia psíquica”, segundo Jung, “é uma coisa muito exigente, que insiste no cumprimento das suas condições. Embora muita energia pode estar presente, só poderemos torná-la aproveitável quando tivermos descoberto o gradiente certo”. O ego consciente não pode dirigir pela simples força de vontade, as energias criativas para canais pré-determinados, por mais razoável e lógico que possa parecer para a mente ativa. “A vida só pode fluir para a frente”, lembra Jung, “seguindo o caminho do gradiente”. O equilíbrio do fluxo das energias opostas, de modo a encontrar o gradiente apropriado, requer a paciência e a habilidade de um gênio alado. Devemos confiar que o Anjo desempenhe sozinho seu papel, verdadeira alquimia anímica, ao percebermos que esta transmutação está além do nosso controle consciente.

Simbolicamente, a reconciliação dos opostos não é questão de lógica e razão. A humanidade, por gerações, vêm tentando reconciliar a busca do sentido, figurada na religião, com a busca do fato, personificada pela ciência. Esta conciliação dos dois impulsos básicos não ocorre através do intelecto. Como todos os opostos, só podem ser reunidos no ponto da experiência. Foi pergutando a Jung, numa entrevista: “Acredita em Deus?” ao que ele respondeu: “Não acredito...eu sei”.

Na Temperança , restabelece-se o contato com o mistério. Seus dois vasos, como representado nos textos alquimicos, tem o poder mágico para reunir, conter, preservar, e curar. O líquido dos vasos parece saltar com vitalidade própria a partir de uma fonte inesgotável. Os opostos estão agora separados e claramente definidos, com o precioso líquido sendo transferido do recipiente mais elevado para o mais baixo, gerando nova espécie de energia.

Renascida a libido, começa a fluir em outra direção. Depois da inatividade forçada do Enforcado e o cruel desmembramento da Morte, a energia do herói agora salta, como fluxo elétrico, do potencial mais alto para o mais baixo. Existe agora uma nova conexão entre a clareza azul celeste do espírito e o vermelho sangrento da materialidade. O Anjo verte e recebe, ao mesmo tempo, num só gesto, criando uma nova interação entre o impulso diretivo do yang e a contenção do yin.

Diferente de outros Arcanos, que são portadores de seus poderes mágicos, zeladores destes poderes ou talentos divinos através de uma dádiva recebida, o Anjo da Temperança não possui tais atributos, já que seus poderes divinos são investidos nele mesmo. Na Temperança, a orientação divina provém do Gênio alado, seu principal personagem. Seu simbolismo é impessoal e abstrato. Os opostos retratados em outros Arcanos, são representados agora pelos recipientes vermelho e azul, vertendo eternamente o fluído único do ser.

O Gênio restabelece a conexão entre o mundo cotidiano do tempo histórico e o “tempo sagrado”, dádiva mítica eterna, periodicamente reintegrada por meio de ritos. Na Temperança, o ritual da vertedura religa o herói ao mundo do sagrado. No futuro poderá ficar desligado novamente do Anjo e de seus poderes imortais. Nunca mais, porém, sentirá ser inteiramente despojado desta presença, pois agora experimentou nas profundezas da alma, no seu interior, o som tranquilizador do fluxo do líquido vital.

O Gênio oferece auxilio prático e vital, não só para a realidade externa como também para a jornada interior. Seu ritual não é um conceito puramente filosófico. Ao tomarmos os dois vasos como polaridades dos aspectos interno e externo, consciente e inconsciente, o Gênio, em sua vertedura ritual, auxilia o herói a conciliar-se com estes dois aspectos da vida. Quando estes aspectos, ou mundos se misturam inconscientemente, sem o Gênio protetor para presidir, nossa vida torna-se caótica e confusa, possivelmente com resultados desastrosos. Se tentarmos viver exteriormente um drama que pertence ao lado interno, a trama pode acabar em tragédia. Podemos erroneamente projetar os atributos do Gênio em alguém das nossas relações, entregando aos cuidados desta pessoa todos os nossos sonhos, esperanças, problemas e conflitos, esperando que este ser aparentemente superior proteja e regule o fluxo total de nossa vida. Quando isto ocorre, não é raro, o Gênio bondoso do Arcano XIV transmudará, um dia, como o Gênio do Mal representado no Arcano XV.

Se ao contrário, tentarmos colocar à força em nosso universo interior acontecimentos que pertencem a realidade exterior, por exemplo, um problema conjugal ou com nosso colega de trabalho, será inútil carregar esse evento integralmente para o nível simbólico. Perder horas na elaboração de diálogos  internos, imaginários com os interlocutores ou teorizar, na solidão, sobre as possíveis razões do comportamento do outro. Pensar pode ser valioso, mas chegará o momento em que teremos de penetrar na realidade e entabular um verdadeiro diálogo com a pessoa em questão. Quase sempre, ao entabularmos conversação com o interlocutor, descobrimos que a realidade é muito menos terrível, que o drama interior protagonizado por nós. Pode acontecer até que aquilo que visualizamos em nossa imaginação como tragédia de antagonismo venha demonstrar-se, na realidade, comédia de equívocos.

Quando e como misturar o conteúdo destes dois frascos, é algo que só podemos descobrir pelo método empírico, isto é, de tentativa e erro. Precisamos encontrar dois vasos para conter nossos dois mundos, para que não se misturem indevidamente, e manter um domínio sobre os mesmos.

A chave da Alquimia divina, a Temperança significa “trazer a um estado adequado ou desejado pela combinação ou pela mistura”. A teoria da Alquimia era que toda a matéria pode ser reduzida a uma substância, e a partir de processos de depuração, é possível extrair o baixo e corruptível, para que finalmente, só o puro e incorruptível, o ouro dos filósofos, seja corporificado. Este sentido reforça a idéia oculta no Arcano da formação de um novo ser psíquico.

Temperamos metal para fortalecer e tornar flexível sua estrutura, para ser capaz de suportar esforço. Buscamos idealmente temperar justiça com misericórdia pela mesma razão. Visto que a Temperança é mencionada como “O Alquimista”, devemos refletir sobre aqueles que no passado foram os pioneiros no processo da individuação. A ação do Anjo da Temperança é como a do Sol, o alquimista da Natureza, que trabalha com os líquidos da terra, enquanto o anjo trabalha com as águas da psique do herói. O Sol faz do nosso planeta uma retorta alquímica em que as águas dos mares são evaporadas em direção ao céu, expurgadas de suas impurezas, e devolvidas em forma de chuva. Esse processo contínuo, circular exemplifica a relação entre o celeste e o terrestre, entre os arquétipos do inconsciente coletivo e a “realidade” do ego do homem.

É a Temperança que promove este diálogo fluido entre os reinos celeste e terrestre, ou melhor, entre o eu superior e o ego – tema central de todas as cartas posteriores. O fato de estar presente este ser alado que desceu à Terra, cara a cara com o herói, indica que ele agora experimenta a realidade do inconsciente de uma nova maneira. Dispensará outra importância as criaturas e personagens que surgem em seu interior, não serão mais consideradas unicamente como frutos de sua imaginação. Percebe agora o limite entre os dois mundos e para o futuro conferirá ao interior igual valor à do exterior. Quando tiver maior autoconfiança, poderá interagir no mundo interior e conviver com mais liberdade com seus habitantes.

Há uma operação misteriosa no universo, em constante processo de movimento. É ela que faz com que as coisas nasçam, cresçam, amadureçam e morram. Por trás desta força está a presença misteriosa do Tao: a fonte comum, de onde brotam todas as águas. Seu fluir é expontâneo, sem qualquer autoridade. Nossa criatividade também é medida por esse fluir, no qual o processo criativo incubado pode vir a luz, sem esforço e envolto na alegria suprema da criação. Por que cantam os pássaros? Por que correm os rios? Por que criam os artistas? É algo misterioso e inexplicável.

A VIRTUDE MÍSTICA.

Todas as coisas são produzidas pelo Tao
 e nutridas pela Virtude no seu constante fluir.
O mundo material lhes dá forma.
As circunstâncias eventuais os completam.
Portanto, todas as coisas, sem exceção, honram o Tao
e exaltam a Virtude, no seu constante fluir.
Assim o Tao é adorado e a Virtude exaltada
sem influência de ninguém e de acordo com todos.

Por isso, é que Tao lhes dá vida, e a Virtude os ampara
fazendo-os crescerem, desenvolvendo-os,
dando-lhes um refúgio para viverem em paz,
difundindo-os e alimentando-os.
Ele lhes dá vida e nada lhes cobra.
Ajuda-os e não exige qualquer posse.
É superior, mas não exerce qualquer autoridade.
Esta se chama a operação misteriosa.
-          Eis no que consiste a Virtude Mística.

   
Arcano XV – O DIABO.

O Arcano XV, conforme a tradição oculta do Tarô significa fôrça maior, destino, magia negra, mistério, atrações secretas. No mundo divino, simboliza a predestinação, no mundo intelectual, representa o mistério e no mundo físico, é o imprevisto, a fatalidade.

Este Arcano é figurado por Tífon, Gênio das catástrofes, de pé sobre um pedestal. Usa uma tiara, de chifres de veado. Exibe garras de ave de rapina e asas de morcego. Tem aos seus pés, um homem e uma mulher atados pelo pescoço, representando suas emanações. este ser alado que desceu à Terra. Possui seios de mulher que parecem pregados ou pintados na figura. O elmo de ouro pertence a Wotan, um deus vingativo, sujeito a explosões femininas de gênio. Tinha o hábito de buscar vingança toda vez que sentia sua autoridade ameaçada. Tífon carrega uma espada, descuidado, pela lâmina, com a mão esquerda.  “É a imagem da Fatalidade que irrompe como a erupção de um vulcão sobre aquele que se deixa dominar pelas ilusões da matéria, quer seja ele forte ou fraco, grande ou pequeno, hábil ou ignorante”.

Segundo a mitologia grega, Hera, esposa de Zeus, considerou um imperdoável ultraje, ter seu divino esposo dado à luz Atena, sem o auxílio de um elemento ou princípio feminino. Invocou então a Terra, o Céu, o Tártaro e os Titãs, para conceber e criar, ela também, sem ajuda de nenhum princípio masculino, um filho que não fosse inferior em força a Zeus. Seus desejos foram satisfeitos, e decorrido o tempo necessário, ela deu ao mundo o terrível Tífon, monstro gigante que soltava fogo pela boca e pelas narinas, flagelo dos mortais.

O Diabo é uma figura arquetípica cuja linhagem, direta e indireta, remonta a mais alta antiguidade. Como Seth, deus egípcio do mal, era representado como cobra ou crocodilo, formas que assumia. Na antiga Mesopotamia, Pazazu, rei dos espíritos maus do ar, ou demônio malariento do vento de sudoeste, já incorporava alguns atributos de Satanás. O Diabo também pode ter herdado atributos de Tiamat, deusa babilônica do caos, que assumia a forma de um pássaro armado de chifres e garras. Ao surgir em nossa cultura Judaico-Cristã  passou a ter uma forma mais humana e agir de maneira que os humanos pudessem perceber mais prontamente. Suas energias continuam a ser dirigidas mais para o conflito do que para a paz, e mais para o poder do que para o amor. Sua atual personificação, mais humana, significa simbologicamente, que estamos mais preparados para vê-lo como aspecto sombrio de nós mesmos do que deus sobrenatural ou demônio infernal. Deve querer dizer que se quisermos podemos lutar com o nosso lado infernal, o eu inferior.

O Diabo é quase sempre representado como dotado da asas de morcego. Este mamífero de hábitos noturnos, evita a luz do dia, recolhendo-se em escuras cavernas, onde habita. Alguns são hematófagos, isto é, se nutrem do sangue de animais vivos, espalhando doenças através de suas mordidas ou pelo contato com suas fezes, o que provocou sua má fama. A crença popular considera os morcegos animais de mau agouro, mesmo que em sua maioria sejam frutívoros ou insetívoros, isto é, não podem causar mal algum, pelo contrário, são importantes para o equilíbrio natural.

Nosso personagem, o Diabo, também voa a noite, momento onde a escuridão desce sobre os homens, e nossa mente racional pode ser abalada e enfraquecida. Durante o dia ele esconde-se nos recônditos do nosso inconsciente, onde fica dependurado de cabeça para baixo, recarregando energias e aguardando a sua hora de agir. Suga nossas energias, perturbando nossa capacidade de discernimento, transmite doenças do espirito para comunidades inteiras e até Nações, lançando confusão sobre nossos valores humanos, perturbando a lógica natural e produzindo histeria em massa.

Sempre creditamos ao Mal o que nos parece uma monstruosa aberração da Natureza, como no caso do morcego, que consideramos inconscientemente um guinchante rato alado. Temos a tendência de considerar todas as malformações da natureza, como criação de algum poder sinistro e irracional, e o seu fruto como ferramenta viva deste poder. A capacidade de navegar às cegas no escuro, por exemplo, é intuitivamente considerado um atributo de magia negra, poder emanado do próprio demônio. É claro que os cientistas já decifraram estes enigmas e até mesmo através da tecnologia conseguiram criar um dispositivo similar, o radar, que permite aos homens também navegar no escuro.

Analisando os conflitos e guerras ocorridos nos últimos cinco mil anos relatados nos anais da história, descobrimos que a medida que evoluímos tecnologicamente a civilização e nos tornamos mais voltados a materialidade, evoluem também os armamentos e táticas de destruição em massa. Paradoxalmente, quanto mais buscamos nossa imortalidade através da crença em nossos mecanismos e estruturas sociais, mais impiedosas são as guerras, os conflitos, a pobreza e a fome no mundo. Sobre este fato, comenta Jung:
“As execráveis forças instintuais do homem civilizado são imensamente mais destrutivas e, portanto mais perigosas do que os instintos do homem primitivo, o qual, num grau modesto, vive constantemente instintos negativos. Por conseguinte, nenhuma guerra do passado histórico poderá rivalizar com uma guerra entre nações civilizadas em sua escala colossal de horror”.

Guerras e conflitos de massa não são gerados pelos resquícios de paganismo, ou instintos animais remanescentes na alma humana, como muitos pensam. Pelo contrário, a excessiva doutrinação do monoteísmo no planeta, e o fundamentalismo religioso ou fanatismo ideológico, levam a humanidade a um beco sem saída espiritual. Uns justificam seus atos violentos, como objeto de sua fé, outros justificam suas ações genocidas usando a ideologia da Justiça, outro ícone sagrado. Todos no entanto projetam no monoteísmo exacerbado suas próprias ânsias de poder, desculpa para intolerância racial, ou discriminação de grupos sociais. É como se tivessem sido investidos por algum deus vingador, ou incorporassem o poder da divindade, cometendo os piores crimes, às vezes matando milhares de pessoas dentro de critérios absolutamente particulares, travestidos de defensores da verdadeira crença ou ideologia ideal.

Estes líderes, enlouquecidos pelas suas crenças religiosas ou políticas, e pela busca incessante do poder vivem em estado de exaltação mística, voz calma, olhar messiânico, enviam com suas ordens milhares para a morte sem hesitar. Diferentes do Buda, e do Cristo, que viviam em estado de graça, e cultuavam a vida, estes senhores da guerra preferem a companhia do eu inferior, a sombra do verdadeiro Ente Absoluto, para poderem anular suas consciências em relação aos terríveis atos cometidos sob a justificativa do objeto da manutenção da fé ou da defesa do poder de uma nação qualquer.

Através dos tempos, o eu inferior tem falando pelas bocas de reis, tiranos, e ditadores sanguinários, que possuídos com permissão expressa do próprio ego, promovem sua anulação justificada ou pelo racionalismo cartesiano recente ou simbolicamente por rituais de invocação dos poderes das sombras como na antiguidade, cometendo as maiores atrocidades em seu nome, sem culpa. Agem como se seus atos fossem inspirados pelo “outro”, o possuidor, preservando-se psicologicamente o indivíduo e anulando o próprio ego em prol de um grande projeto de poder. O “observador”, ou cavalo, tudo observa como num circuito fechado de tv, enquanto o “outro”, o eu inferior, premedita e executa as ações mais horrendas.    

Enfrentar as sombras é um desafio constante, sua semente também repousa em nosso inconsciente, espreitando o momento oportuno para se manifestar e arrebatar o poder da nossa luz interior. Tememos que a natureza animal do homem se torne uma abominação incontrolável. Mas essa estranha fera interior, que projetamos no Diabo, também é Lúcifer, e como diz seu nome, é o portador da luz. Sua figura no Tarô de Marselha, controversamente ostenta um traço redentor: um par de chifres de ouro que  parecem chamas saindo da cabeça da criatura, que representam o fogo divino. Chifres são antigos símbolos de vida nova e regeneração espiritual. Os representados na carta parecem como línguas de fogo saídas de cada lado da criatura demoníaca. Como já vimos trata-se do elmo de Wotan, e não são atributo exclusivo do Diabo. Como Daímon, entidade subalterna, cumpre seu papel de divino mensageiro, quando seu fogo ilumina e purifica. E quando rouba a luz para sua própria glória, suas atividades podem atrair os raios do céu.

Ele instiga nossa desobediência, instando para comermos o fruto da árvore do conhecimento, tirando do marasmo nossas existências, e provendo o indivíduo da noção do bem e do mal. Não fosse a ação dinâmica de sua presença, induzindo ao conhecimento, estaríamos vivendo ainda sem civilização, como animais, aprisionados para sempre em condicionamentos automáticos. Estaríamos presos a um paraíso seguro mas limitado. Não teríamos consciência do ego e tampouco capacidade de transcendência do ego através do autoconhecimento.

Nós, os humanos fomos expulsos do paraíso da obediência aos instintos graças as atividades perturbadoras de Satanás, libertando-nos para cumprir nosso destino de verdadeira humanidade. O livre arbítrio, e a responsabilidade da escolha moral são o resultado do conhecimento, o preço de nossa liberdade para todo o sempre. Estamos segundo Jean Paul Sartre, “condenados a ser livres”, pois sem liberdade para fazer escolhas, não pode haver moral verdadeira. O fato é que hoje dispomos de mais escolhas livres que no passado, mas multidões ainda permanecem aprisionadas à mídia, à moda, à restrições reais ou imaginárias, reagindo automaticamente. Devemos ficar sempre atentos enfrentando nossos demônios interiores, para alcançarmos a tão almejada humanidade e lutarmos contra a automação e padronização da sociedade e dos costumes, hoje amplamente disseminada pelo culto à materialidade através das recentes tecnologias de comunicação de massa.

Enquanto nossa obediência a normas for cega e automática, não seremos livres. Este é o significado do casal de aspecto demoníaco que figura na carta. Eles não são nem humanos, nem demônios, estão atados com coleiras ao pedestal onde se encontra Tífon, o diabo, como emanações que são do eu inferior. Possuem orelhas, chifres, cascos e caudas de animais, que os ligam ao plano material e dão a impressão de não perceber o que se passa consigo mesmo. Estão de costas para a figura demoníaca, interpretando seus papéis sem notar sua presença. Auxiliam na ritualização dos engodos criados pelo ente do mal, como seus escravos ou clientes. Suas imagens são diminutas em relação a figura central porque estão subjugados pelo seu poder. Presumem estar em pleno controle da situação, e do seu comportamento, preferindo ridicularizar e minimizar a influência maligna do diabo, até mesmo negando sua existência.

Quando explosões emocionais, esquecimentos inexplicados, e lapsos de consciência ocorrem e ameaçam destruir a auto-imagem complacente de tais pessoas, elas nunca olham para trás para ver os compridos apêndices que os ligam à materialidade animal. Estão quase sempre ocupadas, apontando seus dedos acusadores para outra pessoa. Comenta André Gide, filosofando sobre a questão: “O mal é uma coisa que fazemos em troca”. Levará algum tempo antes que nossos personagens assumam a responsabilidade pelos seus atos. Talvez necessitem algo que despoje suas vidas da materialidade excessiva, alguma grande transformação proporcionada pelos acontecimentos da própria vida.

De acordo com Jung, qualquer tipo de função psíquica separada do todo e que opera de forma autônoma é diabólica. Estar a serviço e preso de forma inconsciente, nem que seja ao mais altruístico dos códigos, marca a pessoa como sujeita ao demônio, tanto quanto ser vítima dos próprios apetites animais.

A mão do Diabo, semelhante a uma garra, com quatro dedos erguidos numa saudação jocosa, indica seu poder sobre as dimensões limitadas do poder terrestre. Não contente com seu papel de portador da luz, quer que pensemos ser ele o fogo celeste forjado na bigorna de plutão, o pedestal onde se encontra de pé. Gosta também de apresentar-se como A Luz. Segura sua espada de maneira descuidada, com a mão nua, indicando o uso egocêntrico e inconsciente do poder. A espada, conforme a tradição cristã, é a ferramenta luminosa da obra cavaleiresca, eixo de luz que trespassa as oposições e os contrários para fazer renascer a unidade. Tinha muitas vezes origem sobrenatural, podendo fulminar o ser indigno, ou transmitir o espírito criador, conferindo armas espirituais àquele que partia em busca do Graal. Em O Diabo, a figura central põe a ridículo tudo o que a espada simboliza. Demonstra sua invulnerabilidade pessoal e sua indiferença a qualquer poder que não emane dele mesmo. Ao observar a carta podemos notar suas intenções, mas os dois escravos continuam sem perceber sua existência.

Conforme dizia Baudelaire: “O artifício mais hábil do Diabo é convencer-nos de que não existe”. No Tanach, ou Antigo Testamento, o Mal é visto também como aspecto de Deus. Em Isaías temos o texto atribuído a Jeová: “Eu sou o Senhor e não há mais ninguém. Formo a luz e crio a escuridão; Faço a paz e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas coisas”. As religiões orientais sempre consideraram o aspecto demoníaco como uma emanação da divindade. O Cristianismo primitivo também colocava nas mãos de Deus a capacidade para o bem e para o mal. Segundo se dizia, Deus governa o mundo com ambas as mãos, sendo a direita Cristo e a esquerda Satanás. Atualmente porém a Igreja Cristã cortou a mão esquerda de Deus, relegando o demônio às regiões infernais, e desenvolveu a imagem de uma divindade totalmente benéfica no lugar. Ao percebermos hoje em dia esta visão parcial da divindade benéfica e redentora, acabamos perdendo contato com o lado sombrio em nós mesmos.

Este descaso pela faceta diabólica em nós é a principal causa da confusão vivida no mundo atual, segundo dizem os psicólogos. Nosso emocionalismo, fanatismo, sede de vingança, violência e confusão individuais, não reconhecidos, agora eclodiram em escala mundial, na forma de conflitos, racismo, terrorismo, criminalidade e vício. Tais fatos de nossa sociedade globalizada levam a concluir que segundo um truísmo da vida, quando nossos aspectos negativos não são reconhecidos em nosso interior, parecem agir contra nós no exterior.

O Diabo na verdade é figura de caráter duvidoso e ambivalente. Nos filmes mais recentes criados por Holiwood, ele aparece como executivo, sem nenhum de seus traços demoníacos tradicionais, um homem bem vestido que ilude suas vitimas através da ganância delas, ou como forma do destino apocalíptico da humanidade segundo a tradição judaico cristã. Não é por acaso que a palavra hebréia que designa o Diabo signifique “adversário”, “virado contra”, “hostil”. Estes personagens cinematográficos tentam retratar o mal verdadeiro, a polaridade invertida, uma dicotomia apreciada pelos diretores americanos quase todos de origem semítica. Personificam o mal fora das pessoas, como ente externo.

Nosso conflito interno entre as forças opostas reflete a dualidade da divindade, seu lado brilhante de iluminação, mas também seu lado sombrio, tenebroso, inverso. Podemos achar o conceito difícil de aceitar conscientemente, porém inconscientemente, quase todos temos vivido com ele toda a vida. Se adotarmos o conceito monoteísta, teremos que acreditar que Deus deve ter criado o Diabo como parte do plano divino. Na história de Jó, o próprio Senhor é tentado por Satanás para atormentar Jó. Como faz ver Jung em sua “Resposta a Jó”, até a divindade possui o atributo de um lado escuro inconsciente, uma sombra diabólica como alter ego. A princípio, em oposição a nossa cultura cristã,  ficamos chocados ao perceber a idéia que a divindade pode abranger todos os opostos, incluindo uma escura área do inconsciente, e que o Diabo pode possuir algumas qualidades brilhantes e redentoras. O homem comum sofre o assedio da tentação que ele busca afastar com rezas e súplicas a Deus. Ele ora “Não nos deixeis cair em tentação”. Tal fato só pode significar que inconscientemente também experimentamos a tentação da desobediência como parte da divindade.

Traduzido em experiência prática, isso quer dizer que, quanto mais conscientes nos tornamos do nosso potencial criativo, tanto mais alertas devemos estar para os truques do nosso lado sombrio e tanto mais responsáveis devemos ser em relação a ele. Com a expansão da consciência, à medida que se torna mais refinada, ficamos cada vez mais a par da nocividade potencial de qualquer ato ou expressão. Visto que todo impulso humano é na essência amoral, o que define a imoralidade de uma ação instintual é sua inconsciência. Impulsos que se manifestem inconscientemente na maioria das vezes são descontrolados, primitivos, compulsivos, e quase sempre nocivos.

O aumento da percepção, longe de transformar o indivíduo num vegetal passivo, submerge-o cada vez mais profundamente no conflito moral, ordenando até mesmo um aprofundamento mais radical nos mistérios do bem e do mal. Quando sentimos estar transgredindo as normas estabelecidas pelos nossos condicionamentos trazidos pela formação parental, perturbamos nossa identidade infantil em seu berço de pacifica inocência impondo um sentimento de culpa, de violação das leis naturais. Nos mitos, os heróis numa escala universal transgridem a ordem sagrada estabelecida, destruindo os antigos dogmas e paradigmas. Como fez Prometeu, roubam o fogo sagrado em benefício da humanidade. Tais atos de desobediência e temeridade são sempre punidos pelos deuses.

Segundo o mito grego, Prometeu, o Previdente, filho do titã Jápeto com a oceânide Clímene conforme Hesíodo, ou de Têmis, a deusa da justiça, segundo Ésquilo, foi considerado o criador da raça humana. Teria feito o homem amassado em argila e água, ou talvez com suas lágrimas, e Atena insuflara na sua criatura alma e vida. Enquanto o titã Crono, personificação do tempo, reinou, homens e deuses tinham iguais regalias. Com o advento dos Olímpicos, Zeus impôs aos homens sua supremacia divina. Certa vez  fez-se reunião entre mortais e imortais, uma em Meconê e outra em Sícion, para determinar que parte das vítimas dos sacrifícios deveria pertencer aos homens e quais aos deuses. Responsável pela partilha, Prometeu abateu um boi enorme, pôs de lado as vísceras, a carne e os pedaços mais gordos; do outro lado arrumou perfidamente os ossos recobertos com toucinho reluzente. Zeus, convidado a escolher, optou pelo segundo lote, mas quando afastando a gordura, só encontrou a brancura dos ossos, ficou tão indignado que jurou vingança. Para servir aos homens que viviam em extrema penúria na Terra, Prometeu roubou de Hefesto um pouco do fogo da forja e deu-o a eles. Dizem outros que o fogo foi roubado das rodas do carro do Sol. Então Zeus para se vingar de Prometeu e dos homens, mandou que Hefesto fizesse uma virgem de beleza sem igual, de argila umedecida com água, dando-lhe voz humana e energia vital. Todas as divindades concederam dons à nova criatura, de onde seu nome, Pandora, isto é, dotada de todos os dons. Hermes, por último, lhe pôs no coração a perfídia e os discursos enganadores. E então Zeus enviou-a de presente a Epimeteu, conhecido como Aquele que Pensa e irmão de Prometeu. Embora advertido pelo irmão de que não deveria aceitar nenhum presente do deus, Epimeteu, enlevado pela beleza da primeira mulher, tomou-a para sí, fazendo-a viver entre os humanos. Foi confiada a Pandora uma caixa de conteúdo desconhecido que deveria estar sempre fechada. Por curiosidade, ela abriu-a deixando escapar terríveis males pela Terra para assolar a humanidade que na época vivia um período de ouro e paz. Somente a esperança ficou guardada na caixa. E assim, o Mal fez sua aparição no mundo. Contudo não ficou apaziguada a cólera de Zeus. Resolveu afogar a humanidade, e para isso mandou o dilúvio. Mas prometeu velava. Seu filho Deucalião, casado com Pirra, filha de Epimeteu, reinava na Tessália. A conselho do pai, construiu uma embarcação e nela se encerrou com a esposa. Durante nove dias e nove noites vagaram sobre as ondas. No décimo dia as águas pararam de subir, e os dois sobreviventes desceram no cimo do monte Otris. Foi concluída a paz entre Zeus e os homens, por intermédio de Deucalião, mas Prometeu foi condenado ao castigo por suas astúcias e insolências contra os deuses. Por ordem de Zeus, Hefesto apoiado por Crato e Bias, encadeou Prometeu ao monte Cáucaso fixando-o com correntes indestrutíveis. Uma ave de rapina monstruosa deveria bicar-lhe eternamente o fígado que, devorado de dia, renascia a noite. Não se abatia, no entanto, nem o orgulho nem a revolta de Prometeu. Trinta mil anos durou seu castigo. Apesar de ter jurado pelo Estige jamais livrá-lo dos rochedos do monte Cáucaso, quando Herácles apareceu, Zeus consentiu que desacorrentasse Prometeu e que matasse o terrível monstro rapinante, filho de Tífon e Equídna. Para que seu juramento não tivesse sido em vão, obrigou Prometeu a trazer sempre no dedo um anel com um pedaço de rochedo do monte Cáucaso encravado. Mais tarde o herói, semideus, ainda prestaria bons serviços ao deus supremo, ganhando sua simpatia e imortalidade definitiva.

Simbolicamente, isso significa que as pessoas de gênio e criativas tem de sofrer, por força, o destino do isolamento, vivendo em regiões do espírito acima do entendimento dos seus contemporâneos. Aprisionados em sua tarefa única de portadores da luz, estes entes, figuras heróicas, são forçadas, dia e noite, a sacrificar suas vidas às exigências do próprio gênio.

Sentimentos de punição, culpa, transgressão ligam-se à busca da consciência. Toda vez que rompemos com os limites parentais de como as coisas “deveriam” ou “haveriam” de ser feitas, sentimos culpa. Encerrados no inconsciente, estes sentimentos fazem com que atos sem nenhuma agressão do valor moral gerem culpa, principalmente se ofenderem os limites estabelecidos pelo “pai interior”, imagem inconsciente cuja influência persiste toda uma vida se não for percebida. Por outro lado, qualquer rompimento, por inconseqüente que seja, do indivíduo, com os costumes vigentes no meio social externo pode criar violenta reação do meio, gerando novos sentimentos de culpa. Mas se nosso comportamento for igual aos outro, isto é, “se todo o mundo estiver fazendo o mesmo”, podemos fazer, usar, dizer as coisas mais esquisitas, ou até mesmo praticar atos ilegais e criminosos sem experimentarmos nem um pingo de culpa.

Para simplificar, em termos psicológicos, qualquer afastamento da identidade inconsciente original com o eu encarna no indivíduo sentimentos de culpa. Entretanto para movimentar-nos em direção de um relacionamento consciente com o eu, precisamos levar a cabo esta ruptura e absorver o sentimento de culpa. Neste caso, paradoxalmente, somos levados ao afastamento da identificação original, objetivando estabelecer uma reunião com o eu num nível diferente de percepção.

O fardo da culpa não é somente individual, pois cada um carrega alguma culpa inconsciente pela criminalidade e desumanidade do mundo civilizado, sobre os quais lemos e vemos na mídia todos os dias. Disse Jung: “Ainda que juridicamente falando, não tenhamos sido cúmplices do crime, somos sempre, mercê de nossa natureza humana, criminosos em potencial. Na realidade, apenas nos faltou a oportunidade apropriada para sermos arrastados à melée infernal. Nenhum de nós fica fora da sombra negra coletiva da humanidade”. E escreveu ainda: “não nos sentimos bem quando nos comportamos perfeitamente; sentimo-nos muito melhor quando estamos fazendo alguma coisa errada. Isso acontece porque nós não somos perfeitos. Quando constróem um templo, os hindus deixam um canto por acabar; só os deuses fazem coisas perfeitas, o homem nunca poderá fazê-las. É preferível sabermos que não somos perfeitos, porque assim nos sentimos muito melhor”. Quase sempre necessitamos de um “bode expiatório” que nos ajude a suportar o peso de nossas imperfeições humanas. De maneira indevida muitas vezes projetamos no próximo nossos erros e defeitos para não sermos esmagados pelo seu peso. O Diabo com certeza é um ótimo bode expiatório. Dizemos: “O Diabo me obrigou”, ou “Não sei que diabo tomou conta de mim”, botando a culpa no Demo.

Personagem complexo e ambivalente, é aquele poder que só deseja produzir o mal, mas às vezes, sem querer, produz o bem. É a sombra interior que nos incita a criminalidade inconsciente, mas também nos lança em direção à consciência total. Oferece como Lúcifer, o fogo dos céus, para nosso esclarecimento, ou os fogos abismais do inferno para nossa auto destruição. Todo o tempo usa o seu principal artificio, o poder de enganar nossos sentidos e aparece com as formas mais insuspeitas para nós para assim passar desapercebido.

Conforme Jung, vivemos hoje o  tempo da Grande Besta, de novo despertada pela homogeinização dos meios de comunicação e seus conteúdos pelo capital internacional, o verdadeiro domínio econômico e político exercido pelas poderosas megaestruturas. Dizia ele: “Uma grande companhia composta de pessoas totalmente admiráveis tem a moral e a inteligência de um animal pesado, estúpido e violento. Quanto maior é a organização, tanto mais inevitável é sua imoralidade e cega estupidez. Ao acentuar automaticamente todas as qualidades coletivas de seus representantes individuais, a sociedade concedeu prêmio à mediocridade, a tudo que se estabelece para vegetar de modo fácil, irresponsável. A individualidade será encostada na parede”. E ainda: “Mas o portador verdadeiro da vida é sempre o indivíduo. Apenas ele sente a felicidade, somente ele tem virtude e responsabilidade ética. Nada disso tem a massa e o Estado. Apenas como indivíduo é que o homem vive ; o Estado, porém, é um sistema, ou apenas uma máquina para separar e ordenar as massas. Todo aquele, pois, que, em se tratando de coisas humanas, pensar menos no homem e se interessar mais por grandes números, fazendo de sí mesmo como que um átomo, torna-se salteador e ladrão de sí mesmo. Junto com os outros pegou a lepra do pensar coletivo e se tornou algum daqueles moradores daquele curral punitivo e doentio que tem o nome de “Estado Totalitário”. Nosso tempo produz e contém boa porção daquele “enxofre bruto”, (que) impede que o homem atinja seu próprio ser. O nome do Diabo é Legião, e segundo Jung: a indivídualidade “morre por causa do veneno do pensar coletivo da massa, da estatística e da organização; e o indivíduo se torna vitima da loucura catastrófica, que mais cedo ou mais tarde se apodera da massa e é o entusiasmo pela morte, como se observa nos lemingues. No domínio dos homens isso se chama guerra....Contra a superioridade e a brutalidade da convicção coletiva nada tem o homem para opor a não ser o mistério de sua alma viva.”

Toda vez que uma potência arquetípica irrompe através da consciência total, sentimos um influxo de energia e iluminação de dimensões, tão sobrehumanas, que  nos sentimos com vontade de ficar cheios de orgulho com nosso próprio poder e perdemos contato com nossas limitações de seres humanos comuns. A evolução e o entendimento espiritual voltam à estaca zero, obrigando nosso herói a iniciar sua jornada do início.

Qualquer função de psique humana que atue inconscientemente é diabólica. O Mefistófeles de Goethe disse Jung: “é o aspecto diabólico de toda função psíquica que se tenha soltado da hierarquia da psique total e goza de independência e poder absoluto. Esse aspecto, contudo, só pode ser percebido quando a função se torna uma entidade separada e é objetivada ou personificada”...

Como o Diabo seria retratado hoje? Jovens muçulmanos com seus turbantes, armados de rifles automáticos e lança foguetes espalhando o ódio religioso, ou narcotraficantes corrompendo as instituições com seus milhares de dólares e viciando os jovens pelo mundo a fora. Ou talvez um imenso computador que tudo controla numa sociedade medrosa e auto punitiva, seu perfil informático.

Na carta, ele ergue uma de suas mãos num gesto marcante, zombeteiro, enquanto a outra empunha ameaçadoramente sua espada. É evidente a falta de sincronia dos gestos, a peraltice de seu comportamento momesco, infantil, seu sorriso encabulado e bravateiro, sua inaptidão ao uso do gládio. Se o ignoramos, como é prática comum em nossa cultura ocidental, cometerá atos estranhos visando chamar nossa atenção. Comparado ao seu oposto o Mago, pesando e avaliando os potenciais da magia branca e da negra, com a balança da Justiça, sobrecarregando um lado com luz e o poder do pensamento positivo, e outras ilusões de perfeição, deixando vazio o outro lado da balança, ele carregará com as mazelas de nossa sociedade, o preconceito, o racismo e o fanatismo religioso residual permanente tanto dentro do indivíduo quanto na sociedade. O grande movimento perpétuo do Kosmo abomina o vácuo.

A idéia de sermos possuídos pelo Demônio causa-nos estranheza. Para àqueles que não receberam uma iniciação trata-se de uma metáfora sobre um estado psicológico adulterado do indivíduo, uma perturbação. A maioria prefere acreditar que tal não sucede, que graças aos avanços da ciência psicológica e fisiológica podemos prevenir tal possibilidade. Entretanto sabemos que em casos de estresse qualquer ser humano pode ter a sensação da possessão, certamente auto induzida, como um motorista  de taxi que resolve levar maus passageiros. Quando todas as nossas energias se concentram num projeto e excluem tudo o mais, mesmo o mais benemérito, parecemos possuídos da mesma forma. Como diz Jung: “Esquecemo-nos de todo que podemos ser tão deploravelmente dominados por uma virtude quanto por um vício. Existe uma virtuosidade frenética e orgíaca tão infame quanto o vício, que nos conduz a mesma dose de injustiça e violência.

Os puritanos no passado, chamavam as cartas de jogar de “o livro de figuras do Diabo”, sendo ele considerado o autor de todos os vícios. Suas duas vitimas subumanas retratadas na lâmina quinze estão absolutamente sobre seu jugo apesar de parecerem não perceber sua presença. Ele contribui para a delinqüência delas, impedindo-lhes seu crescimento espiritual para aproveitar esta energia oriunda de seus prisioneiros, vampirizar suas vítimas através da materialidade exacerbada, da sexualidade gratuita, do aprisionamento destas almas, a mercê de seus caprichos de demo, bloqueando seus caminhos para a consciência total através da distorção dos valores humanos na busca de poder, riqueza e conforto materiais. Nossa aquiescência passiva, ingenuidade cega em relação a esta falsa escala de valores podem ser igualmente diabólicas.

Quando observamos nosso interior, ao sondar nossa alma, buscamos observar estas qualidades monstruosas em nós, e evitamos a tentação de enganar outros para que sirvam nossos objetivos. Mas quando somos ludibriados pelas artimanhas alheias, deixamos as buscas interiores de lado e começamos o apontar de dedos. Protestamos inocência, imaginando ser vitimas sem culpa dos acontecimentos, sem questionar se a ingenuidade inocente é de fato uma virtude. Tão diabólico quanto representar o papel de agressor é nos deixarmos vitimar, por medo da vida, buscando refúgio dentro de casas muradas, vidros à prova de bala, seguranças armados e guaritas sinistras.

Muito pior do que as armas, o ódio, a calúnia, a mentira e a desonra podem causar o mal. Tudo o que pode ferir é instrumento do mal. O sábio só as utiliza obrigado pelas circunstâncias, em defesa dos seus. O vencedor não merece respeito quando na vitória está o sofrimento de milhares de criaturas. Clássico exemplo, o imperador Azhoka, grande guerreiro indiano, horrorizado com a chacina perpetrada pelos seus exércitos numa batalha, se tornou adepto e o maior divulgador do budismo. Nas inscrições existentes nos pilares dos templos construídos na época lê-se que melhor do que a conquista dos outros é a conquista de si mesmo.

Instrumentos do Mal.

As mais belas armas são acima de tudo instrumentos do mal
São odiadas pelos homens e demais criaturas.
Portanto os que seguem o Tao as evitam.
Na vida civil, o homem superior favorece a esquerda.
Mas, nas ocasiões militares ele favorece a direita.
As armas são instrumentos do mal.
Não são instrumentos do homem superior.
Ele só as utiliza quando premido pela necessidade.
Quando o esforço das armas não pode receber auxilio,
a melhor política é manter-se na reserva.

Mesmo na vitória nem sempre há beleza
e aqueles que chamam a isso beleza
são dos que se deliciam com a carnificina.
E quem se delicia com a carnificina
não será bem sucedido em suas ambições de poder.

As coisas de bom presságio favorecem a esquerda.
As coisas de mau agouro favorecem a direita.
O segundo general em comando fica à esquerda do soberano.
O general comandante fica à direita do monarca.
O seu lugar, de mau agouro, serve para prantear os milhares mortos.
As matanças coletivas devem ser pranteadas.
A vitória devia também ser celebrada com cerimônia fúnebres.


Arcano XVI – A CASA DE DEUS.

Segundo a tradição oculta esta lâmina representa queda, catástrofe, ruína. O Arcano, no plano Divino expressa, “o castigo do orgulho”. No plano intelectual, “o desanimo do espírito que tenta penetrar no mistério de Deus”. No plano físico, “as perdas de fortuna”.

O Arcano XVI é representado como uma torre destruída por um raio, dois homens, um coroado, outro plebeu são arrojados do seu interior ou de seu cimo. Simboliza o conflito das forças materiais que podem esmagar tanto reis poderosos quanto peões. É emblema das rivalidades que só conduzem a ambos a ruína comum; dos projetos inutilizados, das esperanças mortas, dos empreendimentos abortados, das ambições fulminadas, das mortes por catástrofe.

Nossa primeira associação com esta lâmina certamente tem algo a ver com a Torre de Babel, zigurate, isto é, um templo em forma de piramide concebido pelo rei Ninrod para alcançar Deus. Seu ato ímpio suscitou a cólera divina, que castigou a humanidade gerando a profusão de linguagens entre os homens. A conexão desta lâmina com o texto biblico é proposital, pois as figuras humanas representadas incorreram na ira dos céus, e estão sendo arrojados da sua segurança para exposição externa. Seu pecado, a profanação da obra, foi que na Mesopotamia os zigurates, eram utilizados para adoração de seus deuses. Tinham a função de conectar o homem com o divino, elevando sua mente, e possibilitar um canal para os deuses descenderem na Terra, assegurando a comunicação entre os dois planos. O simbolismo da torre representa a ligação do espírito e a matéria, uma dramatização do conceito de conexão entre as ordens terrena e celeste.

A antiga idéia sumeriana do mundo é: “o que está em cima está em baixo”. Superior e inferior estão em estreita ligação. Cada nível transcende e inclui seu predecesor. Onde há matéria, a vida emerge, onde há vida, a mente emerge, onde há mente, o Espírito emerge.

Devemos ter idéia, na representação da imagem, como deve ter sido a vida dos dois personagens, até então elevados acima da natureza terrestre, isolados do contato exterior graças as grossas paredes de pedra da torre. A força divina invade este esconderijo, obrigando seus ocupantes a saírem a descoberto para contactar o ambiente fora das muralhas. Não podemos saber se eles foram expulsos de sua própria casa ou libertados de uma masmorra cruel. O sentido da palavra em frances, la Maison de Dieu, seu título, significa hospício, hospital, asilo, reforçando a idéia de abrigo para os necessitados e até mesmo os criminosos. O efeito destruidor do raio fulminante, mágico, chuveiro de bolas multicores invocadas pelo grande Mago como num milagre, expulsa os dois seres que terão que encarar a realidade exterior à torre. A torre não é destruída; ela é apenas derrubada.

O relâmpago e o trovão estão, desde os primórdios da humanidade associados a energia divina, força mística emanada do Deus. Representa poder e luz, na sua forma arcaica, como manifestação instantânea da ira divina. Os heróis clássicos greco-romanos temiam os raios, que emanavam de Zeus ou Jupiter; velhos diagramas hebreus da Cabala Mística, representam a “Árvore da Vida”, figurando o raio como a força divina que une os Sefiroths, as manifestações de Deus. Sentir a potência ou ser atingido por um raio significa simbolicamente ser tocado pela mão de Deus.

Plutarco, filósofo, historiador e naturalista grego, acreditava que o raio foi o originador da vida no planeta. Ele percebia o relâmpago como falo divino, orgão viril celeste, fertilizador dos oceanos com sua energia primitiva. Suas idéias estão confirmadas pelos cientistas hoje, que criaram hipótese semelhante sobre a criação da vida a partir de experiências em laboratórios e acreditam que através do estimulo das descargas atmosféricas nos mares primitivos do passado, foram gerados íons em moléculas mergulhadas no caldo primordial, e formado novas combinações químicas, surgindo então os primeiros seres vivos unicelulares, atuando este fenômeno elétrico de forma criadora.

As torres atraem raios! O baralho de Marselha, no arcano XVI, representa o raio quase de maneira benigna e criativa. Seu atributo é uma forma plumosa que denota suavidade no toque, símbolo da pureza e da verdade, em vez de fazer mau aos ocupantes da torre, chega como anúncio de revelação, assinalando um novo evento marcante. O desequilíbrio psíquico dos personagens da torre é o verdadeiro causador do encarceramento de suas almas. O toque plumoso do raio vem libertá-los desse encarceramento, jogando-os de novo para a vida. As pessoas desse tipo vivem tão cerebralmente que não tem preocupação pelo seu corpo nem compreendem sua linguagem, mas nós da platéia podemos assistir seus saltos mortais, verdadeiro bailado sem sentido. Depois da destruição de seu refúgio, ficarão um tempo chorando as mágoas, lambendo as feridas, questionando suas crenças, acusando Deus pelos seus infortúnios, até atingirem novamente uma nova maturidade. Uma fase psicológica está sendo abruptamente encerrada, cujo símbolo é a Torre Partida, seu número XVI, como o IV, VII, X, e XIII é mágico, pois pode ser reduzido a I, marcando o colapso de uma fase de desenvolvimento e a criação de uma nova etapa.

Estrutura característica do processo civilizatório humano, a torre é alta, robusta, durável e protege seus ocupantes dos elementos. Do ponto de vista militar, serve à defesa, à proteção, à observação, à sinalização e à retirada. Na navegação, a torre é comumente utilizada como farol para advertir da proximidade dos recifes e da costa. Nas igrejas ostenta grandes sinos e antigos minaretes muçulmanos eram utilizados pelos sacerdotes para chamar os fiéis à oração. Torres são utilizadas para transmitir sons e imagens para milhares de receptores espalhados por todo o mundo, numa verdadeira rede global. No passado foram utilizadas como prisões, mas atualmente possuem atributos mais sutis. Em nossas grandes cidades, milhões de seres humanos estão aprisionados em caixas de concreto gigantescas, trabalhando como funcionários de escritórios totalmente fora do habitat natural humano. Saem desses prédios de escritórios para uma garagem e dali voltam para suas casas ou shopping centers, que assemelham-se a grandes e protegidas torres de concreto armado. No fim do dia, como ratos num labirinto, cada qual busca seu cubículo de espera.

Imagine o efeito sobre a fisiologia de um organismo vivo a manutenção desta rotina diária, seus efeitos maléficos como obesidade, depressão, estresse, impotência, entre outros, pois aquele que vive exclusivamente acima do nível da terra perde ligação com ela, com as outras pessoas de diferentes classes e ocupações e certamente com seu próprio instinto animal, ficam “no ar”, longe das esferas humanas. Observam o mundo à sua volta através de estatísticas, com uma visão panorâmica, filtrada, intelectual, virtual e sem sentimentos. 

Somente com a Natureza o homem poderá viver em harmonia consigo mesmo. Ultimamente muitos têm procurado praticar esportes radicais como rapel, surf como formas de manter esta ligação vital com a mãe Natureza. Alguns desses esportes inclusive, substituem com sucesso às vezes, o processo de meditação e introvisão do indivíduo em busca do seu satori ou iluminação. Mas mesmo uma simples caminhada por um jardim florido pode reconectar-nos com a grama verde e o canto sereno dos pássaros.

Usando termos psicológicos muitas pessoas hoje vivem encarceradas em torres ideológicas, erigidas por elas mesmas, pois construímos mentalmente com palavras e idéias nossos paradigmas individuais políticos, filosóficos e teológicos, tijolo por tijolo, nos protegendo contra o caos exterior, erigindo uma estrutura emocional e intelectual que serve de abrigo para uma retirada ocasional e como posição privilegiada mental para estabelecer nossa posição em relação à grande amplitude exterior da própria vida. Entretanto, quando erigimos uma estrutura rígida de qualquer espécie e a coroamos como primordial, tornamo-nos seus cativos, não tendo liberdade de cambiar com o momento, sentir a terra sob os pés, sermos tocados pelo vento e pelas mudanças das estações.

Coisa parecida deve ter acontecido aos dois moradores da torre na ilustração, pois a construção não tem porta alguma. Sua libertação por ato divino pode assumir a dimensão de grave doença física ou espiritual, uma transformação violenta na fortuna ou qualquer evento cataclísmico que arroje seus ocupantes na terra. Como Ninrode, os dois aparentemente imaginavam a torre capaz de alcançar os céus. Agora sabem de suas limitações.  Sua coroa, construída na torre, foi derrubada. Deixou de ser rei, agora está aberta, por cima, sem a cobertura superior, à mercê de iluminação. Os dois mortais são igualmente salvos da destruição psicológica e libertados da prisão de seu orgulhoso egocentrismo. Tinham construído para si uma estrutura coroada de pensamento racional, com a qual esperavam ascender acima do mundano.

Outra imagem que nos vem a cabeça, do ponto de vista esotérico, é a destruição do Templo de Salomão, local erigido pelos hebreus por aquele rei, para culto de seu Deus único que foi destruído pelos muitos invasores de Israel, conforme a Bíblia descreve, pelo distanciamento dos judeus de sua própria fé. Na Cabala,  se considerarmos a construção como simbolizando as emanações divinas da Árvore da Vida, o ponto mais alto da torre como representando o Sefiroth Kheter, seu atributo mais elevado, que em hebreu significa a coroa, a potência suprema, o âmbito do juízo no plano divino, nossa consciência superior, que na figura é abalada pela ação de Deus, sendo o Templo de Salomão a representação de nossa complexidade estrutural físico e mental como organismos sensíveis, animados pela vida e vivendo dentro do Kosmos, conforme o sentido oculto. No mesmo sentido, outras imagens vem a mente: a expulsão do paraíso, a destruição de Sodoma e Gomorra, a torre de marfim. A prisão da falsa consciência.

No entendimento de Jung o raio significa “mudança súbita, inesperada e irresistível da condição psíquica”. A função da carta A Casa de Deus é auxiliar o aumento da percepção sobre áreas de nossa própria vida onde corremos o risco do encarceramento de nossa alma ou psique. Trazer luz sobre atitudes ou idéias que tornamos estruturas imutáveis, como dogmas e paradigmas internos de pensamento. Como sujeitam tais idéias a nossa liberdade? Como pensamos nossas crenças interiores, nossa fé particular na busca de elevar-nos acima das outras pessoas?

Em nossa cultura ocidental infelizmente cultuamos em excesso as benesses da juventude. Algumas pessoas idosas chegam a dizer  “viveram uma boa vida”, conjugando o verbo no passado. Falam como se a vida já tivesse terminado, fato que será verdade se assim sentirem. Com um pouco de iluminação poderiam perceber seu erro, livrando-se da tendência de percorrer as ameias da torre da solidão absoluta, verdadeiro mausoléu onde se encontram emparedados vivos, olhando a vida passada lá embaixo, sua mocidade que acreditam perdida.

O perigo da arrogância no sucesso

Curva-te diante de um presumido,
e verás como terias desejado deter-te a tempo
Quando afiar demasiadamente uma faca
seu gume não durará muito.
Quando o ouro e o jade encherem o teu vestíbulo
sentirás não ter meios de pô-los em segurança.
Quem se orgulha com a celebridade e as honrarias
está semeando os germes de sua própria derrocada.
Retira-te logo que tua tarefa estiver cumprida.
Este é o caminho da eternidade.

O Tao Té Ching com palavras claras lembra-mos que é necessário parar antes de tentar atingir uma perfeição inatingível. O ser é um estado de imperfeição. Quando quisermos amolar nossa faca temos que discernir o momento exato que devemos parar para não estragar sua lâmina. Da mesma forma honrarias, riquezas e poder nada trazem senão o afastamento do Tao. Sábio é aquele que sabe o momento certo de se retirar e busca viver na obscuridade. O que não significa o abandono da atividade mas sim o desapego a qualquer resultado material. Aqueles que se deixam levar por esse brilho ilusório estão definitivamente afastados do Tao, da Suprema Virtude, do caminho do Céu.



Arcano XVII – A ESTRELA.

Conforme a tradição oculta esta lâmina significa influência, ascendência, esperança. Expressa no plano divino, “a imortalidade do espírito”, no mundo intelectual, “a luz interior que ilumina o espírito”, no mundo físico, “a esperança”.

O Arcano XVII possui a imagem de uma estrela flamejante de oito raios na parte superior da lâmina e outras sete estrelas em cortejo, representação dos mundos no plano físico, pairando sobre uma jovem nua que agachada derrama os fluídos da Vida Universal contidos em duas jarras vermelhas, fontes da grande corrente cósmica que jamais se detém, sempre fecundada e renovando-se a partir do principio feminino. As jarras são de um vermelho de sangue, símbolo da natureza física e do sentimento humano. A jarra horizontal suspendida pelo braço esquerdo indica uma contribuição passiva, dada ao homem no seu repouso, a fortuna que recebe por acaso, enquanto a jarra vertical representa a contribuição ativa, quer dizer, aquela que o homem obtém mediante seu trabalho. Esta jovem é o símbolo da Esperança, bálsamo para nossos dias mais tristes. Sua nudez exprime que só nos resta esperança quando estamos despojados de tudo, demonstrando que o espírito da harmonia não se reveste de nenhuma substância, e não atua mais num plano que em outro. A mulher tem só um joelho na terra, significando que a harmonia não fica imóvel em um ponto, mas que está sempre pronta para dar um passo adiante.

Em segundo plano, abaixo das estrelas, plantados sobre o solo, figuram dois arbustos, imagem da renovação; sobre um deles está pousado um pássaro preto, criatura viva, símbolo da vida individual, ligação entre a Terra e o Céu que se tornou viva realidade, indicador pelo seu canto das horas do dia e pelo seu vôo, das mudanças das estações. Conforme Marguerite Yourcenar em sua memorável obra prima “Memórias de Adriano”, através de uma introvisão de seu personagem, o Imperador romano – “Quando todos os cálculos complicados se evidenciam  falsos, quando os próprios filósofos não tem nada mais a nos dizer, é desculpável que nos voltemos ao gorjeio fortuito dos pássaros, ou para o longínquo contrapeso dos astros”.

No Arcano, a Estrela, pela primeira vez encontramos uma figura humana nua, despojada de qualquer identificação, roubada de suas pretensões, seu eu essencial exposto aos elementos. Sem máscaras ou vestimentas elaboradas, ela revela sua natureza básica. Um dos jatos de água que brotam dos jarros vermelhos flui de volta para o rio e o outro cai na terra. A água viva do inconsciente coletivo toca a terra da realidade humana individual. A água que cai na terra nutre as sementes adormecidas, enquanto a do outro jarro, arejada e revificada, flui como manancial ao rio comum da vida para renová-lo e enche-lo perpetuamente. Seu gesto ritual garante que os fluídos despejados interajam criativamente. Sua nudez permite contato com a natureza imediato e direto, trazendo nosso herói à realidade e ligando-o às águas primordiais e à terra básica onde moldamos nossa existência.

O personagem ajoelhado pode estar dividindo e separando introvisões recentemente abertas a sua consciência total. Separando o pessoal do transpessoal. Nesta nova dimensão do entendimento as vicissitudes da vida serão vistas sob o aspecto da eternidade. Os aspectos da psique, anteriormente emparedados são agora liberados para fertilizar o solo da realidade individual. A esta sacerdotisa da natureza cumpre a tarefa de traduzir a dança cósmica dos astros no alto, perceber seu padrão em relação aos eventos da existência terrestre. Intuímos que pretende harmonizar o ritmo com que despeja a água com o movimento celeste inexorável.

As sete estrelas coloridas giram em cortejo da estrela dupla central, onde se destacam oito pontas. Entre os sete astros menores não há duas iguais, nem em formato ou cor. Parecem ter personalidade única. Foram rabiscadas de forma rigorosa, à mão livre, sugerindo o cintilar das estrelas quando de noite estão no firmamento. Suas diversas cores sugerem um movimento rotatório em torno da estrela dupla maior. A estrela central é ilustrada com exatidão geométrica, duas estrelas superpostas, uma amarela de oito pontas sobre uma estrela vermelha, parecendo ambas emitir centelhas alternadas de luz. Linhas ligam as oito pontas da estrela amarela a seu centro, para onde convergem como os raios de uma roda. O ponto no centro, ou eixo subentende que a estrela está fixa no céu, mas suas cores alternadas nas dezesseis pontas indicam que ela gira sobre seu eixo. Essencialmente, esta constelação estelar bizarra representa uma roda solar ou mandala. Signo divino entre os egípcios, símbolo solar da Babilônia, a estrela de oito raios, encerra o círculo solar, a cruz dos solstícios e equinócios e os pontos cardeais. É  a roda de Cibele/ Deméter coroada, a roda indiana, o octópode da América pré-colombiana. Era emblema nos escudos dos cavaleiros do templo. 

Um pólo estabilizador, uma imagem da totalidade semelhante surge em sonhos ou visões quando somos envolvidos pelo caos e confusão que se seguem a acontecimentos catastróficos em nossa existência. Neste caso é um símbolo da transformação psíquica. A imagem subitamente surgida da grande estrela no firmamento intui que uma nova visão da totalidade emergiu das profundezas do inconsciente e logo estará ao nosso alcance, em nossa consciência total. Seu centro une o amarelo da energia espiritual, da intuição e da luz, ao vermelho do corpo físico, da carne, da emoção. Ao seu redor, em torno do ponto focal, os astros menores orbitam, como diversos fragmentos da nossa personalidade. Sai-se assim do mundo da dualidade e da fixidez para entrar no do movimento e da evolução. 

Os antigos alquimistas em seus textos herméticos descreviam e retratavam modelos similares, em suas alegorias incluíam uma estrela gigante fixa, que denominavam selo de Salomão para simbolizar o emblema da sabedoria, dentro do processo de iluminação que denominavam a Grande Obra. Acreditavam que a transmutação interior do chumbo em ouro filosófico só seria atingida através da perseverança e do trabalho do homem, graças à qual o microcosmo humano está relacionado com o macrocosmo universal, em oposição a idéia cristã de salvação da alma pela graça de Deus. Através de uma visão anímica da natureza acreditavam que toda a obra da criação estava impregnada pelo espírito divino, e a principal tarefa espiritual do homem era libertar o espírito aprisionado na matéria. Assim somente empenhado na Grande Obra poderia libertar-se o espírito humano. Entendiam que a “coniunctio”, isto é, a conjunção ou união com a deidade nunca ocorreria externamente, mas exclusivamente no interior do indivíduo, como fruto de seu trabalho dedicado.

Sustenta Jung, de forma semelhante aos alquimistas, na sua concepção sobre individuação, que a salvação do homem, e por conseguinte da humanidade, passa pelas profundezas de sua psique. Cada um necessita obrar por conta própria, à sua maneira, para garimpar esta essência áurea, libertá-la do curso do veio aquoso e emocional onde jaz sepulta em nossa natureza psicofísica. Observada por este ângulo, A Estrela significa um marco em direção a individuação, uma participação mais consciente e ativa do indivíduo em busca deste objetivo. A figura humana central é representada humildemente ajoelhada, num cenário calmo e natural onde há lugar para a contemplação e espaço para crescer silenciosamente.

No fundo da ilustração as duas árvores expressam o transpessoal e o individual. Na língua céltica, árvore significa conhecimento/ sabedoria. Plantadas na terra, servem também como ligação ao céu, representam um diagrama vital das conexões interdependentes de toda a natureza, isto é, do Kosmos, termo criado pelos pitagoristas, cujo sentido original é o processo padronizado de todos os domínios da existência, da matéria à mente, a Deus. As árvores absorvem dentro de sí os quatro elementos, sintetizando-os num verdadeiro processo alquímico, transformando-os de matéria bruta e energia em vida, simbolizando desta forma o eu transpessoal universal. Cada uma possui características e semelhanças vitais, mas também diferem seus corpos e ramagens entre cada indivíduo. Talvez representem impulsos enraizados na nossa psique, como as duas árvores do Genesis: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, impelindo-nos para a ação, uma para viver e outra para aprender a vida. Voltando ao sentido do Arcano, mesmo distantes uma da outra, ambas estão enraizadas na Mãe Terra, e a ave negra voa de uma para outra, ligando as duas formas vivas.

Esta carta dirige nossas atenções para o céu, lembrando que o que está acima, está abaixo, nossa conexão arquetípica com os corpos celestes. Estrelas simbolizam energias condutoras. Na navegação serviam para orientar o rumo dos pilotos por mares não mapeados. Astrólogos desde a mais remota antigüidade estudam os movimentos celestes para predizer o futuro e harmonizar a vida humana com as revoluções planetárias. A estrela anunciadora da cristandade é Sirius, da constelação do Cão, guia dos viajantes, simbolizada pelo deus Hermes com cabeça de cão ( ancestral de São Cristovão que conservou seus atributos: o cão, a palma e a vestimenta militar ). No antigo Egito, na cerimonia que acompanha a inundação do Nilo no equinócio da primavera: os sacerdotes observavam seu erguer e podiam predizer a altura futura das águas do rio, do qual dependia a fertilidade do ano que iniciava realmente com o aparecer desta estrela. A estrela de Ísis simbolizava no antigo Egito a enchente anual do Nilo. Ísis era a fonte da água da vida para todas as almas em sua jornada rumo às estrelas. No Oriente a mãe do Buda, cinco séculos antes de Cristo percebeu seu nascimento, com o surgir desta estrela. Da mesma forma aparece na bíblia como a estrela de Belém, que serviu de guia aos reis Magos até Jesus nascido. Na prática, como simbolicamente, o mapa estrelado no céu serve de guia em nosso caminho interior. Vibrantes de energia, de maneira consciente ou não para nós, os corpos celestes com sua emanações influem em nossa vida psíquica.  

Diferente do Sol, a luz das estrelas não cegam nem destroem os homens. Cada uma oferece uma iluminação limitada e controlada, como uma introvisão espiritual, esquartejada em pequenos fragmentos mais apropriados à capacidade de absorção humana. Os movimentos regulares, mutáveis, e predestinados, derramam sua luz em tempo real; mas a luz que hoje chega na Terra fez uma viagem espacial de milhares de anos distante de nós no passado. Esta ligação entre o tempo real e o relativo resulta no tempo transcendental, no limite de uma nova compreensão holística sobre o espaço que vivemos, observando a criação e sua amplitude.

As estrelas estão associadas a imortalidade. Conta antiga lenda que, ao morrer, a alma é alçada ao céu, onde reluz eternamente como estrela. Deuses e heróis do passado foram imortalizados através das constelações e planetas que receberam seus nomes. Outra crença popular entre os hebreus consistia que no nascimento cada ser humano recebia uma estrela guia que velava pela vida e pelos negócios do protegido, um anjo guardião protegendo-o de todo o mal. Em função desta crença, ainda hoje fazemos desejos para a estrela vesper, ou para alguma estrela cadente num limpo e escuro céu de verão. Entre os chineses, cada homem possuí uma estrela no céu, à qual ele deve fazer uma oferenda no ano novo.

Desde que percebeu que os movimentos estelares e as mudanças da lua poderiam influir diretamente nas lavouras, pelas mudança das estações durante sua marcha regular pelo firmamento, propiciando sucesso ou fracasso nas colheitas conforme seus movimentos, sujeitando a fome ou fartura de seu povo, o homem adotou a idéia que as estrelas e planetas estavam estreitamente ligados ao destino humano. A astrologia tem raízes pré históricas, surgiu do deslumbramento do homem primitivo ante a imensidão do cosmo. Ele animou-se ao perceber que podia prever seus movimentos, intuiu que seu destino poderia ser ligado a alguma ordem superior, divina. Deixara de ficar a mercê dos seus deuses, pois por meio desta empatia com os astros deixara de ser um brinquedo da sorte. Seu sentimento de predestinação surgiu.

As estrelas do Tarô de Marselha não estão pintadas num céu noturno, mas gravadas sobre um fundo branco, significando que tais fenômenos ocorreram simbolicamente, dentro da psique. A mulher não ergue os olhos para o céu. Percebe os reflexos na água, buscando a reflexão, ela se dá conta dos astros como forças interiores que influenciam suas ações.

O princípio feminino, Yin, a obscuridade, desde a eternidade vaga pelo universo, harmonizando seu ritmo com os movimentos das estrelas, gerando corpos celestes, criando novos planetas em seu ventre infinito. Ainda vive esta Mulher Estrela dentro de cada um de nós, profundamente enterrada em nosso inconsciente. Ela se move além do tempo, apenas sujeita ao ritmo do Kosmos. Como arquétipo, é parte fundamental da psique, apesar de às vezes ser negligenciada pelas pessoas que perdem contato com ela, em detrimento de um ego superativo. Quando desmascaramos nosso ego, como sucede no Arcano A Estrela, podemos depararmos novamente com ela derramando seus fluídos eternos. Na psique masculina, a figura feminina representa sua anima, ou porção feminina inconsciente. Na feminina, sendo do mesmo sexo, simboliza um aspecto obscuro de sua personalidade que acabou de emergir. De qualquer forma, a jovem ajoelhada simboliza um aspecto até então inacessível da psique, liberto de suas amarras interiores, princesa libertada da torre do cruel rei Logos, o Imperador de nossa sociedade até então orientada para o princípio masculino.

Como a Mulher Estrela do Tarô aqui representada, demonstra como podemos empregar nossas energias recuperadas de forma mais criativa. Emoções que antes provocavam explosões de violência descontroladas, rancores contra o destino, são agora transmutadas, transcendidas, como emulsão curativa e nutriente. Uma parte desta energia flui de volta para o rio. Representa nossas obscuridades incoscientes que nunca poderão ser inteiramente compreendidas ou absorvidas pelo consciente. A outra parte umedece o solo fértil da realidade cotidiana. Serve este ente a dois mundos, simultaneamente, através de suas atividades e da energia de seu espírito, assimilando as polaridades opostas.

No início deste novo século, levando em conta a psique feminina da típica mulher , longe do contato direto com a Natureza, e de seu centro religioso, o aparecimento da Sacerdotisa da Natureza certamente pressagia um “religare” com o eu transcendental, expressão da raiz latina da palavra religião. A Sacerdotisa está ajoelhada, constrita, em posição respeitosa, talvez orando. A posição de seus membros na carta sugere a suástica, primitiva cruz indoeuropéia, ou mesmo um Ta’i Chi como querem os taoístas, chamada pelos iniciados o  “martelo da criação”, pois simbolizava o movimento contínuo do Kosmos.

A Estrela ilustra um mundo de harmonia, ordenado, onde os quatro elementos da Criação; a terra, a água, o fogo, e o ar,  aparecem pela primeira vez. Em seu ritual, a mulher obra com a água, que flui generosa sobre a terra, ao fundo, no céu, cheio da substância etéria, as estrelas, emanando sua energia ígnea, imagens que vão invocando estes elementos da Criação, vão tocando nossas impressões interiores, modificando nossa capacidade de pensar nosso mundo ao redor. É através do contato com estes elementos na natureza exterior que experimentamos a nossa natureza primordial e elementar. Alguns analistas consideram o ar e a água, representando o pensamento e o sentimento; enquanto o fogo e a terra significam a intuição e a sensação.

Como Aquário, o Portador de Água, a mulher com suas jarras, despeja os fluídos ligados ao inconsciente e à natureza. Assinala nova fase na evolução contínua do herói, semelhante à Era de Aquário, que agora estamos ingressando. Nesta fase de sua jornada nosso herói, como grande parte das pessoas hoje, ficará mais afastado da fascinação pela natureza exterior e buscará empreender a exploração de sua natureza interior com maior afinco. Da ilusão do ego para as relações, combinando e unificando toda a experiência, exterior e interior, para criar um novo ser. A imagem do ego sequer possui alguma correspondência nas imagens gravadas no Arcano XVII, propositadamente para que se dê conta da imensidão do Kosmo que se expande infinitamente, para imobilizar seus movimentos irrequietos, e permitir o voar das intuições. A partir daí nosso ego se enche com um novo sentido de destino e sente sua sorte individual como parcela de um esquema universal. Suas antigas ambições centradas no ego perderam-se enquanto contempla a eternidade das estrelas e o fluir constante do curso dos rios, fazendo sua vida girar sobre um novo centro. Assim a mulher ao verter das duas jarras semelhantes seu fluido, sua tarefa é de separação, e redistribuição. Parte do líquido, sem função para o ego é devolvida ao rio coletivo da espécie humana, outra parte se derrama sobre a terra seca da realidade cotidiana. Conforme a terra molha, torna-se maleável como argila. Com barro é formada nova substância, menos intelectual, à prova de raios, baseada na realidade natural. A personagem move-se em graciosa coreografia, como estivesse em transe, absorvida como uma criança brincando após a chuva, com água e lama, criando uma nova realidade.

O ritmo da Mulher Estrela é calmo, pensativo e feminino. Percebemos sua serenidade saudável e a tranqüila natureza silenciosa ao redor. Certamente pretende evocar que o silêncio é o espaço interior que necessitamos para crescer, cuja essência é a visão interna. Nossos sonhos também necessitam ser regados, cultivados e plantados na realidade externa. Toda vez que usamos o inconsciente através de nossa imaginação criadora ou meditação, “regamos” nossos sonhos com o fluído vital eterno. Nutridos desta forma, ligamos estes sonhos à consciência, assim liberando potenciais ocultos para que tenham utilidade em nossa vida diária. Estabelecendo uma conexão entre as fantasias inconscientes e as intenções conscientes, liberando conforme os alquimistas o espírito da matéria, libertando as intuições e introvisões da escuridão profunda de nosso inconsciente, de modo que possam vingar na realidade. Tornando assim reais sonhos que antes nosso excessivo racionalismo bloqueavam, transformando não só a nós mesmos, mas também nossa realidade ao redor. Desta forma mudamos a qualidade de nossa vida pessoal e a essência do inconsciente coletivo através do cambio dos paradigmas criados pelo racionalismo excessivo. No lugar sagrado da ilustração onde terra e água se encontram, tanto o individual quanto o universal são atingidos e transmutados.

No processo da vertedura, as águas se arejam e purificam. Os quatro elementos entram em comunhão. De um modo novo, os quatro elementos funções da psique são revitalizados e renovados através do emocional. Conforme Jung: “a água ocupa uma posição mediana entre o volátil (ar,fogo) e o sólido (terra), visto que ocorre tanto em forma líquida quanto em forma gasosa, e também como sólido, em forma de gelo”. Quando a emoção nos inunda, quando choramos, isto é, derramamos lágrimas, os aspectos superficiais da vida perdem sentido, derretem-se os aspectos rígidos da personalidade, permitindo-nos maior receptividade e flexibilidade. A represa entre o consciente e o incosciente rompe e nada a consciência nesse caudal de novas imagens, potenciais e idéias, que ora iluminam, ora aterrorizam, mas trazem em seu bojo nova energia e poder.

A Mulher Estrela derrama seus fluídos com carinhoso zelo, porém sua natureza é inconsciente, não tardará que retorne novamente ao fundo das águas, que é seu elemento. Nosso herói deve aproveitar da melhor maneira que puder tais energias, pois logo estará novamente só, enfrentando novos monstros surgidos de sua realidade existencial, ocupado no constante processo natural de destruição e renovação que  chamamos Vida.

O pássaro ao fundo, imóvel sobre o galho do arbusto, representa a ligação com Deus; aves encantadas são mensageiras dos deuses como ilustram vários mitos humanos, em diferentes regiões do planeta, dos povos da Europa e Ásia até tribos indígenas americanas onde eram adorados como signos xamânicos. Como o corvo de Elias, a ave traz alimento e sustento para o sofredor. Como a pomba de Noé, traz a esperança de paz de uma terra prometida. Como íbis, representação de Thot, o Hermes Trimegisto, deus da sabedoria. Como Hugin e Munin, os dois corvos que sentavam sobre as costas de Odin, o deus nórdico, voam durante todo o dia  sobre o mundo e, quando voltam, contam ao deus tudo que ouviram e viram. Como a ave Garuda que transportava Vishnu e Lakhmi em seu dorso.  De maneira semelhante valem os corvos de Bran, de Crono/ Saturno, de Asclépio e os grous de Apolo, significando em ultima análise na união entre o céu e a Terra. Desde tempos primitivos acreditavam que as aves migratórias, que voam em grandes alturas, durante sua ausência ficavam junto ao “Grande Espírito”, e ao voltar determinavam o destino dos homens de acordo com o tipo do seu vôo.

O pássaro do Arcano não deixará seu sítio, pois é parte, criatura do jardim, sustentado por suas águas e alimentado pelos seus frutos. Por mais alto que alce seu vôo em direção a luz, voltará ao seu humilde ninho lá. Diferente de uma aeronave, cheia de computadores e sistemas de controle para dirigir seu vôo, a ave utiliza somente seus dons naturais do instinto para navegar nas ondas aéreas. Como disse certa vez meu sobrinho, um jovem surfista, demonstrando agudeza de espírito – Para pegar uma onda não devemos pensar quando pegá-la, devemos simplesmente pegá-la. Devemos saber usar nossos instintos e capacidade de concentração no vazio, isto é, manter nossa mente tranqüila, sem pensamentos conflitantes. Por segundos o contato direto do ser com o Kosmos, sem intermediários, deixando de lado os racionalismos comuns do elemento terra. Ondas criadas milhas de distância, pelos ventos das tempestades marítimas servem como integradores do ser com o meio, levando-o a comunhão total com o Kosmo. Esportes radicais que desenvolvam nossos instintos naturais e a concentração podem ser um caminho para a iluminação, desde que sejam observados exercícios respiratórios adequados para cada prática. Enfrentar outros elementos como a água ou o ar podem dar outra perspectiva de vida ao praticante do esporte. Até mesmo uma boa caminhada pela manhã, escutando o som dos pássaros, aspirando o bom ar matinal, pode ser uma prática contemplativa e auxiliar nosso desenvolvimento espiritual ou servir na ampliação de nossa consciência cósmica. 

A Mulher Estrela não consulta livros; manipula simplesmente com a matéria prima que lhe oferece a natureza. “A imaginação é a estrela do homem, o corpo celeste, ou superceleste”, dizem os alquimistas. Jung acreditava que nossa imaginação deveria ser a estrela guia no trabalho com o inconsciente. Nunca estabeleceu normas para meditação criativa, nem sugeriu imagens ou métodos para dirigir nossos pensamentos. Percebia que o ritmo de cada psique individual é único e que devemos trabalhar com imagens, buscando o ritmo que melhor combina com nossa natureza.

O Arcano enfatiza a natureza autônoma da psique. A corrente flui inexorável, sem controle, respeitando unicamente a lei da gravidade. A personagem é impotente para conter a corrente. Ela não faz esforço algum para controlar seu fluxo, aceita as águas como vem. Utiliza apenas o líquido que pode ser contido nas duas jarras, mas através de sua ação ela efetua uma pequena mudança na qualidade da corrente. Como demonstra a Mulher Estrela, seu processo meditativo não é passivo, mesmo não tentando controlar a direção e o fluxo da corrente, não fica hipnotizada escutando o ruído do regato. Ela interage de maneira criativa com os elementos, misturando e moldando a argila de suas margens.

Jung observa que nunca devemos aceitar de forma passiva  que nossos personagens inconscientes possam tentar-nos influenciar, como se fossem vozes vindas do alto. Estes personagens interiores, como nós os humanos, são bipolares, isto é, possuem aspectos negativos e positivos. Algumas vezes oferecem bons conselhos, outras dizem bobagens, e muitas vezes são capazes de fazer sugestões diabólicas. Precisamos encarar estes personagens interiores de forma ativa e direta, elaborando questões ou colocando objeções, como fazemos com outra pessoa que queira dar sugestões ou conselhos sobre nossa vida. Através de um diálogo interior vivo, onde o consciente e os personagens interiores encontrem expressão, podemos resolver nossos conflitos e problemas de um jeito mais humano. Tendo escolhido o Caminho do Meio, devemos ser coerentes com nossa resolução e utilizar as práticas meditativas para encontrar um modo criativo de melhor viver a vida, em vez de utilizá-la como fuga ou lavagem cerebral.

Alcançando a harmonia interior, resolvemos problemas exteriores. Nossa imaginação ativa pode efetuar alterações milagrosas na corrente principal do inconsciente. O inconsciente coletivo, de forma análoga é semelhante a um grande oceano, cheio de ondas arquetípicas, limpando, auxiliando clarear a escuridão das águas com seus movimentos constantes, como energias do Kosmo, prontas a serem cavalgadas pela nossa mente. Seus seres que nela habitam nas profundezas podem ser identificados, áreas cada vez maiores do oceano podem ser exploradas e identificadas.  A imaginação ativa é uma das maneiras de conduzir uma exploração desta natureza. Como na prática do surfe, onde o surfista solitário procura sua onda, devemos aproveitar a solidão, pois é através do indivíduo que novas idéias são criadas. Nossa Mulher Estrela, figura solitária e meditativa, deixa claro que esta prática deve de preferencia ser realizada na solidão. Pois somente através do indivíduo e suas idéias que novas realidades podem surgir. É uma cerimonia particular, sem precedentes, cujo mistério só pode ser interpretado e respondido no interior dos recônditos secretos de nossa mente. Conforme Jung: “À medida que cresceu a importância da vida interior, decresceu de valor o significado dos mistérios públicos da antiguidade. A posse de um mistério confere estatura, transmite unicidade e assegura que não submergiremos na massa... O mistério é essencial à experiência da pessoa como personalidade única, distinta das outras, e ao crescimento através do conflito repetido”.

O mistério que figura no Arcano A Estrela não pode ser partilhado em grupo, nem mesmo com nosso intelecto crítico racional. Agora a estrela pessoal brilha para nosso herói e conforme um ditado cabalístico, “Quando tiveres encontrado o principio do Caminho, a estrela da tua alma mostrará a sua luz”.

No Arcano, A Estrela, todos os véus foram tirados junto com suas pretensões humanas da figura nua, que revela uma mulher solitária exposta aos elementos sem pudor ou orgulho. Conhecedora da sua predestinação astral contudo não é um agente passivo, pois interage com o meio provocando transformações. Seu reino é da terra e da água, signo do princípio feminino de Eros, a energia primal da vida. As estrelas enquanto isso iluminam com luz suave e passiva, evocando energia que acalma e cura. O herói começa a aceitar-se e a aceitar as mudanças ocorridas em sua vida, seu despojamento material, ou perda emocional serviram para tirá-lo de sua prisão interior para uma nova vida. Sua aceitação é necessária a mudança, e de fato é motivação única para toda a transformação interior. Enquanto observamos a vertedura cíclica dos fluídos executada com graça pela Mulher Estrela, começamos a perceber que o Caminho  é um sistema contínuo e circular. Aceitamos nossa situação como parte do plano divino, uma nova necessidade surgiu, um novo desafio deve ser aceito na vida. Nas profundezas de seu interior brilha um sentido do significado da vida que serve para aliviar seus sofrimentos e torná-los suportáveis. A ferida continua ainda aberta mas começamos a aprender que através do entendimento desta angustia, poderemos seguir em frente na direção do nosso autoconhecimento, pois só através da destruição de nosso ego menor das altas racionalizações e defesas poderemos seguir para frente no Caminho do eu. Jung comenta: “Você não se vê mais como ponto isolado na periferia, mas como o Um no centro. Só a consciência subjetiva se isola; quando se relaciona no centro, integra-se na totalidade e encontra no meio do sofrimento, um lugar tranqüilo, além de todos os envolvimentos”.

XXXIV – O GRANDE TAO FLUI POR TODA A PARTE.

O grande Tao flui por toda a parte
como uma torrente, sua potência irradia-se em todas as direções.
Os dez mil seres dependem dele para nascer e viver.
Ele não os renega.
Quando sua obra está cumprida,
ele não se apropria da mesma, nem apregoa que foi seu autor.
Cobre tudo com um manto e não faz valer sua posição de senhor.
Poderá, entretanto, nas ínfimas coisas ser encontrado.
Sendo o objetivo de todas as coisas e mesmo assim não proclamando isto.
Assim todos os seres retornam a sua raiz e desaparecem sem saber quem
preside seus destinos.
Ele pode ser encontrado nas grande coisas, sendo  assim considerado.
Eis por que o sábio pode realizar grandes conquistas: é não se fazendo grande
que consegue realizá-las, pois sua grandeza é um fato consumado.

Vivemos pensando em fazer grandes coisas. Almejamos posições que todos respeitem ou invejem. Fazer viagens exóticas, aparecer nas colunas sociais. São poucos os que não alimentam sonhos de grandeza, e quando não o realizam vivem num mundo de faz de conta, onde pretendem estar em posição excepcional em relação aos demais. O segredo do Tao está na obscuridade, na simplicidade, no desapego, que levam ao Caminho Perfeito que quase sempre se acha ao nosso lado, embora a maioria das pessoas não percebam. Pode estar dentro do nosso lar e com certeza dentro de nós mesmos. Como na parábola do filho pródigo, que retorna ao lar paterno completamente despojado da fortuna após buscar a felicidade em outros lugares distantes para afinal encontrá-la no seu torrão natal.


 
Arcano XVIII – A Lua.

Conforme a tradição oculta, esta carta simboliza trevas, medos, sortilégios, enfeitiçamentos noturnos. O Arcano exprime no mundo divino, os abismos do infinito. No mundo intelectual , as trevas que envolvem o Espírito quando se submete ao domínio dos instintos. No mundo físico, as decepções e os inimigos ocultos.

É representado por um campo que a lua ilumina com seus raios. Duas torres aparecem de cada lado do caminho que perde-se no horizonte. Diante das torres um cão e um lobo ladram e uivam à lua. Entre estes dois animais, na água, rasteja um lagostim. Conforme o sentido esotérico as torres simbolizam a falsa segurança insensível aos perigos ocultos, mais temíveis que os perigos conhecidos. Como as torres douradas da Cidade Eterna, a Jerusalém celestial são o símbolo da força e da capacidade transitória de um sonho que logra parecer um monumento estável, mas na verdade é ilusão. Representam a persistência no erro, o refúgio que alguém criou para encerrar-se em sua ilusão. Os dois caninos, atributos de Diana/ Ártemis, caçadora lunar e Hécate, deusa das trevas, simbolizam os instintos primitivos, origem dos tormentos da alma, que assediam ao homem e que lutam entre sí. “Os espíritos servis, figurados pelo cão, escondem suas traições sob vis adulações, os espíritos hostis, figurados pelo lobo, preparam a emboscada, enquanto os espíritos preguiçosos, figurados pelo lagostim rastejante, passarão sem se comoverem com tua ruína”. A lua goteja gotas de orvalho viradas sobre um solo amarelo e seco, e um lago onde reside o lagostim. Simboliza o principio feminino, passivo e negativo. A figura da lua como perfil visto para a esquerda, indica uma tendência para a imaginação confusa, a inatividade, a parada, obstáculos nos acontecimentos da vida. 

A nossa frente o lagostim parece barrar nosso caminho. A paisagem é desolada, sobrenatural e aterradora. Como guardiães, do outro lado desta água, que parece um fosso, mais que um lago, dois cães sobrenaturais guardam o acesso às duas torres de ouro que delimitam a entrada da Cidade Eterna, aparente destino final de nosso herói. O intelecto do seu ego, ainda submerso, mergulhou mais fundo na depressão. Do ponto de vista psicológico perdeu o contato com todos os aspectos do seu eu humano. Afundado ao nível instintual, está submerso no inconsciente aquoso como o primitivo animal cativo do fosso. Este momento é o mais solitário e desolado de seu Caminho.

Ao longe duas plantinhas cor de ouro são representadas, e devem ser interpretadas pela sua cor sugerindo a flor de ouro da imortalidade. Quer existam de fato, ou sejam apenas uma miragem, é certo que agora estão inacessíveis. Nosso herói não poderá atingi-las enquanto não cruzar o fosso e passar entre as duas feras ululantes. O território do outro lado é uma estranha terra, um país estrangeiro, até então desconhecido. A transposição desta fronteira, cheia de terrores e promessas requer coragem do viajante. Sua transição será realizada despido dos antigos atributos, na sua nudez natural, e só. Deixará seu mundo familiar, aventurando-se sem garantias de alcançar seus objetivos finais. Ele não pode voltar atrás, acha-se entre mundos, numa terra de ninguém, sem nenhum artefato que lhe facilite a travessia. Sente-se como proscrito da espécie humana, como besta, somente confiando em seus instintos para alcançar seu destino.                                                                 

O céu entretanto não parece favorável, apesar da lua que trás seu brilho. As gotas de orvalho multicores que aparecem, diferentes do maná enviado dos céus por Deus, parecem subir em sua direção. Como se a deusa da lua, qual mãe devoradora, Medusa, Hidra, Kali, absorvesse toda energia criativa da terra. Este é tempo de terror e reverência. O forte toque regressivo da Mãe Natureza é representado pelo lagostim, morador das profundezas que locomove-se de ré, pelos caninos rapaces e pela própria Lua, que através do medo e do encanto sugam as energias do herói, impedindo sua ação. Sua imagem milenar de deusa, encanta e enfeitiça com seu poder os homens. Como Luna, pode levar o homem à loucura. Como Circe, sua magia pode transformar homens em porcos. Como Medusa, seu olhar hipnótico paralisava a presa.

Adorada como Ártemis na antiga grécia, antiga divindade agreste associada a Lua crescente, é a deusa da caça e das florestas, segundo a tradição corrente, filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo, o deus solar. Nasceu um dia antes do irmão, tendo depois ajudado a mãe nos trabalhos de parto. Ficou tão horrorizada com as dores do parto que sofreu a mãe, errante e enxotada de todos os lugares, sem ter onde repousar para dar a luz aos filhos de Zeus, que pediu ao pai o privilégio de se conservar virgem. É representada de vestes curtas, pregueadas, com os joelhos descobertos. Está sempre armada de arco e carcaz cheio de flechas. Serve-se das armas não só contra os animais, como também contra os humanos. Atribuem-lhe as mortes súbitas, sem dores, e as mortes por parto, como também vinganças terríveis. Agamenon caiu em desfavor da deusa, resultando ser obrigado a imolar-lhe a filha virgem, Efigênia. Ela era venerada em todas as regiões selvagens e montanhosas da Grécia, não só na Arcádia, mas em Esparta, na Lacônia, nas montanhas do Taígeto, na Élida. O mais célebre de seus santuários era em Éfeso, onde o culto se contaminava com o de uma antiga deusa lunar asiática, responsável pela fecundidade. Associada desde a origem a Apolo, o deus Sol, os antigos a interpretavam em oposição como uma personificação da lua que erra além das montanhas. Consagravam-lhe o loureiro. As vezes aparecia nas moedas com um archote acesso na mão, e coroada de estrelas, os estatuários destacavam-lhe os aspectos agrestes, jovem, esbelta, de beleza severa, ancas estreitas, cabelos presos; com o chíton dório curto, amarrado à cintura, calçava sandálias e era acompanhada de cães ou de corças selvagens. Dedicava-se aos prazeres da caça, na região arcádica, em companhia de sessenta Oceânides e vinte Ninfas. Consideravam-na protetora das Amazonas, também guerreiras e caçadoras, mulheres independentes do jugo masculino. Ártemis é representada sob um aspecto rude e bárbaro. Fazem-na sombria e vingativa. Basta a mais simples ofensa, um desafio, alguém que tolamente se vangloria ou mata um animal que lhe é consagrado, e é manifestada sua inominável crueldade divina. Entre os animais consagrados a Ártemis contam-se a corça, o cervo, o cão, o galo, a cordoniz, o urso, o javali, e o lobo. Entre as plantas são suas preferidas o loureiro, o mirto, o cipreste, o cedro e a oliveira. É considerada prima de Hécate, a negra feiticeira das encruzilhadas, relacionada a Lua minguante, cujos terríveis cães podem dilacerar o herói.

Um confronto desta magnitude pode significar morte espiritual ou renascimento do herói. O cão como guarda das portas infernais é mencionado nos vedas, segundo o mito o Reino Infernal de Yama era guardado por dois mastins. Na Grécia acreditavam que a entrada das regiões do Hades era guardada por Cérbero, o cão tricéfalo. Nos mitos os cães, como guardiões do inferno e portanto protetores dos mistérios, não devem ser mortos pelo herói, mas precisam ser enganados com ardis. Cumpre-lhe chegar um acordo com seu lado instintual para poder prosseguir o Caminho. Orfeu adormeceu Cérbero tangendo a lira. A Sibila que conduziu Enéias através do inferno fez dormir o cão com um bolo temperado com papoulas e mel. Héracles/Hércules por sua vez recebeu de Eristeu a incumbência de trazer Cérbero até ele. Acompanhado de Hermes, ele desceu até o reino dos mortos. Atravessou abismos, rios de fogo e de lama. Expôs a Hades, deus dos reinos infernais, sua pretensão.  O rei dos Infernos somente concordou com a saída do terrível cão de três cabeças, se o herói o enfrentasse com mãos limpas.  Hércules agarrou o ser monstruoso pelo pescoço e apertou com tanta força, e sacudiu-o de um lado para outro com tanta violência que o cão o seguiu até o mundo superior. Mas quando Eristeu viu o nefando monstro quase desmaiou de medo, e deu ordem para que o herói devolvesse o monstro imediatamente ao inferno. Do ponto de vista psicológico, esse mito parece dizer, ignorada ou suprimida a natureza animal do herói representada pelos dois cães da carta, podem tais forças virar-se contra ele e estraçalhar sua percepção crescente. Ele contudo necessita da energia e da ajuda deles para chegar a Cidade Eterna, cujos portões guardam. Se souber decifrar seus chamados e adestrá-los, poderá usá-los como guias, enxergando com seus olhos e utilizando seus instintos animais naturalmente adaptados a escuridão noturna.

À medida que nosso herói percebe as nuances deste encantamento lunar, a paisagem desolada e o ulular dos cães já não amedrontam. Ele sente uma afinidade animal com os dois cães, presos, atados por linhas invisíveis como ele no feitiço da deusa lunar. Ocorre-lhe escutando seus uivos, que assim como necessita de sua orientação instintiva para atingir seu objetivo, eles necessitam talvez da ajuda de sua consciência superior para se libertarem. Como “melhor amigo do homem”, o cão simboliza a sabedoria instintual simpática  ao homem.

A idéia que o homem e o cão possuem empatia inconsciente é antiga. Na mitologia grega, na obra da Odisséia, Argos seu fiel cão, foi o único ser vivente que reconheceu Ulisses/Odisseu quando este retornou à Ítaca, sua terra natal, depois da longa jornada de regresso de Tróia. Embora estivesse disfarçado como um ancião para não ser reconhecido pelos inimigos, seu animal farejou a verdadeira essência do dono. O animal com seus instintos aguçados não pode ser tão facilmente enganado tanto quanto os homens, por uma falsa persona, por exemplo. Os alquimistas acreditavam que a tarefa do homem era resgatar a espiritualidade da natureza, descobrir sua essência espiritual até mesmo em objetos inanimados. Imaginavam que não só a nossa natureza bestial interna, mas também as outras espécies animais careciam da redenção espiritual e buscavam nos humanos o Caminho.

Agora o herói observa com mais cuidado o lagostim/caranguejo. Será que ele busca também a redenção? Ele parece estar se aproximando da praia oposta, pretende sair da água e do lodo. Suas garras, armas naturais, impedem para que consiga apoio nas beiras do fosso, sua armadura milenar que serviu-lhe de proteção contra as intempéries e predadores lhe dificulta os movimentos puxando-o para as profundezas. É a imagem da inconstância, porque avança e recua sem parar. Está pronto para abandonar o incomodo envoltório, e ascender na escada da evolução como outros entes. Mas nosso herói observa que isso é impossível. O peso dos séculos não permite tais mudanças. Está com as garras estendidas tentando alcançar a Cidade Eterna, mas sua estrutura protetora resiste à transformação. Segundo Waite, célebre mestre esotérico, ele representa “aquilo que jaz mais profundo do que a besta selvagem”. Simboliza nossos medos mais universais dentro do inconsciente coletivo, percebido nas introvisões como demônios sem nome. O lagostim do baralho de Marselha espreita ameaçador, no meio de águas turvas, besta mitológica e pré-histórica, quase tão antiga quanto a criação. Seu lar fica nas profundezas escuras, onde sempre brilhará sua carapaça  sobre o luar tenebroso, nas horas dos feitiços noturnos. Só o baralho de Marselha sugere desesperança, e ao mesmo tempo espiritualidade neste Arcano.

Nosso herói observa que talvez seja destino do lagostim/caranguejo  permanecer encerrado no fosso. É portanto sua presença na água uma ameaça relativa, talvez uma ponte para ele transpor o obstáculo. No antigo Egito figurava o caranguejo nas medalhas das cidades como símbolo do poder produtivo das águas, pelo poder que tem o animal de separar de seu corpo os membros mutilados e de fazê-los nascerem novamente. É confundido no Arcano XVIII com o lagostim, simboliza o renascimento espiritual, nossa necessidade de abandonar coisas mortas, que envolvem nossa psique e devem ser rejeitadas como a carapaça que o animal rejeita quando ela se torna pesada demais. Entre os povos primitivos, as criaturas de sangue frio simbolizavam imortalidade, e eram adoradas como manifestações divinas. Através desta simbologia nosso herói, não mais preocupado com sua segurança imediata, percebe que a evolução do homem para a consciência, seu atributo natural e divino, é o único Caminho possível para transpor este obstáculo criado no núcleo de sua mente animal, transcendendo e ampliando assim seu entendimento espiritual.

Segundo Jung: “Da mesma forma que o homem tem um corpo, que em princípio não se distingue do corpo animal, assim também sua psicologia tem certos andares inferiores, em que moram ainda os espíritos de épocas passadas da humanidade, como também almas animais do tempo do Anthropopithecus, além das “psiques” dos sáurios de sangue frio, e nas partes mais profundas ainda o que há de transcendentalmente incompreensível e paradoxal nos processos psicóides de fundo simpático e parassimpático”, ou ainda: “Não nos iluminamos imaginando figuras de luz, porém tornando consciente a escuridão”.

A luz da Lua é fria e tênue, seu brilho, diferente do Sol, cria sombras na escuridão noturna, desconhecidas, fantasmagóricas. Na luz pálida da Lua se esvaem os contornos fixos das coisas e elas se transformam conforme nossa imaginação. Um arbusto se transforma em animal, uma árvore vira um monstro. A carta denominada a Lua, é associada por alguns com as quimeras, os sonhos quiméricos dos homens, porque sua luz provem do reflexo da luz solar, e não é iluminada por sí mesmo, como uma ilusão, uma reflexão. Não reflete uma realidade, mas sim uma falsa vivência. Não tem vida própria e faz parecer uma não-existência. Ela pode ser comparada às trevas do inconsciente, aos erros cometidos antes de se atingir a luz do consciente representado pelo Sol.

 A quimera era um ser mitológico, descrito por Homero, animal fabuloso, esfinge ternária composta de um bode, um leão e uma serpente que atirava fogo pela boca, e simbolizava respectivamente os poderes de criação, de destruição e de conservação de Deus, unidos e animados pelo fogo, a essência divina da trindade. Nasceu da união de Tífon e de Equidna, seres criados nas profundezas infernais do inconsciente coletivo da humanidade. Semelhante a aparição deste monstro das profundezas da alma, sentimos algo da selvageria da Lua no desenrolar de nossos pesadelos, quando nos sentimos estranhos dentro de nós mesmos. As imagens e sensações selvagens percebidas não são resultado do pesadelo, o contrário é mais provável. Os sonhos são transformações da energia inconsciente em imagens. Uma descarga de energia que seja tão grande a ponto de não ser assimilada tranqüilamente por estes mecanismos oníricos pode resultar num pesadelo, como na sensação, quando acordamos subitamente e nosso corpo está cheio de energia indomável. Também a loucura é acompanhada por sensações incontroladas do corpo. O termo lunático expressa bem esta ligação tradicional da loucura com a Lua, isto é, os distúrbios provocados pelo inconsciente e os mistérios lunares.

Por ocasião da Lua nova é atingido o ponto culminante de seu decréscimo de brilho, o que nem sempre é favorável, segundo a superstição popular. A Lua nova trás perigo para a criança e para o casamento. Se o pai morrer em Lua Minguante, isso trará desgraça para os filhos. Em homenagem a Lua nova ( isto é, aquela figura em forma de foice logo após a Lua nova) devem ser feitas inclinações, senão ela trará desgraça. Também o luar é perigoso. Pode causar sonambulismo lunático, provocado pelo “lobo” lunar. O leito conjugal, as mulheres grávidas e as crianças pequenas devem ser protegidos do luar. Quem costura à luz da Lua, costura a própria mortalha, dizem as crendices do povo.

Pelo contrário, os sacerdotes egípcios na antigüidade escolheram  a lua como um símbolo da fé, que reflete verdades reveladas por que é iluminada pelo Sol e recebe dele toda sua força vital. Para os hindus a luz do Sol, da Lua e do fogo era considerada uma e única, emanando do Ser Supremo, através da primazia do Sol. Entre muitos povos a Lua foi vista como a Mãe do mundo, impregnada pelos princípios fecundos do Sol que ela semeia no ar e atribuem-lhe os poderes ativos e passivos da geração, essencialmente os mesmos ainda que formalmente diferentes.  Em razão de seu crescimento e de suas fases, a Lua é símbolo da fertilidade. Da comparação da terra úmida e fértil com o seio materno decorre o culto da  Grande Mãe, associada a terra, bastante comum no antigo Egito e na Caldéia, que encontrou sua expressão na Lua Crescente e no princípio úmido. O orvalho sendo muito mais abundante nas noites claras, fizeram os povos agrícolas deduzir que a umidade provinha da Lua, tornando-se assim o princípio frio e úmido, sendo responsável pelas chuvas. O que explica que nas regiões secas e quentes, o culto da Lua suplante o do Sol. Em meio ao deserto é comum a dualidade Lua/Sol: o poder úmido procedendo da Lua em oposição à aridez vinda do Sol. O demônio solar, Nergal, do mito Babilônico, é o deus da guerra e dos infernos, Senhor dos Espíritos, e o deus do calor do meio dia e do verão. É de se compreender a afinidade de tantas crenças entre povos caçadores coletores e agrícolas em relação ao nosso satélite noturno, origem e símbolo da vida, protetora da vegetação, que como ela, nasce e seca.

Em razão de seu poder sobre as marés do oceanos, a Lua foi designada pelos hindus como a soberana do elemento nutritivo. Seus doces raios acompanhados pelas frescas brisas da noite e da aurora restauradora da manhã a faz aparecer aos habitantes destes quentes recantos, como a conciliadora e reparadora da terra. O crescimento da Lua durante os 14 primeiros dias da cada mês lunar foi sempre associado por analogia ao crescimento dos seres vivos: de onde o hábito de semear e cortar as árvores durante este período e de colher durante a minguante. Tal influência astral estendeu-se às atividades humanas, mais favorecidas pelo período lunar crescente. Na astrologia, é o símbolo da alma e sua posição no horóscopo revela o modo de reação da pessoa, sua receptividade, e sua capacidade de reflexão e adaptação às exigências da vida cotidiana. Sua influência gravitacional evidente, em função da discreta distância em relação ao nosso planeta, permite imaginar sua energia modificadora constante diretamente sobre o fluxo de líquidos e sólidos da matéria terrestre, dos quais nossos corpos fazem parte. Até mesmo a menstruação, a tensão pré-menstrual e a gravidez hoje são cientificamente estudadas pelos especialistas levando em conta as influências positivas e negativas das fases da Lua.

Ísis do Egito, enfeitada com disco e com chifres de vaca, atributos do seu poder e fertilidade; Ishtar, da Babilônia, Astarté da Fenícia, todas possuíam os mesmos atributos lunares femininos, isto é, encarnam a anima, o principio maternal, passivo. Cabe lembrar ainda as deusas greco-romanas: Selene, representando o aspecto lunar da dualidade dia - noite, natureza - espírito, vontade masculina - passividade feminina, pois segundo o mito, sabendo que seu irmão Hélio se afogara no Erídano, precipitou-se do alto de uma torre, despedaçando-se. Os deuses do Olimpo, compadecidos, transformaram os dois irmãos em Sol e Lua. Hera, símbolo da maternidade e da dignidade conjugal, terceira esposa de Zeus, é também associada com as perturbações atmosféricas devido às freqüentes brigas com o divino esposo. Ambas as deusas são lembradas como personificação da Lua cheia. Diana/Ártemis, representa o impulso vital da alma, não controlada pela razão, cujo atributo é o ideograma em forma de foice, associada a Lua crescente, simbologia transferida posteriormente através de sincretismo religioso à Virgem Maria pelos artistas cristãos. A Lua minguante, pela qual se representa a figura da Lua velha, hemisfério esquerdo do astro iluminado, simboliza o declínio da vida e representa o tipo introvertido, dirigido para a vida interior, o sono, o pressentimento, a fantasia, o inconsciente coletivo onde ficam os arquétipos da humanidade. Quanto à Lua Negra  (período de três a quatro noites em que a lua fica invisível), é o símbolo do inacessível, associada a Lilith e a Hécate, deusas da noite, arquétipos agindo insidiosamente nas profundezas do inconsciente e simbolizando as forças psíquicas poderosas que escapam ao nosso controle consciente. Hécate, deusa infernal, que preside as encruzilhadas, invocada como “deusa nutriz” está diretamente ligada ao mundo das sombras, ao desconhecido. Lilith, mulher primordial hebraica, símbolo do princípio feminino negativo é também chamada “a noturna”, figura demonizada no passado como a mulher rebelde, mas que na atualidade, do ponto de vista psicológico, representa o ser feminino independente do jugo masculino, auto suficiente, liberada das antigas funções domésticas.

Em leituras divinatórias, a Lua indica exacerbação do inconsciente. Começamos a viver emoções estranhas, sonhos, medos, até alucinações. Conforme os prognósticos, a pessoa poderá permitir que isto aconteça de forma imaginativa, no seu sentido positivo. Uma vez aceita, a imaginação enriquece a vida. Mas se o prognóstico for negativo, mostra um conflito contra a experiência. Este conflito leva ao temor e freqüentemente a emoções muito perturbadoras, na medida que a pessoa não permite que a face tranquilizadora da Lua se manifeste.

Simbolizando a Grande Sacerdotisa, a Lua alerta nosso herói para afastar-se das preocupações externas e tornar-se mais introspectivo. Ela pode indicar a desistência de alguma atividade específica ou simplesmente um período de retraimento. A Grande Sacerdotisa da Lua potencializa sua intuição, estimulando com energia imagens originadas no inconsciente. Como aspecto negativo no Tarô significa distúrbio, pois a pessoa não deseja afastar-se do seu lado solar e pode tentar ignorar a Lua através de estratagemas inúteis. A Lua contudo não pode ser renegada e os medos interiores podem tornar-se cada vez mais fortes quanto mais lutarmos contra eles. Nossa psique, operando sob suas próprias leis e por suas próprias razões, voltou-se para o aspecto lunar. Se permitirmos desvendá-la em seus mistérios, os pavores se transformarão em promessas e o portal estará aberto à aventura.

XXV – OS QUATRO MODELOS ETERNOS.

Antes do Céu e da Terra existirem
só havia uma nebulosa :
silenciosa, isolada,
suspensa, sózinha e imutável,
eternamente evoluindo sem decair,
Devemos considerá-la a Mãe de tôdas as coisas.
Não sei seu nome,
mas na sua falta eu a chamo de Tao.
Se fosse forçado a dar-lhe um nome qualquer
eu a chamaria a “Grande”.
Ser grande implica estender-se pelo espaço;
estender-se pelo espaço implica ter longo alcance,
e ter longo alcance implica na reversão ao ponto de partida.

Portanto, Tao é Grande,
Grande é o Céu e a Terra,
e toda sábia autoridade também é grande...
Eis as quatro grandezas do Universo,
o Rei sábio incluso entre elas.
O homem toma sua lei da Terra.
A Terra do Céu.
O Céu toma sua lei do Tao.
E o Tao de sua própria Natureza.

Tudo flui no Kosmos, o Céu, a Terra, o sábio. O Tao é a lei suprema. Nos primórdios do Universo, quando ainda não existia a ordem, o Tao já existia, prenhe de tudo o que viria a ser. Na lei suprema todas as demais leis lhe estão incluídas, subordinadas, em estado potencial, pois a todas contém. No momento determinado pelo Verbo ou sopro cósmico a luz se fez da grande concentração de energia e matéria, formando as nebulosas primordiais, depois as estrelas, e posteriormente seus planetas, com satélites naturais em suas órbitas. Na evolução constante da matéria e seus elementos, milhões de anos se passaram, do seu resfriamento surgiram os entes planetários com seus atributos naturais, e por conseqüência da evolução da matéria, surgiu a mente humana, que deve ser obediente as leis naturais de Terra/Gaia, nosso planeta vida, complexidade dinâmica ( Sol – Terra – Lua ) em perpétuo movimento pelo espaço, subordinada e integrada em harmonia com as leis do Reino Universal de Tao, isto é, do Caminho Perfeito.




Arcano XIX – O SOL.

Conforme a tradição esotérica oculta esta carta significa desvendamento, desembaraço, luz. O Arcano XIX representa no plano divino, o Céu supremo. No plano intelectual, a Verdade sagrada. No plano físico, a Felicidade tranqüila.

É representado pela figura de um Sol radiante, demonstrando sua força universal e penetração, pois inexistem nuances de luz e sombra. Usa um benévolo rosto humano semelhante ao pintado nos manuscritos dos alquimistas, em que personifica a “Áurea Compreensão”. Seus raios iluminam duas crianças, imagens da inocência. É o símbolo da felicidade que a simplicidade da vida e a moderação dos desejos prometem. Representam os dois infantes uma perfeita união entre o espiritual e o material. Sua sexualidade está dissimulada para demonstrar que sua qualidade se aplica tanto ao lado ativo como o passivo dos seres. Aquele que apoia sua mão sobre o ombro do outro assinala o princípio ativo, enquanto seu companheiro, que lhe põe a mão no centro do seu corpo e tem a outra mão separada, mostra que armazena e reserva. Esta disposição ressalta o equilíbrio entre eles, frutos do plano divino. Sua cor, carnal, exprime que a ação do plano divino se desenvolve no plano vital planetário. Aos pés das crianças jazem duas pepitas de ouro, talvez remanescentes da pedra filosofal, a essência transformadora buscada na Grande Obra pelos alquimistas, com certeza frutos da emanação fecunda do astro. Os raios em formato de triângulo e chamas denotam a harmonia perfeita que emana deste astro, mas também advertem seu efeito devorador que exerce sobre o homem. O Sol ilumina os que sabem como dirigir sua luz, e fulmina os que ignoram seu poder ou abusam dele. A luz dos Mistérios é um fluído temível. Seus raios são de todas as cores para demonstrar a universalidade de sua harmonia. As gotas que caem do Sol, como no Arcano A Lua, representam uma emanação fecunda. Suas cores vermelho, amarelo, e azul indicam que tem seu apoio tanto no plano material, como no espiritual ou na inteligência. O pequeno muro amarelo, encimado de tijolos vermelhos, indica a possibilidade de construções no plano físico sem obstrução, de erguer uma obra harmoniosa, estável e sólida. O solo é amarelo, para mostrar que a base está constituída pela inteligência divina.

O Sol do Tarô possui características humanas com as quais nós podemos estabelecer uma relação consciente. Isto é enfatizado pelas duas figuras humanas que brincam inocentes e despojadas. A vida já não é mais um desafio a ser vencido, mas uma experiência a ser desfrutada. É lá que recapturamos nossos eus naturais e a espontaneidade perdida. Voltamos a sentir aquela harmonia interior de crianças, antes que os opostos provocassem nosso desmembramento psicológico, isolando-nos interiormente e uns dos outros.

Neste Arcano nosso herói começa a ligar-se mais conscientemente com seu filho interior. O jardim murado em O Sol lembra um local sagrado, semelhante a um cercado seguro, possivelmente um lugar oculto onde se possa brincar. As crianças representam a função inferior, infantil, não desenvolvida e próxima a natureza. Através dessa função inferior, que permaneceu natural e vizinha do inconsciente, pode vir a renovação esperada. Elas representam algo recém nascido, vital, experimental, primitivo e integral. Não possuem consciência de sí. Quando tornamo-nos adultos temos a sensação como se cada uma das nossas ações estivesse sendo policiada por um pai crítico e severo. Embora busquemos projetar em outros que nos cercam a voz crítica, é fato que ela reside, em boa parte, dentro de nós mesmos. Criamos este verdadeiro censor interno, que submete cada palavra e cada ato a um exame minucioso de julgamento, destruindo nossos insights de criatividade expontânea. Elas brincam juntas e naturalmente livres, porque estão em harmonia consigo mesmas e com a natureza. Cada gesto nasce, espontâneo, do interior do ser, sem malícia, ou repulsa, sem rejeições ou desentendimentos. Elas não tem nada para esconder, brincam juntas livremente como dois filhotes de animais.

Somos naturalmente atraídos por crianças, por que elas simbolizam o eu natural. Quando sentimos seu olhar infantil, religamo-nos por instantes à inocência e à pureza de nossa natureza fundamental. Ela simboliza o eu arquetípico, o poder central dirigente da psique humana com o qual todos estávamos sintonizados quando crianças. Ao crescermos, pelo desenvolvimento do ego, afastamo-nos por força de sua     
identificação com nossa natureza inconsciente, e acabamos perdendo contato com ela. No mundo ocidental, em nossa cultura, a primeira metade da vida costuma ser uma viagem do ego, uma fase necessária de desenvolvimento. Mas quando embarcamos na maturidade, e o Sol está no zênite, buscamos em nosso interior a criança perdida, mantendo um relacionamento mais consciente e proveitoso, saindo do estado alienante de homem civilizado. O Sol ilustra este religamento do herói com seu eu negligenciado, portador de uma experiência direta da divindade iluminadora e da vida transcendente.

Sendo uma imagem arquetípica a “criança eterna”, se apresenta como duas crianças na lâmina, menino e menina, símbolo dos opostos em harmoniosa e criativa interação. Que possuem sexos opostos se observa pelo fato de suas partes sexuais estarem cobertas. Os cintos ou tangas que vestem não são usadas por recato, mas por uma percepção emergente das naturezas individuais dos dois e em reconhecimento dos opostos criativos como mistério sagrado cuja essência precisa ser protegida e preservada. Pela primeira vez estas energias opostas são retratadas como dois seres humanos de sexos opostos e de frente para nós. Até agora não tínhamos visto estes impulsos gêmeos interagindo. Estão brincando em sua segura caixa de areia, local sagrado, têmeno, deixando fluir insights criativos, sem a prisão dos dogmas, preconceitos, vícios, e paradigmas comuns aos homens pobres de espírito que infestam todas as esferas. No Arcano O Sol, pela primeira vez, todos os opostos podem interagir diretamente, de forma positiva e equilibrada, e de um modo mais humano.

O Mitema dos filhos gêmeos, é um arquétipo bastante presente em nossa cultura. Surge com freqüência em nossos sonhos. Quase sempre representam um novo potencial criativo de proporções inusitadas que surge. Como por exemplo na lenda de Romulo e Remo, gêmeos que foram criados por uma loba, fundadores de Roma. Outra famosa dupla de gêmeos da mitologia grega, Castor e Pólux, ainda podem ser observados como constelação no firmamento, imortalizados como estrelas. Conforme o mito, os gêmeos junto com os primos, organizaram uma expedição para roubar rebanhos na Arcádia. Na volta, brigaram pela partilha do butim e Castor foi morto por Idas, enquanto Pólux matava Linceu. Zeus matou Idas, fulminando-o com o raio e levou Pólux, o irmão sobrevivente, ao céu. Mas Pólux não aceitou a imortalidade caso seu irmão permanecesse no Hades, o reino infernal. Assim, Zeus lhe permitiu ficar um dia entre os deuses e um dia nos Infernos, para sempre. Diz-se que um desses irmãos representa o homem e o outro, seu equivalente celestial. Uma outra tradição diz que ficaram ambos nos céus, representados na constelação de Gêmeos. Toda a vez que nos defrontamos com suas estrelas no céu, ou na ilustração do Arcano, eles podem recordar-nos de que nós também somos “duplos”. Possuímos nosso ego, e um eu superior, um companheiro, ser imortal, que percebemos com a força de uma revelação. A iluminação espiritual é representada nesta carta por corpos físicos. Aqui corpo e alma são representados como iguais, cada qual estendendo a mão ao outro em comunhão compassiva.

O hierogasmo, ou casamento místico dos opostos, sempre presente nos textos alquímicos, muitas vezes é retratado como crianças gêmeas, o casal irmão-irmã, mergulhados juntos nas águas do inconsciente. O vaso alquímico selado, representado em tais alegorias, contém e protege a experiência, para que não vaze na vida manifesta. Esta representação é mais um registro simbólico de acontecimento interior do que uma aliança sexual exterior, pela sua natureza claramente incestuosa. Na antiga Grécia, o núcleo básico social era a família, com uma grande endogamia. Os incestos então eram freqüentes e naturais, a tal ponto que também foram atribuídos aos deuses, à imagem e semelhança dos homens. Do ponto de vista psicológico, o incesto simboliza nossa relação conosco, dentro de nossa própria família psíquica.

Uma experiência interna de unidade dessa natureza modificará as relações do herói no mundo externo da mesma forma. Se o hierogasmo for experimentado e contido, ele emergirá com um sentido renovado de totalidade, capaz de aprimorar seu relacionamento com o amante ou cônjuge. Mas se projetar uma face perdida de sí próprio em outrem, um outro ser humano, permanecerá incompleto para sempre.

No Tanach, ou Antigo Testamento, o primeiro nome da divindade é Eloim, que quer dizer, substantivo plural, pois o Ente inclui os princípios masculino e feminino. Jung, analisando a passagem bíblica sobre Jó, nos faz intuir que a divindade inclui outros opostos também, entre eles o bem e o mal, como representada no Velho Testamento, fundidos entre sí a partir da imensa energia vital despendida, na Criação. Nosso mestre, Jung, teve o cuidado de incluir em sua obra sobre Jó esta passagem bíblica reveladora: “Satanás talvez seja um dos olhos de Deus que perambula sem rumo certo pela Terra ( Jó 1,7)”.  Esta noção de opostos numa divindade é originada nas velhas tradições persas associadas ao Zoroastrismo, religião monoteísta popular na Ásia Ocidental da antigüidade pré-helenica, isto é, antes de Alexandre Magno. O Zendavesta, livro sagrado daquele povo, ensinava sobre a existência de um ser supremo, que criou dois outros seres poderosos e dividiu com eles sua própria natureza até o ponto que lhe pareceu conveniente. Um deles, Ariman, nasceu de um pensamento de dúvida do ser supremo Ahuramazda, e depois rebelou-se tornando-se o autor de todo mal que está na Terra. Ormuzd (chamado pelos gregos Oromasdes ) permaneceu fiel ao seu criador e foi considerado a fonte de todo o bem. Ele  criou o homem e deu-lhe todos os recursos para ser feliz, mas Ariman frustrou esta felicidade, introduzindo o mal do mundo e criando as feras, as plantas e os répteis venenosos. Em conseqüência disto o mal e o bem se misturaram em todas as partes do mundo e seus seguidores passaram a travar guerra incessante. Este estado de coisas, acreditavam, não vai durar para sempre. Chegará a ocasião que o bem vencerá e Ariman e seus sequazes serão condenados e atirados às trevas eternas. Eles adoravam o Sol e a Chama Sagrada, símbolos de Ormuzd, a fonte de toda luz e de toda pureza. Porém não os consideravam como divindades independentes.

Na antiguidade, numerosas civilizações consideravam o Sol como deus, ou como os persas, que tratava-se do aspecto visível ou a manifestação do Ser supremo, considerando o astro o símbolo do poder criador. Os egípcios, os aztecas, e os índios americanos adoravam o Sol como criador supremo. No Gênesis bíblico, O Sol designa a Revelação e a Doutrina. O Sol que se detêm manifesta a presença de Deus; o que se põe, a ausência da divindade. Na Bíblia o calor do Sol que aquece o corpo do homem e sua luz que esclarece são a manifestação da Divindade que beija o coração e se revela à inteligência. Para os teólogos, é a substância do poder sagrado e a imagem visível de seu ser intelectual. Segundo a doutrina órfica, o Sol como centro do universo, garante a coesão e a harmonia dos planetas que gravitam em torno dele pela sua força de atração e os eflúvios dos seus raios provocam os movimentos das partes do Kosmo. Tal concepção é chamada de “cadeia”, pois associa todos seus atributos: o princípio de atração, o redentor que libera, assim vivificando os poderes da natureza que ele fecunda.

O Sol é fonte de energia e vida neste planeta. Através de seus raios, ou através do carvão e do gás natural, que guardam na sua estrutura a força do Sol absorvida há muito tempo, recebemos e aproveitamos sua energia. O vento também tem sua origem no Sol, pois graças ao seu calor que se espalha desigual sobre a face da Terra, o fenômeno acontece. Sem ele as plantas não poderiam elaborar a fotossíntese, processo nutriz responsável pelo seu crescimento e reprodução. Como é provado, nem os filhotes de mamíferos teriam seu desenvolvimento garantido, sem as transformações químicas provocadas pelo Sol para criação de vitaminas de crescimento dentro do organismo animal.

O culto solar foi comum a todos os povos que, de pastores nômades, tornaram-se agricultores e deram origem às religiões hindus, mulçumanas, ao Zoroastrismo, ao sufismo, ao panteísmo, aos cultos de Baal, de Hélios, de Sab ( o Muito Elevado ), Zeus, Apolo, Júpiter, Amon, Hórus, Osíris, Anton, Bel ( significando Alto, Chefe, Rei, Senhor, Mestre ), Ashur, Jeová, Mitra, Uiracoca, etc...

Os egípcios o adoravam sob o aspecto do deus único Amon-Rá, o “Uno sem segundo”, adorado no seu sentido trino: Kepaa, a amanhã, Rá, ao meio dia e Tum, à tarde. Este Sol criador possuía três virtudes simbolizadas pelos três signos: da Vida, a cruz ansada, da Força, o cetro dos deuses e reis e da Duração representada pelos quatro pilares do céu vistos em perspectiva e o raio solar. O Sol poente era às vezes representado por um ovo, porque ele toma esta forma no momento de tocar o horizonte. Acreditavam que passava para um mundo inferior para reaparecer, casca quebrada, cheia de vigor, na manhã seguinte; era denominado “flama nascida da flama”.

Considerado como fato raro, em algumas sociedades matriarcais, o Sol é visto como princípio feminino, símbolo da criação, da mãe protetora. Ele é encarnado por uma deusa no sul da Arábia, Ilat, e no Japão por Amaterasu, avó longinqua do Imperador, ente familiar que se torna o Ser supremo do cosmo japonês. Esta escolha deixa transparecer uma certa ternura em relação ao dom adorável da luz, uma doce gratidão por tudo que ela permite ver, traços comuns que igualmente caracterizam o sentimento religioso de muitos povos. Na Índia, o Sol levante está encarnado pela bela e jovem deusa Usas que dissipa a obscuridade e resplandece em sua vestimenta de luz, e pelo deus da aurora, Aruna. Os dois aspectos passivo e ativo do Sol, são representado por Surya, simbolizado como um pássaro, um cavalo, uma roda, ou uma carroça, que brilha para dissipar a obscuridade, a doença e os Poderes nefastos e distribui a chuva, e Savitar, o divino motor que dá movimento à natureza em geral.

No país indiano os raios solares são assemelhados à flecha e aos cabelos de Shiva e o astro é o princípio e o fim de toda manifestação. Na mística dos maias, estes raios expandem a luz material e espiritual que clareia o mundo como a inteligência humana, conferindo às coisas um poder mágico que desaparece com o ocaso. Os raios solares transmitem à Terra as influências celestes. O raio solar iluminando o lar doméstico simboliza a comunicação da energia divina à matriz do mundo como o eixo que faz girar as rodas celestes e terrestre.  Como arco-íris, é o ponto pelo qual Deus desce junto ao homem e o homem sobe até Ele. Os raios do Sol correspondem a consciência do Kosmo e simbolizam a inteligência, e o conhecimento buscado por todo candidato à iniciação.

Emblema dos deuses e personagens poderosos: Vishnu, Buda, Jesus e de numerosos reis e mandatários, o Sol foi considerado pelos seus aspectos, e nomes: os 12 raios representando os apóstolos, como deus trino; deus, pai, criador, simbolizado pelos raios petrificados nos obeliscos e menires; como símbolo dos raios solares; o bastão, o cetro, o falo, as flechas, a mão; o deus pastor, protetor pelo olho, a águia e a mão, o deus juiz ou espírito-limite pelo disco, o escudo e a mão.  Como deus único tendo sua própria imagem como símbolo: a auréola, as figuras giratórias, as cruzes solares, o disco, o disco alado com seus raios ou ainda ou ainda com o olho, a estrela solar e seus derivados florais; rosácea, crisântemo, lótus.

Para os indígenas americanos, o percurso do Sol, em sua trajetória diária e anual pelo firmamento, simboliza o ciclo da vida humana: o nascimento com a aurora, descida à terra, renascimento triunfal no Oriente. Nesta crença o astro se humaniza para elevar o nível do homem ao plano divino e é modelo do homem verdadeiro. Seu significado é a eterna lei da renovação.

Os índios de Pueblo levantam todas as manhãs, à primeira luz, para adorar o Sol e ajudá-lo a nascer, não só para seu povo, mas para todo o mundo. Uma função idêntica era exercida pelas caminhadas solares, ritos realizados pelos egípcios, hebreus, fenícios, e outros povos do Oriente, em épocas dos equinócios, solstícios, eclipses. Para assistir o Sol-Deus durante estes períodos difíceis de seu ciclo anual, quando ocorriam os eclipses, os crentes apoiados num bastão, andavam continuamente em circulo esperando manter o Sol enfraquecido. No Japão, davam a volta ao Fujiyama, a Montanha Santa em Osaka, cem vezes cantando preces e ladainhas.  

A cada 52 anos, no momento da coincidência dos calendários solar e divinatório, maias e aztecas imaginavam que a vida do astro poderia se extinguir, e para evitar o fim do mundo, praticavam ritos excepcionais a fim de apaziguar os deuses: a festa do fogo novo, cerimonial que implicava em sacrifícios humanos. Os aztecas acreditavam que era necessário alimentar o Sol, fornecendo-lhe energia para o seu percurso e sobretudo para sua ressurreição diária. Daí o costume dos sacrifícios rituais, só o sangue humano (água preciosa) pode exercer esta função nutritiva.

Deus supremo dos Incas, isto é, dos Chibchas, povo natural dos Andes na América do Sul, Viracocha é o espírito que manifesta seu poder através do Sol como criador e animador de todas as coisas e sua encarnação terrestre é o Inca, o soberano supremo, denominado Filho do Sol. As múmias destes soberanos eram transportadas para a praça do mercado em Cuzco, e recebiam a mesma veneração religiosa que suas imagens de deuses. No suntuoso templo de Cuzco, onde ocorriam sacrifícios humanos, a imagem antropomórfica de Viracocha, a face virada para Leste, era rodeada por uma infinidade de raios solares luminosos.

Como já vimos o Sol também se reveste de um aspecto destruidor pelo seu calor, às vezes excessivo, e o princípio de aridez oposto ao princípio fecundante da chuva. Os babilônios tinham Nergal, como já foi comentado antes, o deus do verão e do Sol do meio dia, associado às guerras. No Egito antigo Seth, irmão de Osíris está associado ao Sol abrasador do deserto e às tempestades de areia. O aspecto negativo do Sol  o coloca relacionado com a morte em muitas religiões. Há uma tradição sobre o Sol dos Mortos, o Sol sombrio e os deuses solares de aspecto negro, como Hades na mitologia grega, cujo nome significa o “Invisível”, era tão temido que não o nomeavam, de medo de lhe excitar a cólera. Assim, chamavam-no por eufemismos, entre os quais o mais comum era Plutão, o “Rico”.  No Velho Testamento é atribuído ao divino, às vezes, significação nefasta do ardor devorador, do furor, do egoísmo, como quando Jó vangloria-se por não Ter adorado o Sol e a Lua, isto é, de não ter tido fé em sua própria sabedoria. Os gnósticos ensinavam que o Sol é duplo: Sol branco e Sol negro, Micael e Samuel, que ele é o conjunto astronômico e cósmico de duas luzes opostas e de duas serpentes, representando o bom e o mau, o bem e o mal, Deus e Satã. Noção que representavam pelo enlaçamento dos bons e maus raios do Sol.

Apolo, deus solar, possuía o atributo de saber tudo o que acontece, pois em sua jornada pelo mundo tudo vê, representando assim o conhecimento. A pessoa atingida pelo Sol tem uma sensação de sabedoria, de ver tudo com claridade total. Ela está “lúcida”, palavra que significa clara e direta, mas que literalmente significa “cheia de luz”.

Interessante lembrar que Apolo, o deus da luz, nasceu de Leto, a deusa da noite, e que seu santuário principal, o oráculo de Delfos, pertencia originariamente às deusas da escuridão. Mesmo sob a consagração de Apolo, a sabedoria e a luz do oráculo operavam da escuridão. Outros atributos de Apolo são: é sempre representado como jovem imberbe, porque o Sol não envelhece; o arco e as flechas que trás simbolizam os raios solares, a lira, a harmonia dos céus; é chamado o Esplendente. Atira suas setas ao longe, como o Sol dardeja longe seus raios. Sua capacidade de profecia e cosmovisão incluí o que está para acontecer. Enviou aos exércitos gregos reunidos diante de Tróia, uma peste com seus dardos certeiros. Combateu ao lado dos troianos interferindo no resultado de vários combates. Certos animais eram particularmente consagrados a Apolo: o lobo, que se lhe oferecia em sacrifício e cuja imagem se associava a sua nas moedas; o gamo ou a corça, que figuram igualmente no culto de Ártemis, sua irmã; entre as aves, o cisne, o milhafre, o abutre e o corvo, cujo vôo oferecia presságios. Entre os animais marinhos, o delfim, ao qual se liga o nome de Delfos, seu santuário. O loureiro era sua árvore. A pítia, oráculo do templo, mastigava folhas de louro, durante os transes proféticos. Ele não é o Sol, sendo esta função preenchida por outra divindade, Hélio. Apolo, filho de Leto, divindade da noite, representava o dia resplandecente, adorado nos cimos e altas montanhas. As funções e símbolos associados à Apolo são múltiplos, sua divindade está bastante liga às atividades pastoris e agrárias dos homens e aos oráculos sagrados. Apolo, com o correr dos tempos, tornou-se o deus da religião órfica, que prometia saúde e vida eterna aos iniciados. Diz-se que Apolo é pai de Pitágoras, ao qual se ligam essas doutrinas. Representa-se Apolo reinando sobre a Ilha dos Bem-aventurados, paraíso do orfismo e do neopitagorismo.

A outra divindade solar grega, Hélio, pertencia à geração dos Titãs, antecessores dos deuses Olímpicos como Apolo e Zeus. É considerado filho do Titã Hiperião e da titânida Téia. Era irmão de Éos, a Aurora, e de Selene, a Lua. Ele era representado como um jovem de grande beleza, com a cabeça cercada de raios, à maneira de uma cabeleira de ouro. Percorria o céu, num carro de fogo arrastado por quatro cavalos, Pírois, Eoo, Éton, e Flégon, dotados de grande velocidade. Seus quatro nomes originam-se de chama, fogo, ou luz. Cada manhã, precedido pelo carro da Aurora, Hélio se atirava por um caminho que passava pelo meio do céu. À tarde chegava ao mar, onde banhava os cavalos fatigados. Ele então repousava num palácio de ouro, de onde partia no outro dia pela manhã. Hélio é considerado como o olho do mundo, aquele que tudo vê.

Coração do mundo, centro do sistema que ele rege, o Sol figura no centro da roda do zodíaco e desempenha um papel primordial no tema do indivíduo. Seus atributos definidos pela astrologia são: calor, seco, masculino, positivo.

Dentro de nossa cultura Ocidental estamos perdendo cada vez mais contato com a vida simbólica. Vivendo em cidades superpovoadas onde o Sol mal penetra a camada de poluição do ar, isolados em grandes estruturas construídas pelo homem, em cubículos onde só a luz artificial alcança, buscando unicamente a sobrevivência financeira, deixando importante parcela de nossa energia natural perder-se com a futilidade da vida moderna, esquecendo as necessidades diárias de nossa alma. Segundo Jung: “Só a vida simbólica expressa a necessidade da alma”. Entretanto ainda podemos perceber intuitivamente, apesar de nossas crenças interiores e nossas necessidades terrenas, no momento que o Sol se põe no horizonte, nossa perplexidade ante a majestade da Natureza.  O grande Sol redondo em sua jornada diária pelo céu permanece como símbolo poderoso pelo qual nos religamos ao nosso Sol interior, sensação que tem despertado no homem desde os primórdios dos tempos.

No Tarô, encontra-se já no fim da seqüência, pois expressa que necessitamos primeiro criar em nossa psique um espaço, um jardim murado ou caixa de areia para receber sua luz. De outro modo, o Sol inclemente do meio dia que aparece na carta poderia queimar e destruir com seus raios os pobre seres desprotegidos. Segundo dito atribuído ao Buda: “Todos os seres nascem iluminados, mas é preciso uma vida inteira para descobri-lo”, razão por que nossa “áurea compreensão” demora a ser atingida. O Sol como germe de um novo período, anuncia iluminação e nutrição e assinala o renascimento de uma nova percepção. O Sol do Tarô incluso no triângulo, a primeira figura geométrica possível, é na arte heráldica o símbolo do princípio criador desvendado ao homem pelo Ente que é ternário. O Sol expressa o momento em que nosso herói, abandonando para sempre as luzes artificiais das opiniões, dogmas e paradigmas estéreis e sem vida, penetra no mundo ensolarado do verdadeiro saber e do entendimento interior da vida.

LV – O ENCANTO MISTERIOSO.

Quem é rico de Virtude
é como a criança.
Nenhum inseto venenoso a picará,
nenhum animal selvagem a atacará,
nenhuma ave de rapina lhe deitará as garras.

Seus ossos serão flexíveis, seus músculos elásticos, suas unhas fortes.
Desconhecendo a união do macho e da fêmea, seus órgãos
permanecerão intactos,
seu vigor não será esbanjado.
Gritando o dia inteiro todavia sua voz nunca enrouquece,
mostrando a harmonia de sua constituição.

Para conhecer a harmonia é preciso estar de acordo com o Eterno,
e conhecer o Eterno chama-se ter discernimento.
Viver intensamente não nos faz felizes.
Quando as coisas se tornam fortes, tornam-se
velhas e contrárias ao Tao.
E tudo que é contrário a Tao cedo perece.

Cada novo dia possuí um encanto especial, misterioso, o Sol da aurora trás a luz da renovação, nas crianças, nos animais, na semente que se entreabre e germina. Este encanto está na plenitude do Tao, que em sua infinita sabedoria neles desabrocha. Quanto mais tenros e flexíveis são seus membros e caules, cheios da vitalidade do nascimento, mais distantes estão da rigidez, da corrosão, e da morte.



Arcano XX – O JULGAMENTO.

Segundo a tradição oculta este Arcano significa renascimento, despertamento, ressurreição, surpresa, brilho. No plano espiritual significa o renascimento da alma, o novo ser anímico. No plano intelectual o ressurgimento de uma antiga idéia. No plano físico, recuperação física ou financeira.

O Arcano XX é representado por um Anjo que aparece no céu tocando uma trombeta de ouro, trazendo uma bandeira com uma cruz de ouro, símbolo da parte divina do Homem. Abaixo dele estão três personagens nus, um dos quais ergue-se do túmulo. Representam a humanidade com seus princípios masculino e feminino e seu estado de consciência simbolizado pela terceira pessoa que os dois contemplam. Ele está de costas significando que este estado de consciência é secreto, individual, só conhecido pelo Anjo que olha, isto é, só é conhecido pelo divino. Também representa o estado de consciência que permite ao homem voltar a encontrar a permissão para elevar-se a sua origem espiritual e tornar possível sua nova reencarnação. A atitude dos dois personagens virados de frente significa que para conhecer  o próprio estado de consciência, devemos abstrair-nos e olhar para dentro de nós como se fosse um espelho. Seus cabelos são azuis para precisar que a matéria só pode evoluir quando um raio de espiritualidade lhe atinge.

O título da carta, o Julgamento,  está associado à narrativa bíblica do Juízo Final quando, ao ressoar da trombeta de Miguel, os justos serão chamados à vida celestial, ao passo que os maus serão lançados para todo o sempre no inferno. Simboliza o discernimento, a separação dos bons e dos maus. O Arcano dramatiza o momento de ressurreição espiritual. Pela primeira vez, uma figura humana, saindo do túmulo, observa a fonte de iluminação. Os personagens serão agora chamados a entrar numa nova dimensão de percepção, até então desconhecida. Estes três entes não se restringem ao plano mental humano, como também ao despertar da materialidade, simbolizada pela tumba, isto é, tudo que vive sobre a Terra, porque quando o estado de consciência se anima, tudo o que possui essência vital se aproxima de seu Criador. São três, não uma multidão de seres, para significar que a consciência só se revela em uma vida individual e não coletiva. Ao mesmo tempo, cada revelação única auxilia na libertação da humanidade. Isto porque, se uma pessoa atinge tal nível de entendimento interior, ela altera a vida de todas as pessoas ao redor. A elevação de Gautama a Buda e a ressurreição de Cristo são considerados eventos que mudaram o mundo. A tumba é verde, indicando que o sepulcro imagem da morte, não é estéril, e possui pelo contrário uma grande força de fecundidade.

No Julgamento a figura central percebe e responde ao chamado do Anjo. A dimensão deste chamado é enfatizada pelo tamanho do Anjo radioso e pela sua enorme trombeta, cujo som promete deixar surdo todos os personagens humanos e animar a atividade do mundo inferior para o espiritual. O som é uma forma de comunicação poderosa e primitiva, mexe com nossas raízes interiores, de forma positiva ou negativa, podendo dar-nos prazer ou levar-nos ao absoluto pânico. A música, atributo ancestral dos deuses, liga o mundo externo ao interno de maneira mística e transcendental. Incita o homem à ação ou abranda sua cólera, coloca seu espírito em harmonia com o universo, ou despedaça vidros. Parece significativo que nos relatos bíblicos da Criação, o som tenha seu papel destacado. No Gênese, Deus disse: -“Haja Luz”. João também afirma que “No princípio era o Verbo”. Nas duas narrativas o som precede a Criação.

Um homem e uma mulher saúdam o ressuscitado com atitudes de devoção e preces de ação de graças. Dão boas vindas ao ser renascido, vindo do mundo das trevas do inconsciente, que tornou para uma vida nova. Sentimos que estão os três ligados entre sí representando o ternário ou trindade terrena. O Anjo completa a quaternidade, juntando o Céu e a Terra para formar uma nova realidade. O tema é reforçado na bandeira com a cruz de ouro, segurada pelo Anjo de forma significativa. Ela indica um encontro de opostos, uma junção de todas as coisas que estavam separadas, simboliza um encontro de duas espécies de tempo. O tempo comum, que percebemos com nossos sentidos e segundo o qual vivemos, e a eternidade, pela sua percepção espiritual da vida. Esses dois tempos estão representados nas linhas verticais e horizontais da cruz. Seu ponto de convergência no centro indica que seu eu superior não abandona suas antigas atividades, mas trata delas de uma nova maneira.  

Desde tempos imemoriais, através de ritos sagrados, ou Mistérios, realizados nos templos pelos sacerdotes e sacerdotisas, iniciados participavam em cerimoniais associados ao renascimento que tinham como motivo a descida ao túmulo e a ressurreição do “nascido duas vezes”. Nos Mistérios de Eleusís, na antiga Grécia, por exemplo, o sepultamento e a ressurreição eram representados simbólicamente. Nos períodos finais da iniciação, o candidato descia a uma cripta, onde permanecia em estado de animação suspensa, mantido em transe, provocado pelo chá de papoula servido pelos sacerdotes do templo, que ficavam em vigília com o iniciado. A papoula nascia entre os pés de trigo e era consagrada à Deméter, deusa do templo.  Depois de três dias, despertado por um arauto, erguia-se renascido como um novo membro da Ordem. O Arcano, o Julgamento, propõe exatamente isto, uma nova interação entre o consciente e o inconsciente.

Os egípcios também chegaram a conclusão, a partir da observação do ciclo solar, que a natureza em geral, e o homem, em particular, não se aniquilavam, e que, pelo contrário, tudo estava destinado a renascer depois da morte. Para que a assimilação seja completa, este novo nascimento deveria ser necessariamente precedido de algum estado transitório, que representasse a fase noturna, quer dizer, a corrida ou curso do astro pelas regiões desconhecidas do hemisfério inferior, que se supunham tenebrosas. Por isso o homem não devia renascer senão depois das peregrinações misteriosas da existência de ultra-tumba, que se deviam efetuar nos infernos. Essas diversas fases renovam-se incessantemente e com absoluta regularidade, do que deduziu-se a idéia da eternidade, não somente enquanto à divindade, senão também no referente ao homem e para o mundo todo, como organismo vivo. O homem devia unir-se a esta eternidade manifesta do mundo pelo movimento dinâmico do Kosmo, unindo-se ao movimento, fixando-se ou incorporando-se deste modo ao motor imóvel, ao que não muda.

A figura central da lâmina é o herói, desaparecido de nossas vistas nos Arcanos anteriores. Só ele que saí do sono mortal, despertado pelo som da trombeta pode vê-la e seu arauto angelical. Gurdjeff e seu discípulo , o matemático Ouspanski, desenvolveram, baseados nos seus estudos esotéricos e em prolongados estágios nos mosteiros do Tibet, uma teoria evolutiva bastante sedutora. Sua tese principal é que estamos todos adormecidos, num estado limite entre o sono e o estado de vigília. Para demonstrar sua opinião sugere tentarmos ouvir um relógio, concentrarmo-nos nele sem pensar em outra coisa. Ninguém consegue isto mais que alguns segundos. Voltamos a pensar, em função dos nossos condicionamentos próprios. Na vida real, só de vez em quando “despertamos”: quando por exemplo dizemos a nós mesmos – Que interessante, eu estou deitado numa rede à beira-mar. Este estado de adormecimento, Ouspanski o explica pelo condicionamento. Nada nos pertence; tudo nos veio do mundo exterior, com exceção de alguns reflexos primários ligados à defesa do nosso organismo. É o meio ambiente e sobretudo a sociedade que condicionou nossos hábitos, pensamentos e crenças, a tal ponto que pensamos que as opiniões são nossas, quando na realidade estamos repetindo simplesmente o que ouvimos dos nossos pais, parentes, educadores, e meios de comunicação de massa. Segundo sua análise, o homem atual está inconsciente ou semiconsciente. Todos nós estaríamos adormecidos e parados num dos primeiros estágios evolutivos. Para evoluirmos temos de “acordar”, isto é, tornar nosso “eu” consciente progressivamente e dominar nossos quatro centros que correspondem aos nossos quatro primeiros estágios evolutivos. Descreve estes quatro centros como uma escala ascendente e progressiva. Estes centros corresponderiam, em resumo, aos três primeiros estágios evolutivos dos sete que existiriam e que são:

-          Nível 01)Dominado pelos instintos e pelos impulsos motores. É o homem físico.
-          Nível  02)Homem emocional.
-          Nível 03)Homem intelectual dominado pelos seus pensamentos.

A maioria da humanidade está fixada num desses níveis ou estágios iniciais. Para passar aos níveis seguintes é necessário conhecimento iniciático.

-          Nível 04) Tomou consciência de si mesmo e tem noção clara da existência de uma unidade, de uma consciência e de um eu permanente. Tem, ao mesmo tempo, um desejo permanente de se desenvolver, sua principal motivação e preocupação.
-          Nível 05) É o homem que chegou a ter ao mesmo tempo a unidade e a consciência de si mesmo. Há um centro superior que trabalharia para ele.
-          Nível 06) É o homem que adquiriu uma consciência objetiva que seria dirigida por um outro centro que lhe permite um domínio, ainda não permanente, sobre todas as sua funções psicossomáticas. Possui novos poderes fora do entendimento do homem comum.
-          Nível  07) Possuiria consciência e domínio perma-nentes. Teria ele um eu permanente e uma vontade livre.   

Um homem comum em nossa civilização Ocidental dificilmente passaria do quarto nível ou estágio. Só grandes místicos como Buda ou Cristo teriam chegado ao sétimo estágio. O quarto estágio corresponde ao despertar da consciência humana e corresponde ao nosso Anjo da lâmina. É encontrado em vários sistemas esotéricos sob diversos nomes. Entre os hindus por exemplo, a vida tem quatro objetivos e sentidos. Os três primeiros definem o valor da pessoa e o quarto seu objetivo:

1)      Kama: Prazer, sexo, realização de si no plano sensual e físico.
2)      Arhat: Realização de si no plano da ação. Compreensão daquilo que está além da vida.
3)      Dharma: Dever, virtude, busca da perfeição do nosso ser.
4)      Moksha: Libertação final e total das cadeias da existência. Realização do eu.

O sistema quaternário também permite uma exploração à luz das quatro funções da psique, que Jung denominou sensação, intuição, pensamento e sentimento. O homem ressuscitado representa nossa função pensante que surge das trevas, despertando depois de longo sono como função superior. As quatro funções da psique representam os quatro modos típicos que tem o ser humano de perceber a realidade e lidar com ela. A sensação, isto é, o testemunho dos cinco sentidos e a intuição, a informação derivada do sexto sentido são as duas funções por cujo intermédio apreendemos o mundo da experiência interior e exterior, e foram chamadas por Jung de funções irracionais, pois trazem informações para nós que nada tem a ver com a lógica. Por outro lado, a informação derivada do sentimento e do pensamento é função racional. São as duas funções com as quais tratamos os materiais e assuntos apresentados pela sensação e intuição. São classificadas desta forma, isto é, funções racionais, porque envolvem uma discriminação racional de análise. No caso do pensamento, avaliamos baseados na reflexão lógica, no caso do sentimento, fazemos escolhas dentro de uma hierarquia racional de valores sentimentais preestabelecidos. Não deve ser confundida esse tipo de decisão consciente pelo sentimento, com a emoção inconsciente, trata-se pelo contrário, de um julgamento de valor muito preciso, baseado mais no que sentimos a respeito de algo do que pensamos sobre o mesmo. As conclusões atingidas através das funções racionais podem ser descritas e mantidas de modo racional.

Jung descobriu que as duas funções racionais que envolvem pensamento e sentimento se excluem mutuamente, como ocorre também com as duas outras. Quando estamos ocupados pensando em algo, não podemos ao mesmo tempo, estar sentindo o que quer que seja em relação ao objeto em questão. Se estamos concentrados na observação de alguma coisa com os sentidos, não podemos, ao mesmo tempo, receber mensagens que chegam através do sexto sentido. Disso ele segue observando que se nossa função superior for uma das funções racionais, a inferior, será necessariamente, o seu equivalente racional; ou se a função superior for uma das funções irracionais, a função inferior há de ser, obrigatoriamente, a outra função irracional. Nossa tendência natural é usar a função superior, esta se aprimora cada vez mais com a prática, enquanto a incompatível sofre com o descaso. Muitas vezes a função superior, ferramenta confiável da personalidade, se torna tão indispensável e eficaz, que com sua força parece tomar conta de todo corpo psíquico. Resultando na atrofia para o uso consciente dos outros três membros, e principalmente o inferior. Depois de algum tempo de associação estreita e feliz, o ego, virtualmente identifica-se com a função superior.

Se tivermos de ligar o ressuscitado da carta a uma das quatro funções, com certeza representa a função superior do herói, aquela em que esteve mais associado durante toda sua vida. No baralho de Marselha a figura que se ergue do túmulo não é uma criança, mas sim um adulto, que está renascendo, indicando que já viveu ativamente no mundo superior. Sua identificação com o herói é total, não podemos distingui-los um do outro. Portanto é fácil perceber que quando se abate a função superior, o ego também sofre um golpe drástico.

Todos nos identificamos primeiro com nossa função superior mas devemos evitar viver cativos num prisão rígida de comportamento. A psique é um sistema auto regulado; trabalha constantemente para corrigir qualquer desequilíbrio surgido entre seus vários aspectos. Se o desequilíbrio for pequeno, a força necessária para recuperar o equilíbrio não precisa ser tão poderosa. Muitas vezes a correção não se faz por intermédio de algum acontecimento externo, senão da própria função superior, que morre exaurida. Na carta, o Julgamento, o herói sofreu um resgate, um momento de liberação de estruturas que já não atendem sua finalidade. A individuação é um processo de resgate. Seu objetivo não é criar algo totalmente novo, além de nossa capacidade, alheio a nossa pessoa, mas sim resgatar e liberar aspectos a nós pertencentes que foram mantidos em reserva  pelo nosso inconsciente. Esta liberdade entretanto não significa abandono de todos os problemas. Toda vez que resgatamos alguma coisa, isto é, nos livramos de
uma fixação, devemos pagar um preço. O aumento de nossa percepção imporá, inevitavelmente, um aumento de responsabilidade. O herói necessita enfrentar o desafio da nova luz.

Os quatro elementos do Arcano: o homem semente, os dois sacerdotes e o Anjo, figuras que foram humanizadas e estão em comunicação entre sí, refletem uma abertura na percepção psíquica do herói. É  a possibilidade psicológica que as qualidades de cada elemento possam ser consolidadas num ser mais completo, um ser humano renascido. A fusão alquímica dos elementos, proveniente do calor emanado de nosso Sol interior pode resultar em uma nova criação, uma transformação definitiva do ser. A libertação de sua libido das profundezas escuras do inconsciente, de volta ao mundo superior, que foi rejuvenescida com sua descida ao mundo inferior, sua aparente morte despertou a nova fertilidade, um novo milagre.

LII – A POSSE DO ABSOLUTO.

Foi no começo dos mundos,
o Tao, que tudo produz, pode ser interpretado
como a Maternidade do Universo.
Quando encontramos a mãe, podemos saber
como serão seus filhos.
Quando temos consciência que somos filhos
desta mãe e guardamos suas qualidades até o fim da existência,
a vida de cada um pode ser preservada de perigos.

Bloqueemos as aberturas dos sentidos,
fechemos as portas do intelecto,
assim a vida inteira de cada um ficará sem máculas.

Se abrimos as portas dos sentidos e da mente,
a vida inteira de cada um estará acima da libertação.

Aquele que pode enxergar o pequenino é clarividente.
A percepção das pequenas coisas é discernimento.
O que pode manter-se pela afabilidade é forte,
manter o que é macio e tenro é o segredo da resistência.
Aproveita a claridade e volta à clarividência,
para que mais tarde não te sejam causadas perturbações.
Isto se chama apoderar-se do Absoluto

Neste verso do Tao Té Ching dá-se especial ênfase ao bloqueio dos sentidos e ao fechamento da porta do intelecto, como condições indispensáveis para uma vida inteira sem máculas. O que é a vida do homem comum? Quais seus sonhos e atividades? O que ele valoriza? A resposta sempre será a mesma: posses, posições, honrarias, prazer. Somos seres iludidos com as coisas da materialidade, onde nos debatemos em busca de pequeno alívio. Os sentidos e a mente são os grandes responsáveis por essa ilusão interior, pois deformam a realidade. A simplicidade, a volta à raiz, permite-nos apoderarmos do Absoluto, e herdarmos o Eterno.


Arcano XXI – O MUNDO.

Este Arcano representa uma síntese do Tarô e resume todos os Arcanos Maiores e Menores, porém, como Arcano Maior, seu significado é a pessoa que consulta. Segundo a tradição oculta, no plano espiritual  conserva seu poder e significa elevação do espírito, sentimento de amor altruísta, quer dizer, nem egoísta nem sensual, representado pelo ser andrógino no centro da carta. Amor à humanidade. Inspiração para os artistas. No plano intelectual significa grande poder. Tendência à perfeição. Domínio mental e psíquico. No plano físico, quase não está adaptada, perde a maior parte do seu poder. Experiências enriquecedoras. Assuntos firmes e brilhantes. Êxito e vida mundana. Boa Saúde.

Arcano supremo do Magismo, é figurado por um ser andrógino, com traços femininos, que segura uma baqueta em cada mão, tem as pernas cruzadas, uma sobre a outra, como se estivesse dançando, no meio de uma guirlanda no formato de uma elipse. Nos quatro cantos da lâmina estão figurados os quatro animais dos Evangelistas ou as quatro formas da Esfinge: o homem, o leão, o touro e a águia. Este é o sinal que se investe o Mago no mais alto grau de iniciação e que obteve, por meio dela, a posse de um poder, cujos graus ascensionais não tem outros limites senão os da sua inteligência e sabedoria.

Esta carta significa a iluminação psíquica e espiritual, ilustrada na harmonia manifestada pelo equilíbrio claramente visível na disposição dos elementos do conjunto. Simboliza a perfeição do homem no universal, seu triunfo sobre a matéria, seu poder sobre a natureza. A carta o Mundo, em seu sentido mais geral, também simboliza o perfeito equilíbrio dos mundos em todas as esferas da Criação.

Os pelasgos, primitivos povos que habitavam a Grécia, que possuíam uma evidente postura religiosa matriarcal baseada no mito da Grande Mãe que se generalizaria no mundo mediterrâneo Oriental criaram o seguinte mito sobre a Criação:

No princípio Eurínome, a deusa de todas as coisas, surgiu nua do Caos, mas não encontrou nada sólido onde botar os pés, e por causa disto, separou o mar do firmamento e dançou solitária sobre suas ondas na direção sul. O vento Norte, chamado Boreas, colocado em movimento atrás dela, sugeriu-lhe que seria um bom instrumento para iniciar uma obra criadora. Então ela voltou-se e apoderou-se dele, friccionou-o entre as mãos até dar origem a enorme serpente Ofión. A deusa, que tinha frio, dançou para esquentar-se cada vez mais rapidamente, despertando o desejo carnal de Ofión, que sem pensar duas vezes se enroscou no corpo de Eurínome, e possuiu-a com luxurioso deleite. Assim foi que Eurínome acabou grávida.

Depois Eurínome se transformou em pomba, pousando sobre as ondas. No seu devido tempo pôs o Ovo Universal. Ao seu pedido Ofión enroscou-se sete vezes ao redor do Ovo, até que assim incubado dividiu-se em dois. Dele saíram todos os seres e elementos que compõem o Kosmos: o Sol, a Lua, as Estrelas, a Terra com suas montanhas, rios, mares e lagos, suas árvores, ervas e criaturas viventes.

Eurínome e Ofión fixaram sua residência no monte Olimpo. Quando Ofión irritou sua companheira, arrogando-se o título de criador do Universo, esta deu-lhe tamanho pontapé que arrancou-lhe os dentes e lançou-lhe nas escuras cavernas situadas embaixo da terra.

Em seguida a deusa criou sete potências planetárias e colocou uma Titanide e um Titã em cada uma: Thia e Hiperião para o Sol; Febe e Atlante para a Lua; Dione e Crio para Marte; Metis e Geo para Mercúrio; Temis e Eurimedonte para Júpiter; Tetis e Oceano para Venus; Rea e Cronos para Saturno; todos guardiões da sucessão do tempo.

Entretanto nesta harmoniosa criação faltava o homem, e então apareceu Pelasgo, que brotou dos dentes de Ofión enterrados nos abismos da Arcádia, percursor de outros, que aclamaram-lhe como chefe. Foi responsável pelo aprendizado de seu povo, pois dele aprenderam a construir choças, a alimentar-se de bolotas das árvores e a coser túnicas de pele de porco.

Deuses e homens se achavam submetidos a seus opostos sexuais femininos e todos rendiam culto a Grande Deusa. A mulher constituía o sexo dominante e o homem era o dominado. Semelhante crença, e sua concepção mitológica foi imaginada por uma sociedade matriarcal onde não se atribuía o papel fertilizador ao varão, mas sim ao vento, a ingestão de sementes e vagens pela futura mãe, ou a deglutição de algum inseto de maneira ritual. Neste caso Eurínome atua como Criadora do Universo a semelhança de Yavé, deus de inspiração masculina. As serpentes, símbolos de Ofión, o princípio fertilizador pela incubação do Ovo cósmico, o espírito vital divino, eram consideradas como sementes de todas as coisas, no processo de Criação, assim liberadas dos elos da matéria inerte pelo poder divino. Simbolizam a imortalidade do espírito.

No Arcano XXI percebemos luz e leveza, uma jovem dança, criando um movimento de vórtice, gerador do mundo. Os braços e a cabeça formam um triângulo, símbolo do princípio criador, enquanto os pés e as pernas cruzadas sugerem um quadrado, símbolo cósmico, o emblema do mundo e da natureza, forma geométrica que simboliza a ordem universal. Na mão esquerda sustém uma varinha, atributo de seu poder sobre a natureza. Na mão direita sustém com dois dedos, um recipiente de forma ovalada que simboliza um filtro. É o filtro criador da ilusão em todos os planos da natureza. Ela significa harmonia, a quietude da terra em forma de semente amarela, uma imagem que reflete os caminhos das estrelas e dos planetas.

Segundo alguns autores a grinalda que envolve a dançarina não representa o uroboros redondo do caos primevo, mas não podemos deixar de intuir, usando nossa imaginação ativa, que suas formas elípticas, e visíveis escamas na grinalda e a figura da dançarina no seu centro, lembram a serpente que come o próprio rabo, ou mesmo o mito de Ofión e Eurínome. Entretanto todos eles concordam que esta forma em elipse  trata-se de uma mandorla. Recorda-nos também uma semente, um ovo, uma vulva, e o movimento dos planetas em órbita. No Arcano o Mundo, a força vital é rodeada pela mandorla, que é ao mesmo tempo seu limite e sua concentração, criando um têmeno sagrado, dentro do qual a dançarina está protetoramente encerrada, separada de tudo o que não é significativo e essencial. Segundo Jung, ela simboliza o eu, centro da totalidade psíquica.

O eu é o centro do equilíbrio psíquico. Quando perdemos contato com a dançarina interior, perdemos equilíbrio. Toda vez que perdemos contato com a natureza, isto é, com nossa natureza interior, sentimos no fundo de nós mesmos, inferioridade. “Estarmos em contato com nosso eu natural, é não nos sentirmos nem inferiores nem superiores”, comenta Jung. A mandorla funciona aqui como uma membrana da semente, um abrigo seguro para o eu renascido, de modo que esta unidade não possa ser facilmente rompida por invasões externas. Ao mesmo tempo contém as energias e protege-as da dissipação. Significa que o eu está plenamente realizado como unidade incorruptível. Os alquimistas chamavam esta fase na Grande Obra de processo de fixação, onde o consciente e o inconsciente estão unidos: o instinto do animal e o espírito imortal fluem juntos como um único ser cuja percepção inclui os dois aspectos.    

A mandorla significa nada menos do que a justaposição de opostos e é descrita como a justaposição do céu e da terra. Não existe ninguém que não seja dividido pelas exigências antagonistas do céu e da terra; a mandorla nos ensina como conseguir a reconciliação. Ela indica o entrelaçamento harmonioso de todos os aspectos do Kosmo, conscientes e inconscientes, para formar um todo contínuo e integrado. À diferença do círculo, a mandorla expressa a sugestão de desenvolvimento futuro. Está diretamente ligada ao Ovo do Mundo, que segundo o mitraísmo produziu o Criador, e ao Ovo Filosófico da alquimia em cujo interior o ouro era incubado e revelado. Ela sugere o número Zero, o arquétipo da emergência; todas as coisas existem em potencial e todos os potenciais são realizados. Sua forma segue o caminho da circulação do Ch’i, a luz criativa em permanente renovação descrita pelos sábios chineses. Seu conjunto no Arcano exprime a eterna dança harmoniosa do Kosmo.    

A dança nasceu como arte sagrada, forma de oração, por cujo intermédio o homem se afina com toda a natureza e com os deuses. Através da dança ritual o xamã põe-se em equilíbrio com o universo, de modo que possa invocar a chuva ou curar pessoas na tribo. Através da dança circular, o dervixe encontra o transe, fora do tempo mortal, harmonizando seu ritmo com o movimento dos astros. Os antigos até mesmo compararam o movimento do universo com uma dança. Em vários mitos ela desempenhou uma função cósmica estabelecendo uma relação entre céu e terra e representava a harmonia universal. Sua forma mais significativa é o deus Shiva hindu, o dançarino cósmico cujas evoluções despertam as energias dormentes para que elas dêem forma ao mundo. Encarnação e manifestação da energia eterna, da força cósmica, geradora e também destrutiva, Shiva dá ritmo ao tempo. Pela percussão de seu tambor que tem na mão direita, ele anima o princípio da Criação.

Na doutrina ortodoxa grega, Sofia (a divina beleza) dança. A antiga doutrina Zen encara toda a vida como dança gentil, cuja arte consiste em nos movermos pela existência comum de maneira natural, integrada e ao mesmo tempo espontânea. Na antiga China, a dança estava ligada ao simbolismo dos números e participava da ordenação do mundo: o chefe devia dançar sobre um pé para fecundar a natureza, porque dançando provocava a subida da seiva. A dança sagrada pode ser um grito de alegria, é antes de tudo uma busca de libertação no êxtase, uma tentativa de identificação com o Uno: as dionisíacas, e as bacanais, dançarinas rituais da Grécia antiga, celebravam os cultos dionisíacos, ligados à seiva e origem primeira de toda vegetação, como um hino à vida. Todas estas danças são a repetição ritual do ciclo do tempo e do movimento em torno do eixo do mundo. Cientistas e físicos afirmam que a matéria existente no universo é composta de partículas que num salto quântico dançam literalmente em diversas freqüências. Micro e macrocosmo, interior e exterior, subjetivo e objetivo, nada mais faz sentido quando falamos de forças primordiais, planetas e partículas cumprindo suas órbitas, é quando todas as dicotomias perdem o sentido.

Todo o universo se move, a Terra ao redor do Sol, o Sol dentro da galáxia, as galáxias em grupos, seguindo suas trajetórias através do universo, deslocando suas massas, um ao redor de outro, aprisionadas pela lei da gravidade. Não existe um centro, um lugar onde possamos dizer, aqui tudo começou ou aqui tudo pára. No entanto este centro existe, em algum lugar, pois, nesta dança, a dançarina não se move em torno de um ponto arbitrário no espaço; ao contrário, a dança encerra seu próprio sentido de unidade focalizado em volta de um centro constantemente em movimento, constantemente sereno. Nada e tudo ao mesmo tempo.

Shiva, Senhor da Dança Cósmica também dança com os braços estendidos, com um pé para baixo e o outro levantado, a cabeça equilibrada e a expressão calma. Seu pé direito, como o da dançarina, está plantado no mundo físico, enquanto sua perna esquerda levantada exprime a libertação da alma. Quando nos integramos à vida, começamos a perceber nossa liberdade. O rosto de ambas as imagens não está triste ou alegre, mas tranqüilo, livre no seu vazio de meditação. Os braços estão abertos à todas as experiências.

Shiva é representado como hermafrodita, possui sua outra metade, Parvati, seu lado feminino. A dançarina de o Mundo também é hermafrodita, com os órgãos sexuais duplos escondidos atrás da echarpe. Ela tem rosto, cabelos e seios de mulher, mas as ancas finas e as pernas fortes dão a entender  tratar-se de um ser andrógino, que combina dentro do corpo os dois princípios. Simbolicamente parece nos dizer que o impulso criativo no coração do Kosmo não pode ser revelado, a unidade que ele representa está além do nosso conhecimento. Este mitema associado a Adão Kadmon, “o homem/ser universal”, hemafrodita, como sendo a Criação original emanada do Deus insondável, encontra-se enraizada entre os gnósticos, em mitologias alemãs, indianas e outras como assunto recorrente. Na cabala é representado como luz pura. Só quando se desintegrou em partes separadas do universo, a luz ficou aprisionada na matéria. Os atuais conhecimentos científicos sobre cosmogonia parecem concordar que no momento da Criação, isto é, o Big Bang, ocorreu a liberação de energia de uma só partícula. No momento que fragmentou-se tudo era luz pura; só mais tarde, à medida de seu esfriamento, com os pedaços mais isolados, a energia condensou-se em matéria. Os mitos consideram o rompimento do Adão primevo um acontecimento irreversível. Seguindo a jornada pelos Arcanos Maiores, tornamo-nos unidos à vida e assim nós próprios adquirimos a integração interior dos opostos. Contemplando a dançarina, aprendemos que o incosciente, o consciente e o superconsciente não são partes separadas e tampouco estágios separados do ser, mas são todos uma única coisa.

A partir deste momento, torna-se o eu uma realidade consciente, sempre presente, que Jung descreve deste forma: “Experimentar o eu significa estar sempre consciente da própria identidade. Então você fica sabendo que nunca poderá ser outra coisa senão você mesmo, que nunca poderá perder-se e que nunca se alienará de si. Isto é assim porque você sabe que o eu é indestrutível, que é sempre um e o mesmo, que não pode ser dissolvido ou trocado por nenhuma outra coisa. O eu lhe permite permanecer o mesmo em todas as condições de sua vida”. Entretanto como Jung deixa claro, nosso contato com o interior não significa estar alienado do mundo ou não sofrer sua influência. Simplesmente acabamos reagindo emocionalmente de modo mais profundo. Jung assim descreve as dimensões do eu: “A consciência ampliada já não é aquele feixe suscetível, egoísta, de desejos, temores, esperanças, ambições pessoais, que precisa sempre ser compensado e corrigido por contratendências inconscientes; ao invés disso, é uma função de relação com o mundo dos objetos, que traz o indivíduo para a comunhão absoluta, constringente e indissolúvel com o mundo em geral. As complicações que surgem nesta fase já não são conflitos de desejos egoístas, senão dificuldades que tanto dizem respeito a outros quanto a nós mesmos. Nessa fase se trata fundamentalmente de uma questão de problemas coletivos, que ativaram o inconsciente coletivo porque requerem antes uma compensação coletiva que uma compensação pessoal. Podemos ver agora que o inconsciente produz essências válidas não só para a pessoa em apreço, mas para outras também, na verdade para grande número de pessoas, e possivelmente, para todos”.

As quatro figuras nos cantos, verdadeira esfinge quaternária, exprimem o estado de desenvolvimento descrito por Jung acima, em que a ampliação de nossa percepção nos permite melhor perceber os problemas coletivos, em relação aos problemas de mero interesse do ego. Só pela análise da presença da esfinge neste Arcano do Tarô, já podemos inferir qual é a função simbólica do homem: Ele é a esfinge, isto é, um ser composto de três animais simbólicos, três forças da natureza, das quais precisa ter consciência e aprender a dominar. Dominar significa sublimar a energia , conseguindo neutralizar as forças negativas e positivas, as da moral e do instinto que existem no ser; figuradas na esfinge pela águia que está em cima, o boi e o leão que estão embaixo de nós. Trata-se, simbolicamente, de eliminar nossas contradições internas, para chegar, cada vez mais, à maior unidade de nosso ser. A esfinge simboliza, através do quaternário, a evolução consciente do homem.

O modelo psicanalítico de Freud é um modelo que mostra a evolução psíquica da raça humana. Seu modelo evolutivo lembra muito a esfinge: de um lado temos nossa vida instintiva, o nosso id; do outro lado temos o nosso superego, produto das introjeições dos valores parentais e sociais. Este superego, em geral rígido, age como polícia interior, como uma justiça cega. O ego será a força reguladora entre o id e o superego. Corresponderá em termos de esfinge, ao homem que, conscientemente, regula a interação da águia de um lado, e do boi e leão do outro lado. Esta correspondência pode ser esquematizada da seguinte maneira:

SERPENTE = LIBIDO
HOMEM( ARCANJO) = EGO
ÁGUIA = SUPEREGO
LEÃO/BOI = ID

A serpente representa a energia, a libido de Freud, que pode ser usada pelo ego em vários níveis. No nível do boi, as pessoas encontrarão os prazeres da mesa, dos sentidos, das relações puramente genitais ou sensuais características do estado vegetativo. Gastar energia no nível do leão corresponde a deixar-se dominar pelas paixões, pela luta competitiva e atividade. Serão pessoas que gostarão de lidar com outras pessoas no plano sentimental, de terem muitos amigos.

Gastar energia no nível da águia é servir aos grandes valores da humanidade: a beleza, a verdade e o amor espiritual. Serão pensadores, filósofos e místicos, serão homens “sublimados” no sentido freudiano. Freud define a sublimação como desvio diante de obstáculos, das pulsões instintivas, sobre objetivos socialmente superiores. Embora a águia seja um nível superior ao leão e ao boi, muitos autores esotéricos consideram que há uma instância superior a estas três categorias. Estas são consideradas como estágios evolutivos.

O quarto estágio se caracteriza por uma tomada de consciência do verdadeiro “eu”. Isto pode ser feito observando, por exemplo, a nós mesmos durante período que comemos, amamos ou pensamos. No momento do despertamento, quando dizemos para nós mesmos: “eu estou comendo, ou eu estou amando, ou eu estou pensando”, é quando desperta em nós a percepção da existência de um ser capaz de conhecer, de conscientizar a nossa atividade instintiva, emocional ou mental, ou melhor na linguagem de esfinge: nosso boi, nosso leão, nossa águia. Este ser é o nosso “eu” verdadeiro.

Com o despertamento do eu, é que se pode iniciar o desenvolvimento do controle voluntário dos três níveis anteriores, isto é, da canalização da energia em atividades cada vez mais superiores, até atingir o estado de iluminação interior, e se possível posteriormente o estado de consciência cósmica.

Este quarto estágio é simbolizado no Arcano, pelo homem ou arcanjo no seu canto superior. A esfinge de Gizé, famosa por sua expressão enigmática, antes de ter sido desfigurada pela ação dos homens e do tempo, tinha uma expressão de felicidade tal, que era o que mais impressionava os visitantes da época. A esfinge foi erigida voltada para o sol nascente, isto é, a fonte da luz, assim como o início do dia. Evolução para iluminação, eis mais um aspecto da mensagem da esfinge do Arcano, o Mundo. Seu aspecto humano.

 Gurdjeff distinguia três vias para se chegar ao quarto estágio. Cada uma destas vias corresponde a um dos “centros” anteriormente descritos:

1)      A via do faquir, que corresponde à luta com o corpo físico. Corresponderia em termos da esfinge, em dominar o boi. Muitos faquires se tornam monges ou iogues.

2)      A via do monge. É a via da fé, do sentimento religioso. Ele passa anos concentrado sobre seu segundo centro, o sentimento. Ele procura encontrar a unidade de toda a estrutura, em torno do centro emocional, do leão da esfinge.

3)      A terceira via é a via do ioga, é a via do intelecto, do conhecimento. É a via da meditação e do silêncio. É a via da águia.

O arcanjo de aspecto humano à esquerda evoca sua ligação com a humanidade. Suas asas vermelhas significam que o homem não pode alcançar este estado de perfeição suprema sem haver passado pela matéria e haver sido tirado dela. Seus braços azuis simbolizam os atos feitos exclusivamente no domínio da alta espiritualidade. A frente da roupa azul , branca de um lado e estriada do outro, representa os atos espirituais do homem, uns manifestos, outros obscuros, desconhecidos dele, porém podem ter um grande alcance.

A águia representa a sabedoria das alturas; quer dizer, o espiritual planejando sobre toda a Criação. Sua penetração nas profundezas da matéria está simbolizada pela auréola vermelha, e sua ação sobre todos os planos, que se interpenetram, por seu corpo de plumas amarelas e suas asas de plumas azuis. O elevado, onde toma apoio, simbolizado pela nuvem, consiste num elemento sutil e não concreto, como uma espiritualidade criada pelo homem e estabelecida como meta.

O leão, de cor amarelo, é o símbolo da força inteligente que preside esta fecundação universal, e que, como o touro, cor de carne, não se trata da matéria passional humana representada pela cor vermelha nas outras cartas, mas a matéria dos mundos, concretização do pensamento divino. Sua auréola amarela, demonstra que esta força inteligente irradia no plano físico.
    
O touro, de cor de carne, é o símbolo da energia geradora do plano físico; não tem auréola, porque está essencialmente ligado à matéria, é o regenerador brutal e sem discernimento. Suas asas significam que sua energia simbólica se estende a todas as formas de vida e a todos os mundos.

Todos estão de frente, menos a águia, que está de perfil à direita com a cabeça voltada à esquerda, implicando uma forte atividade direta, mas demonstrando reflexão para a inspiração antes do vôo.

A águia simboliza, para os antigos, o deus vigilante, equivalente ao “Olho que tudo vê”, a vida penetrante a quem nada escapa em razão de sua vista privilegiada. Segundo personagem da tríade solar, era o único pássaro capaz de olhar o Sol de frente. Em todos os lugares é “o pássaro de fogo”, o mensageiro entre o Sol e a terra, entre os deuses e os homens, a encarnação das grandes divindades, de Zeus/Jupiter cujos raios ela traz entre as garras, Vishnu, Hórus, o deus-sol dos egípcios, representado com cabeça de águia, que vence as trevas. Pelas mesmas razões foi escolhida a águia para simbolizar São João Envangelista, que ousava olhar o céu de frente. Suas asas segurando o disco solar simbolizam a ressurreição, na Caldéia, na Síria, no Egito e em Yucatán, no México. Na alquimia ela representa o elemento água.

Na Síria e em Roma, a águia elevando-se aos céus torna-se psicopompo, o condutor da alma dos mortos, o mensageiro da ressurreição, ilustrando a descida de uma parcela da consciência divina no indivíduo e seu retorno à Deus. Certa vez, uma águia escapou do alto da pira onde se devia incinerar a efígie de César, a fim de levar em seu vôo até a morada dos deuses a alma do novo divinizado. Isto explica sua presença nos monumentos funerários com a coroa, promessa de vida eterna após as provas desta vida. Esta águia tumular é o Cristo que eleva as almas e as conduz para o Céu. Nas igrejas medievais representava a Ascensão de Jesus. Assim ela representa também a eternidade, a contemplação das coisas eternas para o cristão. Está associada a São João, visto seu interesse especial pela inspiração e natureza espiritual do Cristo.

No Baghavad Gitá o Verbo Divino disse que entre as aves Ele é a águia. Nos Vedas encontramos a afirmação de que “a luz divina, o olho da águia jamais envelhece”. Foi a águia que se apoderou do Soma hindu e o levou para os deuses. Para os hindus era a ave de Vishnu. Ela representou um papel importante na mitologia japonesa, asiática, e ameríndia.

No seu mito, Prometeu representava o aspecto involutivo do homem e a águia o aspecto evolutivo. A águia que cai é portadora da luz ( etimológicamente, Lúcifer) sobre a terra.

Significava o poder do império entre os romanos, de onde a expressão águia imperial. Em razão disto foi escolhida como emblema de nações poderosas e aparece nas moedas de muitas nações.

Na tradição Ocidental, é investida do poder de rejuvenescimento: expõe-se ao Sol até que sua plumagem fique brilhante, depois mergulha na água pura e reencontra sua juventude, imagem da iniciação e da alquimia implicando a passagem pelo fogo e água. O esoterismo alquímico representava a desmaterialização, o vôo da alma, a libertação da gravidade por uma águia devorando um leão.

Nos sonhos, simboliza pensamentos elevados, mas também, segundo o contexto, a vontade de poder, o orgulho devorador.

Resumindo o simbolismo da águia, podemos fazê-lo do seguinte modo: inteligência, acuidade mental, poder, evolução, veículo de luz divina ou solar e, sendo representante de Deus, simboliza também o poder de impor a lei e definir o que é o bem e o mal, dominação dos instintos, liberdade.

Nossa civilização Ocidental perdeu totalmente a tradição simbólica da serpente, a não ser como a tentadora de Eva ou como animal traiçoeiro que morde quando a gente menos espera, ou ainda símbolo fálico da sexualidade. Entretanto a serpente aparece em todas as antigas civilizações sob diversos significados.

Símbolo de vida e de vigor porque possui a propriedade de mudar de pele, reencontrando assim a aparência jovem, ela acompanha as divindades mitológicas que presidem à saúde: Esculápio, deus curador, encarnação da vida interior e psíquica, símbolo da renovação perpétua da vida. Duas serpentes enroladas no caduceu de Hermes representam as correntes ascendente e descendente das forças universais. Associada na Bíblia a árvore da vida e do conhecimento, é encontrada em baixos relevos caldaicos guardando a árvore da vida, junto com esfinges e seres antropomórficos.

Em seu papel protetor, é uraeus, encarnação da deusa Buto do baixo Egito, que cospe fogo para defender os que a carregam. Figura em companhia do abutre, símbolo do alto Egito na coroa dupla do faraó, circula a roda solar alada como símbolo da força criadora energética. Sua presença na frente da testa dp monarca já é um sinal deste simbolismo.

Exerce também a função de psicopompo, protegendo o defunto contra seus inimigos no curso de sua viagem ao além. Há uma ilustração no Livro dos Mortos egípcio que mostra uma serpente saindo do corpo do defunto e voando no espaço, representando a energia que deixa o corpo guardado pela esfinge. Aparece também na cabala como símbolo da morte, de Satã, que se encontra reunido à serpente da vida, seu oposto, a Anfísbena. Esta figura tem uma cabeça em cada extremidade; uma branca, alada e coroada representa o iniciado que através de um sério trabalho interior, liberou o volátil do fixo, venceu sua natureza inferior purificou-se das impurezas, figuradas pela cor negra da outra extremidade. A torção central representa o sofrimento implicado pela busca obstinada da espiritualidade.

Reencontra-se o motivo da serpente como símbolo da Terra no Livro dos Mortos dos egípcios e associada à criação entre os maias: a ligação céu-terra da qual nasce a humanidade é sintetizada pelo Pássaro-Serpente ou Serpente Emplumada Quetzcoalt, presente na iconografia sob o aspecto de uma ave de rapina enfiando suas garras no corpo de uma serpente para extrair sangue destinado a formar o corpo do homem civilizado. Já os astecas o adoravam como símbolo do poder supremo do Espírito único que permeia todas as forças do universo.

No processo da Criação, como vimos, rodeando o Ovo Cósmico ( o caos ), simboliza a fecundação pela incubação do espírito vital divino, da semente de todas as coisas, liberadas dos elos da matéria inerte pelo poder divino. Símbolo da imortalidade, enrolada em torno da árvore de maçãs de ouro do jardim das Hespérides; rodeia o Ônfalo, ou a montanha cósmica ( eixos do mundo), simbolizando o conjunto de ciclos da manifestação universal, o Samsara, a cadeia do ser no ciclo de renascimento, o percurso indefinido e renovado das existências na reencarnação.

A serpente-kundalini da hata-ioga representa a energia cósmica e sexual, o poder vital ou libido adormecido no chacra do púbis, que deve ser despertado, vitalizado e dirigido ao chacra do cume da cabeça ( sublimação da libido, união em Deus ), passando pelos centros vitais intermediários. Sublimação que comporta numerosas tentativas e fracassos.

Na Índia, Vâsuki, rei das  serpentes, é um símbolo do saber e da inteligência; nas epopéias, as serpentes são de descendência divina e a serpente Cesa da mitologia é assimilada a Ananta, serpente estendida sobre as águas, personificação da eternidade que forma com Vishnu Nârâyana, a tripla manifestação da energia cósmica, una e imperecível.

Na China, a Serpente (she) é um dos quatro animais venenosos, o quinto signo do zodíaco associado ao Sul, à Primavera e ao Fogo. Simboliza a astúcia, a maldade e a dissimulação. Os anos da Serpente são caracterizados pelos contrastes: favoráveis nos negócios astuciosos, ao comércio e à indústria, à regularização dos conflitos, à vida sentimental, mas também aos negócios de Estado, escândalos, calamidades e surpresas de todas as espécies.

Em sua relação com o inconsciente coletivo, o ofídio simboliza num nível inferior a agressividade, e num nível superior o poder e a sabedoria. É a representação do inconsciente, onde se acumulam todos os fatores rejeitados, recalcados, desconhecidos ou ignorados e as possibilidades desmedidas em nós.

Na antiga simbologia, o leão representa o poder destruidor do Sol, tão necessário para manter a harmonia do universo quanto seu poder gerador, era sempre associado a uma divindade para representar o poder destrutivo dela. É o caso da deusa Sekmet, representada com cabeça de leoa, no templo de Ptah, no Egito, símbolo de sua capacidade destrutiva e crueldade. Na alquimia representa o elemento fogo.
 
O leão já dissecado antes no Arcano a Força, simboliza a realeza, ou a nobreza de alma como em “Ricardo Coração de Leão”. No Egito, existia uma relação estreita entre o deus Sol e o leão, símbolo da força, emblema da alma e da incandescência. O penteado dos faraós era representado por uma juba de leão. Bastaria lembrar aqui, quase como lugar-comum, o “leão da judéia”. No Bhagavad Gitá, o Verbo Divino afirma que entre as feras, Ele é o leão. O leão entre os cristãos representava sua coragem provinda da fé. No antigo Egito ele simbolizava a impulsividade. São Marcos era representado por um leão, pois era a fogosidade da voz que pregava no deserto. Era também considerado como símbolo de Rwty, um deus guardião egípcio. Na Índia, Buda era chamado o Leão da Lei, ou Leão dos homens; seu trono é o Samhâsana, assento sagrado apoiado em 4 ou 8 leões. Um casal de leões, no túmulo de Tutancamon, simbolizava o hoje e o amanhã, o que é uma outra interpretação atribuída a este animal, visto quase sempre como símbolo solar. Além disso, ele fecha os olhos quando está acordado e os abre quando dorme, sua cabeça simboliza vigilância e guarda; é por esta razão que se colocavam os leões nas portas dos templos como guardiões.

Da mesma forma, nos bestiários medievais figura como símbolo da prudência, porque sua firmeza está em sua cabeça, sua coragem em seu peito, e porque sua fronte e sua cauda manifestam seus sentimentos. No Ocidente, orna o trono dos reis e o portal das igrejas para representar a justiça real ou eclesiástica, conforme o caso. Nos brasões, personifica a coragem e a generosidade, a nobreza e a força.

É a força da energia divina e o símbolo do poder espiritual; Vishnu se metamorfoseou em leão; Cristo e Krishna são comparados ao rei dos animais. Na China, o leão (shi-ze) é um animal celeste que serve de montaria para Mansjuri, o Boddhisattva da sabedoria. Na alquimia esotérica, o leão vermelho é o ouro dos alquimistas.            

O leão é freqüentemente representado em frente ao coração humano, o que reforça seu valor simbólico emocional. Sob seu aspecto noturno, ele representa o poder da libido, a agressividade, a necessidade de dominação brutal, a suscetibilidade, e o egoísmo.

Nos sonhos representa energia psíquica indomável, a presença de uma energia imperiosa que tenta forçar uma passagem para uma nova personalidade, mais disciplinada nos seus instintos.

Símbolo ambivalente de força poderosa e ágil, ilustra a força moral, a coragem, a impulsividade, o coração, quer dizer nossas emoções. A imagem do leão evoca o orgulho, a necessidade de criação. Símbolo viril, expressa a imagem do pai. Em nossa “cova dos leões”, no cerne de nossos instintos desenfreados, temos que colocar à prova, de forma permanente, nossa qualidade de “domadores”, unicamente pela irradiação de nosso pensamento.

O touro é o símbolo do poder e da força criadora divinas: o touro selvagem quebrando o Ovo Cósmico do caos com seus chifres simbolizava outrora o Criador liberando as sementes fecundas dos entraves da matéria inerte. Na iconografia à cabeça do animal eram acrescidos os orgãos geradores, indicando a aplicação do poder do Criador à criação dos seres sensíveis. Na alquimia representa o elemento terra.

Segundo Jung, o touro e o boi simbolizam o instinto e a animalidade. Na Índia, ele se associa à vaca como símbolo masculino e feminino, gerador e nutritivo, do poder da divindade. Nos Vedas, Indra e Soma também eram representados por um touro nos textos sagrados. Ora Indra era o deus dos combates e Vrishabha, masculino e poderoso é assimilado ao Soma que era ao mesmo tempo uma bebida extasiante da imortalidade e um deus ritual, Pai da abundância, touro supremo, coberto em toda variedade de sua manifestação. Cada pé do touro figurava uma era (yuga) do ciclo total (maha-yana) e em cada era ele perde um pé. Shiva tem por montaria o touro Nandhi, símbolo da justiça, da força e da lei (dharma).

Este touro é o bisão na América do Norte, símbolo do universo, da totalidade das formas manifestadas na mitologia dos Sioux, encarnação animal do princípio Terra manifestada na terra visível. Cada uma de suas partes corresponde a uma categoria da Criação e seus pés às quatro idades cósmicas. Localizado a Oeste, ao início do ciclo, ele retém as águas que ameaçam a terra. Cada ano, perde um pêlo e em cada era cíclica, um pé. Quando perder todos os pêlos e pés, as águas inundarão a terra, será o fim do ciclo, segundo o mito.

Símbolo da virilidade, da força geradora da natureza, o animal representava o Nilo, agente da fecundidade do Egito. Uma cauda de touro era enrolada nas costas da cintura dos faraós, isto até o império romano. O touro Onufis era consagrado à Amon, gerador e passava por encarnação de Osíris, deus da ressurreição e a vaca Masré, geradora do Sol, era atributo de Neith, mãe do deus Fré (o Sol). O touro Ápis, portador do disco solar entre os chifres, cultuado em Mênfis, era um símbolo de fecundidade e proteção dos rebanhos, associado a Osíris. Encarnava o deus Ptah. Nos monumentos egípcios, ele designa a força e o poder.

Para certos autores esotéricos mais recentes, o boi representa São Lucas, por ser um animal de sacrifício e porque o santo iniciou seu relato bíblico pelo sacrifício oferecido por Zacarias. Representa também o sacrifício e a renúncia do cristão.  

Símbolo da fecundidade, nas civilizações arcaicas associa-se às divindades atmosféricas: seu mugido é assimilado ao furacão e ao trovão; seus chifres à lua crescente.

Nos sonhos reúne a simbologia do vermelho e do sangue e encarna forças naturais poderosas, em particular as sexuais, prontas para ação, mas que devem ser controladas porque o sonhador arrisca-se a ser vítima delas. Sua imagem encerra uma impulsividade cega e indomável.

Em suma, o touro e o boi simbolizam o instinto agressivo e sexual, o trabalho físico, a obediência, o sacrifício e a renúncia.

Convém lembrar ainda a característica fisiológica evidente do boi como ruminante, isto é, animal essencialmente digestivo. Esta particularidade será importante quando reconstituirmos a simbologia da esfinge no Arcano XXI.

De qualquer modo, como demonstra em particular Jung, ao referir-se à sua experiência de psicanalista em especial na análise de sonhos de seus pacientes, na maioria das vezes os animais representam nossa vida instintiva, nossa “animalidade”  como expressa, aliás, o próprio nome. Podemos ainda citar La Fontaine que afirma que, quando Prometeu quis formar o homem, tomou a qualidade dominante de cada animal, e dessas peças diferentes compôs nossa espécie. Outros autores no passado já colocaram em relevo animais como símbolos de virtudes ou vícios. Na antiga tradição oculta animais simbolizavam ao mesmo tempo um deus e uma de suas características principais da espécie. Por exemplo: o cachorro ( ou chacal domesticado ) era o símbolo do deus Anúbis, que guardava fielmente, como um cão, o mundo dos mortos.

No Sepher Hazoar da cabala, encontramos verdadeiro tratado de caracteriologia biotipológica. Destacamos um trecho encontrado no texto esotérico sobre os animais em questão figurados no Arcano XXI: “Os traços gerais transmitidos pela mãe formam quatro tipos gerais: cara de homem, cara de leão, cara de boi, e cara de águia”.

Só pela análise da presença da esfinge no Arcano XXI, já podemos imaginar que expressam a função simbólica do homem. Ele é a esfinge, isto é, um ser composto de três animais simbólicos, três forças da Natureza,  das quais necessita ter consciência e aprender a equilibrar e dominar. Equilibrar significa sublimar através de técnicas conscientes a energia, conseguindo neutralizar os impulsos positivos e negativos, os da moral e do instinto que estão em nós representados  pela águia que habita em cima, o touro e o leão que estão em baixo de nós. Trata-se, de maneira dialética, de eliminar nossas contradições internas, para, cada vez mais, alcançar maior unidade de nosso ser. A esfinge, através do quaternário, simboliza a evolução consciente do homem.

Temos diante de nós uma concepção estrutural do homem, e ao mesmo tempo evolutiva. Estrutural porque pressupõe que além da mente, da emoção e do instinto, que seriam os três inconscientes do homem, existiria uma função de conhecimento e de controle. Evolutiva, pois esta consciência e este domínio constituem um caminho para alcançar estágios de percepção mais evoluídos. O caminho do equilíbrio para alcançar à iluminação ou Samadhi.

O anjo, ou ser celestial, na alquimia representa o elemento ar, Aquarius, a relação ideal, a busca da verdade, a fraternidade universal e a interação entre o perfeito conhecimento e a forma perfeita. Está associado a São Mateus, e aparece na forma humana porque São Mateus deu destaque a genealogia do Cristo. Ele expressa este ideal de autoconhecimento e individuação do ser que se ilumina.

No “Texto das Pirâmides”, a esfinge é mencionada sob o nome de Rwty ( deus-leão ), que era um deus guardião associado a Atum ou Tum, no Livro dos Mortos do Egito. Este deus-guardião presidia as cerimônias de iniciação. Hassan encontrou em suas escavações em torno de Gizé inúmeras tabuletas com desenhos de esfinges associadas a orelhas. Pareciam simbolizar a tradição iniciática oral, as quais, como se sabe, compreendiam em buscar a “iluminação” através de estágios de evolução sucessivos, ou metamorfoses. Nestas metamorfoses o iniciado ( ou o morto ) assumia o papel de vários animais-deuses, depois de ter rechaçado vários monstros e demônios. Entre os animais representados figuram o leão, o touro, a serpente, o falcão, além da andorinha e do crocodilo.

O “Texto das Pirâmides” demonstra-nos que a esfinge é ao mesmo tempo, uma representação divina ou deus guardião, um modelo de estrutura psicossomática, da estrutura cósmica, e ainda mais, um guia imortalizado nas ruínas dos antigos templos sobre o caminho para se alcançar o quarto estágio evolutivo através do domínio do “monstro animal”, visando chegar à iluminação. Jung reforçou inúmeras vezes o simbolismo de heróis que matam animais ou monstros. Segundo ele, trata-se de um arquétipo da luta do homem contra sua libido, contra sua porção animal. Na mitologia universal encontramos vários mitemas semelhantes, onde o herói destrói monstros e transcende sua própria existência, de homem mortal para deus consagrado. Gilgamesh, herói sumeriano, considerado um rei sacerdote, um iniciado, após a morte de seu amigo inseparável Enkidou, vitimado pelo touro celeste enviado pela ciumenta deusa Ishtar, saiu em busca da imortalidade no mundo do além. Foi impedido por uma serpente no seu intento de capturar a planta da eterna juventude. Mais uma vez encontramos o significado esotérico, isto é, oculto neste mito milenar de que para encontrar a árvore da vida é preciso realizar longa jornada e vencer as bestas exteriores, reflexos de nosso próprio instinto. Além disso, para chegar à iluminação e alcançar a imortalidade é preciso ainda dominar o poder da serpente Kundalini.

Após pesquisa realizada dos principais mitemas encontrados na mitologia universal distinguimos três situações, cada uma passível de uma interpretação particular:

1)      O guardião do jardim impedindo o herói de prosseguir, representando o superego que impede o ego de realizar a sua parte instintiva do id, segundo a conhecida interpretação freudiana elaborada no nível do inconsciente individual.

2)      O dragão, que faria parte do inconsciente coletivo e representaria a mãe, que mantendo o filho numa ligação incestuosa o impediria de chegar à plenitude de um amor normal. Arquétipo este já representado no Arcano VI, o Enamorado, carta que simboliza, entre outras coisas, indecisão. Este personagem draconiano comum do folclore não impede o acesso ao jardim, mas impede a “subida” do herói, isto é, impede o ser de escolher  livre e conscientemente novos objetivos de investimento da libido. Na verdade, estamos falando não somente da relação incestuosa tomada como obstáculo, mas sim de todas as barreiras instintivas interiores que impedem o ser de realizar o “si-mesmo” (self), isto é, o ideal do ego, estruturado das imagens positivas do pai e da mãe. Sendo assim o “tesouro” protegido pelo dragão, é, na realidade, um tesouro espiritual. Assim o id passa ser a instância de recalque do “si-mesmo”. Para chegar até o “si-mesmo”, é necessário vencer o animal guardião.

3)      Quando o herói chegou até um certo estágio de sublimação, então surge outro obstáculo, sua ascensão. Não é mais um dragão, mas um ente benevolente e firme que impede o prosseguir. Desta vez trata-se de seu ego, consciente, percebendo que para dar mais um passo para uma vida mais completa, mais profunda, terá de renunciar a certos velhos hábitos, ou paradigmas. É a recorrente resistência do id através do ego consciente, para impedir este ultimo de alcançar o sublime. Recalcamos o sublime assim como recalcamos o que nos parece ignóbil.

Os quatro seres montam guarda e testemunham a dança do Kosmo. Juntos formam um quadrado que contém, no interior, a mandorla. Vista globalmente a carta é em sua essência um círculo dentro de um quadrado, reunindo assim a realidade terrena e a natureza celeste, o desenvolvimento presente e o potencial futuro. Na alquimia, o milagre da autocompreensão, a união harmoniosa da verdade terrena e celeste, denominava-se “a quadratura do círculo”. Significa a idéia de que o impossível, pela graça de Deus, se realiza, que o misterioso pode, de fato, ser incluído na realidade física representada pelo quadrado. Atualmente cientistas e filósofos atingiram uma visão cosmogônica semelhante aos antigos alquimistas, uma síntese do Kosmos, muito próxima ao intuído pelos místicos, a partir da observação dos fenômenos ocorridos no micro e macrocosmos.

Na física moderna, o princípio da Incerteza de Heisenberg rompeu todos os limites fixos de nossa percepção da realidade, como entes observadores do universo, e se reflete o novo conhecimento de maneira surpreendente na linguagem filosófica da ciência, antes reducionista. Visto a aceitação atual de que partículas subatômicas, componentes da matéria, não podem ser definidas com exatidão no tempo e no espaço, dizem hoje os físicos que tem “tendência para existir”. Seguindo tal raciocínio chegamos a conclusão ultima e lógica, à aterradora compreensão de que nós temos “tendência para existir”. Nossa partículas estão em absoluta interação com o universo composto de matéria primordial. Interagimos com o meio através da respiração, da alimentação, transformando matéria em energia, transpiração e eliminação, proveniente de nossos corpos aparentemente sólidos, com o todo que nos cerca. Nossa existência como entes individuais passou a ser mais do que um fenômeno determinado pelo acaso, mas também uma tendência de ordenamento da mente cósmica sobre a matéria.

Nesta seqüencia: matéria, bios, nuos (espírito), o Kosmo encadeia seu processo evolutivo como espiral ascendente em direção a fonte, o cerne da luz que deu origem a obra, a semente inicial que progride junto com sua criação em busca do “si-mesmo”.

Com esta lâmina chegamos ao fim da jornada pelos Arcanos Maiores. Como O Louco, que no Tarô de Marselha representa o número zero, não possuí lugar determinado, trata-se no total de 21 estações arquetípicas, que lembram as grandes odisséias contadas em prosa em verso. Nos mitos e contos de fadas esta última carta representa o final feliz: o reencontro do paraíso. A unidade, perdida desde o início da jornada, representa nosso mais profundo anseio, mostra-se novamente sem apagar a fecunda tensão de polaridade que nos arroja ininterruptamente adiante.

A dançarina no centro, bissexuada, não nega a oposição dos sexos, mas combina-se no Uno, integra todas as polaridades encerradas na mandorla, a elipse que os envolve, o círculo impossível que cerca os dois focos.

A vida não deve ser vivida como um fardo a ser carregado, devido ao seu absurdo, sua desarmonia, como às vezes parecemos perceber, mas precisamos integrar e aceitar em nós mesmos todas as oposições e diferenças como uma tensão fecunda: eis o significado desta carta.

A dança da figura central, que pela sua pose lembra o Enforcado invertido, aqui está posicionada de forma apropriada. Após longo processo de amadurecimento através das 21 estações, ela encontrou seu lugar no mundo e consegue aceitar e aproveitar a vida. Sua diferença em relação aos contos de fada com  final feliz, é que esta situação não dura para sempre. Novo ciclo logo se reinicia com O Mago, a carta número 1 (um). Apesar das experiências da nova jornada se assemelharem, não se trata da mesma viagem. Não é o círculo eterno em que somos aprisionados, mas uma espiral que permite que nos elevemos cada vez mais.

LXXXI – O CAMINHO DO CÉU.

As palavras verídicas geralmente não são agradáveis.
As palavras agradáveis nem sempre são verídicas.
Os homens bem informados jamais discutem.
Os que discutem estão mal informados.
O sábio não é necessariamente instruído.
O instruído não é necessariamente sábio.
O sábio não acumula para si próprio
mas serve a todos e assim tudo possui.
Dá tudo que tem aos outros
conquistando o que nunca desejou,
e assim alcança a abundância.
O Caminho Perfeito conduz ao Céu de Tao
que abençoa sem jamais ferir
e não conduz a qualquer mal.
O sábio segue o Tao,
pratica a inação e busca a perfeição
sem atritos.

É absurdo comentar tanto o que não pode ser comentado, mas que tem de ser vivido e visto por cada um. Afinal, as palavras são simples conceitos que nada conduzem senão a um emaranhado de maior confusão. As palavras verídicas geralmente não são agradáveis, pois estamos sempre como filhotes de passarinhos, esperando que nos coloquem a comida na boca. Não vamos intentar empregá-las neste fechamento porque carecemos ainda de toda a sabedoria e duvidamos que alguém consiga melhor intento. Não é possível alguém conseguir que outro respire por si. Também não pretendemos uma seqüência lógica neste trabalho, que só agora se inicia. Lembramos este velho provérbio chinês para reflexão:

“O TAO É O CAMINHO, MAS TAMBÉM A FONTE, A VIAJEM, O VIAJANTE E O OBJETIVO” 
                                                           


Arcano 0 (ZERO) – O LOUCO.

Conforme a tradição oculta esta lâmina representa a inconsciência, aberração, perturbação, loucura. Este Arcano é representado como o sentimento resultante de toda a falta. O Arcano, no plano intelectual exprime indeterminação devida a múltiplas preocupações que se apresentam e outras ocultas que permeiam a inconsciência. No plano espiritual significa vicissitudes de sentimentos, incerteza nos compromissos, sentimentos vulgares, sem duração. No plano físico, falta de ordem, falta de palavra, abandono voluntário de bens materiais, insegurança, partida ou mudança.

Na lâmina figura um louco, carregando uma sacola cheia de objetos sagrados, antigos símbolos cujo valor ignora. Ele os guarda por temor supersticioso, porque lhe foram legados pelos pais. Na ilustração caminha sem inquietar-se em direção a um precipício onde um crocodilo deve devorá-lo, com um cão que lhe adverte a inconsciência mordendo sua perna. O cão simboliza um plano de vida inferior, instintivo, que tenta alertar o pobre andarilho, e busca elevar-se no seu entendimento seguindo o homem na sua jornada, e também significa o entendimento do ente humano acima do plano animal, não esquecendo que faz parte do mesmo reino e que deve influenciar a evolução de todas as criaturas inferiores ao seu redor.

Ao não haver alcançado o apogeu de sua evolução o homem deve percorrer sua jornada através de vidas sucessivas como um vagabundo indiferente que vagueia pela manhã. Seu destino enquanto ente humano deve ser-lhe oculto, porque justamente a esperança de uma vida sempre melhor é que o estimula percorrer o distante caminho da reencarnação e cumprir seu registro Akáshico.

Mesmo a carta colocada na seqüência no final do jogo, não deve ser encarada de maneira tão pessimista quanto querem os ocultistas do séc. XIX.,  pois a lâmina representa não o ente relativo que, havendo observado o livro de todas as possibilidades humanas, de tudo que lhe cabe, de todo o caminho que deve percorrer, fatalista, sofre o desalento da jornada, e sim, pelo contrário ao homem que regressa em cada nascimento com o esquecimento do que foi e a ignorância do que será. Querem alguns ocultistas que o Louco representa uma conexão entre os Arcanos Maiores e os Arcanos Menores, interpretando estes últimos o homem em sua atividade diária. Mesmo caminhando como um vagabundo através das muitas vidas, sua marcha, não obstante, é sensível e inteligente, não só por si mesmo, mas também por estar dirigido pela inteligência divina. Este Arcano representa ao homem avançando no caminho da evolução, sem descanso, vivendo suas contradições, levando o peso dos seus conhecimentos, bons ou maus, hipnotizado, mergulhado nos seus pensamentos, suas preocupações do momento ou escravo de seus instintos inferiores, até que haja sabido fazer realidade o equilíbrio manifestado no Arcano XXI, O Mundo.

O Louco é um andarilho imortal. É considerado o mais poderoso dos trunfos do Tarô. Sua designação o Zero, não tem posição fixa, perambula através dos demais Arcanos com insuspeitada sem cerimonia. Na vida real, com sua trouxa e seu cajado pode ser visto vagando por qualquer cidade moderna do mundo. Este personagem, o jovem andarilho faz parte de nosso inconsciente, representando um aspecto de nós mesmos. Não podemos deixar de reagir emocionalmente a ele de alguma forma. Alguns se sentirão imediatamente atraídos pela figura gaiata, imagem da liberdade despreocupada da juventude, outros rejeitarão a personagem, até mesmo com hostilidade,  em nome da própria segurança que não pretendem colocar em jogo. Nossas reações ao Louco serão, ao natural, tantas e tão variadas quantas forem as personalidades e experiências de vida dos que se defrontarem com ele. Mas justamente a questão está em que o ser tocado por um arquétipo sempre terá uma reação emocional de alguma espécie. Explorando esses personagens inconscientes, podemos localizar o arquétipo que está nos manipulando e extirparmos, até certo ponto, a compulsão. Assim, quando em nossa realidade externa nos depararmos com essa figura arquetipica, nossa reação não precisará ser irracionalmente hostil.

Ele sobrevive através dos séculos em nossas cartas de jogar, onde é chamado de Coringa. Nos jogos que participa tem atributos especiais, muitas vezes superiores as demais figuras do baralho. Quando perdemos uma carta, pedimos ao Coringa que a substitua, ao que sua figura se adapta muito bem. Outras vezes, quase sempre permanece sem propósito manifesto, apenas como mascote do baralho, parte da corte real com seu bobo. Na antiga Grécia era bom presságio e afastava o mau olhado ter um bobo em casa. Sua permanência no baralho pode ser similar, como proteção, filtrando os poderes diabólicos das “figuras do diabo”.

Como o Coringa, o Louco se encaixa em qualquer lugar do baralho, em combinação com e entre qualquer dos outros Arcanos, integrado como força animadora que dá vida às imagens estáticas. Entre os Arcanos Maiores se encaixa em qualquer lugar onde haja uma transição difícil. É necessário a coragem do Louco para atingir novas etapas em nossa existência. Seu sentido combina e se confunde com os Arcanos A Lua e A Morte, de transição difícil. É quando impele nossas energias para frente apesar dos nossos medos. Entre os Arcanos Menores, o Louco se relaciona em primeiro lugar com os Bastões – ação, pressa, movimento irrefletido. Da mesma forma, entretanto se relaciona com Copas, com sua ênfase na imaginação e no instinto. O Louco de fato combina estes dois naipes, como elementos fogo e água, representantes do caminho alquimico da transformação.      

Mais conhecido na dramaturgia, o bobo shakespeariano, alter ego do rei, na peça Rei Lear, personagem a quem era permitido dizer ao rei verdades que ninguém mais ousaria exprimir, parece simbolizar uma sabedoria real não alcançada pelo próprio Lear até o final da peça.  Ele personifica a essência central da psique, a força condutora que Jung denominou “eu”. Na seqüência dos Arcanos do tarô, o Louco representa papel semelhante, e se agita pelo palco da existência com seus embrulhos malucos, surgindo de onde menos esperamos, de forma tragicômica, provocando mudanças interiores com suas intervenções não programadas. Hoje em dia, nossos comediantes e humoristas gozam desse mesmo privilégio.

No Tarô de Marselha podemos fazer muitas conjecturas sobre a natureza da advertência canina. De qualquer maneira, o Louco se acha em tão estreito contato com seu lado instintual que sua natureza animal guia-lhe os passos. Utiliza-se de sua sabedoria intuitiva em lugar da lógica convencional. Agindo antes por introvisão do que por visão, sua abordagem da vida, expontânea e pouco convencional  combina sabedoria, desatino e sandice. Nem sempre tais ingredientes misturados funcionam da maneira correta,  às vezes gerando confusões razoáveis.

Em muitos países com antigas tradições católicas e puritanas, um carnaval anual acontece para dar vazão a todas as loucuras reprimidas pela sociedade durante o resto do ano. O sexo é liberado, como nas antigas festas pagãs, várias leis são suspensas, as pessoas andam fantasiadas e mascaradas e um Rei dos Loucos é escolhido para presidir o festival. Ainda hoje, na Europa e na América do Norte, o dia primeiro de Abril continua sendo “O dia do Louco de Abril”, um dia dedicado a truques e trotes. 

Enquanto nossa mente consciente e reflexiva pode ser super cautelosa, nosso Louco interior nos impulsiona para viver. Necessitamos desta energia para jogar o verdadeiro jogo da vida. Na lâmina ele caminha para a frente, mas olha para trás, conectando a sabedoria do futuro à inocência infantil passada. Inconsciente e não dirigida, sua energia parece possuir um propósito próprio, fora do espaço e do tempo. Seu semblante intacto através dos séculos simboliza o espirito da eternidade, os ventos da profecia e da poesia.

Se o Arcano o Louco é o primeiro ou o último  na seqüência do tarô não tem a menor importância. Não é considerado pelos grandes ocultistas da atualidade nem como uma coisa ou outra. São as duas coisas ao mesmo tempo. Pois sendo um personagem em eterno movimento, perambula através dos outros Arcanos todos os dias, unindo princípio e fim num fluxo interminável.

Suas roupas maltrapilhas e coloridas sugerem a união de vários opostos. Suas cores variadas e seu desenho fortuito indicam um espírito discordante, uma ponte entre o caos do mundo inconsciente e a ordem do mundo consciente. Ele sempre é retratado nos mitos como anti herói, contra os poderes estabelecidos, subvertendo valores tradicionais. Suas idéias extravagantes, sua incapacidade de manter as coisas transparece nas calças que caem; mas talvez não seja tão inconsciente assim quanto aparenta. A flor vermelha que representa a espiritualidade se agita, significando que além das aparências, ele superou a materialidade, escapou para maya dos desejos e ilusões e que agora marcha para o infinito das possibilidades. O Louco abarca todas as possibilidades, libertando nossa percepção e livre arbítrio. As alternativas viáveis para a luz coagulada na matéria evoluir, trilha para o homem chegar até Deus, ou roteiro macabro para a destruição nuclear do planeta.

Existem muitas possibilidades menos dramáticas de admitir o Louco em nossa vida. Uma delas é reconhecer abertamente nossa própria loucura. Quando em situações de conflito reconhecemos nossa loucura, desarmamos os ânimos, muitas vezes deixando o outro falando sozinho e brandindo o punho no ar cheio de raíva. Não encontrando resistência o antagonista fica com a cara no chão. O mais significativo é a energia que desperdiçava-mos antes defendendo nossa própria estupidez é agora liberada para um emprego mais criativo. Toda vez que admitimos a influência  do Louco em nossos conflitos, a hostilidade pode ser transformada em comédia, e todos os participantes acabarem em risos, diante da insensatez humana.

De modo geral, o Louco é um bom personagem interior para consultarmos quando nossos planos pessoais fracassam. Nestas ocasiões ouviremos dizer gaiatamente – “Quem não tem meta fixa nunca perde o caminho”. Herman Melville, em Moby Dick, pelo contrário, advertia de forma conservadora seus leitores a não darem um passo sequer fora do caminho comum traçado pela sociedade. Para a sociedade, o caminho do Louco, instinto em vez de regras, é uma perigosa insanidade. Você se arrisca a não voltar. Quem estiver disposto a correr o risco, o salto pode proporcionar alegria, aventura e para quem tem coragem de continuar, quando nem tudo são boas fantasias, o salto pode significar conhecimento, paz e libertação.

Em todos os tarô o Louco caminha com um companheiro animal, símbolo das forças da natureza e da parte animal do homem, em harmonia com o espirito que age a partir do instinto. Renegue seu “eu” interior e ele se torna feroz como um monstro mitológico. Conviva com seus instintos e seu “eu” se tornará manso.

O Louco como um vagabundo leva com naturalidade casual um bastão ao ombro, para carregar seu saco. Na verdade assim faz sem perceber que é um cetro, ou varinha mágica, símbolo de poder. Para o Louco, inconsciente do poder, a força do espírito permanece sempre potencial, sempre pronta, porque ele não a está dirigindo conscientemente. A recente irrupção em nossa cultura da magia negra e o aumento do interesse por estas atividades de feiticeiros e bruxas indicam que precisamos abranger o irracional com abordagens mais abertas e liberar estas energias contidas.                   

No baralho suíço, o Louco é denominado Le Mat, que significa literalmente “o obtuso”, em outro antigo baralho era representado como um bobo da corte gigante. Seu título era “o Louco de Deus”. O termo foi também usado para os idiotas, para os loucos inofensivos e para os epilépticos graves, todos sendo considerados como estando em contato com uma sabedoria maior, justamente por estarem fora de contato com o resto de nós. Muitas vezes os bobos da corte eram, na verdade, retardados mentais. Obtusos em questões de intelecto, acreditava-se que tivessem um relacionamento especial com o espírito. Considerados afetuosamente como os “amigos de Deus”, tais loucos eram tratados e queridos pela sociedade. Este tipo de personagem denominado de figura religiosa arquetípica, é comumente associado à função inferior, termo junguiano para um aspecto pouco desenvolvido da psique, uma parte da personalidade ou mesmo da humanidade, que ficou para trás e por tal motivo, ainda tem a inteireza da natureza. Ainda existem vestígios deste comportamento, no interior, entre as pessoas do campo, onde a comunidade sustenta um “idiota da aldeia”, seu protegido. Entretanto, nas comunidades ditas mais “civilizadas”, os grandes centros não toleram facilmente tais aberrações da conduta “normal”, e essas pessoas são comumente trancafiadas em instituições.

A insanidade é uma condição do espírito humano muito temida hoje em dia. O crescimento do consumo de tóxicos legais e ilegais como forma de revolta contra antigas convenções da sociedade em busca de liberdade resulta num maior aprisionamento do espírito ao vício, outra forma de uma mesma questão, isto é, a falta de liberdade do ser. Doenças mentais tem aumentado de forma alarmante em nossa sociedade. O stress, a luta pela sobrevivência, a perda de valores morais, coloca o homem sem fé no caminho da psicose. Ironicamente o que mais temíamos parece ser a grande questão moderna, isto é, como manter nossa sanidade perante as mudanças vertiginosas ocorridas no terceiro milênio.

A conexão do Louco com seu lado instintual tem o poder não só de salvá-lo, mas também de salvar toda a humanidade, pois personifica o poder redentor da simplicidade acrescida da fé. Como todos os Loucos, foi tocado pela mão de Deus, pois o caminho da verdadeira sanidade passa através da infantilidade e loucura. O homem necessita voltar às suas origens, pessoais e raciais, e reaprender as verdades da imaginação. Nessa difícil tarefa seus instrutores são a criança, recém ingressa no mundo racional do tempo e do espaço, e o louco, que justamente escapou dele. Somente os dois estão libertos das pressões diárias, o impacto condicionante dos sentidos externos, que oprimem a maioria da humanidade. Nesta jornada este curioso par viaja célere por distâncias longas e solitárias, às vezes recolhendo e trazendo de volta os lauréis dourados na floresta mágica pela qual vagueou.

Deus tocou o louco de muitas maneiras. Antigamente as deformidades físicas eram consideradas marca especial do Senhor. Assim anões, corcundas e coxos eram freqüentemente escolhidos como bobos da corte ou de casas reais. Muitos pais ambiciosos criavam tais deformações por meio de amarras e outros expedientes dolorosos, de maneira que seus filhos pudessem pretender os cobiçados cargos. Independente de suas condições, naturais ou impostas, muitas vezes revelavam-se seres humanos de profundidade e sabedoria incomuns. A obrigatória exclusão da vida comum imposta pelas deficiências físicas e pela sociedade evocavam através da solidão e do sofrimento, revelar recursos imensuráveis no seu interior pessoal. Seja ele bobo da corte, embusteiro, ou palhaço da circo, é sempre retratado nas estórias embalado na tristeza e na solidão em oposição ao ser humano médio. De suas mazelas terrenas constrói sua dignidade humana, transcendendo assim seu sofrimento pessoal.

No Tarô de Marselha, o Louco tem número zero, fato relevante, pois o número característico de cada carta estabelece seu caráter e destino. Os números traduzem a eterna realidade, que transcende idiomas e distâncias geográficas. São arquétipos que interpretam as inter-relações de todas as coisas, em todos os planos. Diferente das palavras que expressam as idéias humanas, os números expressam as realidades de Deus.

O conceito matemático do zero foi descoberto pelos maias mais de mil anos antes dos europeus. Representado por uma concha fechada, lembrando a posição fetal no útero, o zero representava a desintegração da semente do milho que precede a aparição do germe e simboliza a regeneração cíclica porque representa a passagem de uma vida a outra, o ponto morto de onde partem os números ascendentes, como o início do desenvolvimento de uma nova vida. Só apareceu na Europa a partir do séc. XII. Base do sistema decimal, filosoficamente concretizou o incrível paradoxo de que o “nada” é realmente alguma coisa, ocupa espaço, possui valor e poder. Como zero, o grande vazio, desta maneira a magia do Louco pode transformar o um em um milhão, não expressa nada e ao mesmo tempo contém tudo. Um círculo com um ponto no centro é o sinal universal para indicar o Sol, fonte de todo o calor, de toda a luz, de toda a força, representação do ser manifestado. O Hieróglifo egípcio correspondente também representa o Ovo do Mundo, de cujo centro fértil continua provir toda a Criação. É fácil perceber que o emblema do Louco se tornou o símbolo da divindade manifestada, desde o caos, ou vazio primevo, do qual surgiram o Kosmos e todos e os seus dez mil seres. Tem sido ligado pela Cabala ao En Soph, ou Luz Ilimitada, principio ativo da existência antes de sua manifestação na matéria – o nada, do qual provem todas as coisas.

Contorno gráfico da esfera, o zero se relaciona ao simbolismo da taça, vaso, ou cofre dos contos, onde se encerra um príncipe ou um herói, imagem do vaso filosófico da iniciação hermética. Representa as potencialidades, o embrião. Torna-se assim um símbolo maternal. Representa o ventre tranqüilo onde todos estivemos encerrados antes do conhecimento dos opostos  e das duras realidades da consciência que passamos a perceber após o nascimento.

Acreditava-se que um círculo mágico traçado no solo mantinha afastado os maus espíritos e protegia o mago em seu interior, concentrando suas energias nos seus limites, que ele não transporá antes de algumas conjurações. Na China, um círculo de cal é inscrito em torno da fogueira onde se queimam os demônios encerrados numa tigela, sem poderem escapar. O círculo expressa a circulação vital do Ch’i taoísta. O grande círculo ou  Tai Chi com as manifestações do Yin-Yang em perpétua evolução, movimentos circulares vitais onde micro e macro cosmo processam suas energias, em constante mutação. A morfologia planetária, o grande domo celeste, o ciclo das estações, a circulação sangüínea humana, o desenvolvimento dos ciclos biológicos são todos fenômenos circulares da natureza de Tao. Como observou Lao Tsé, no vazio das estruturas encontramos sua utilidade, modelando vasos ou construindo casas, são os espaços vazios que definem sua serventia. Conectar com o grande vazio é o objetivo da maioria das práticas de meditação existentes. Desta forma, utilizando várias técnicas respiratórias podemos fazer contato com o silêncio primordial  em busca da semente universal existente em cada um de nós e proceder os câmbios necessários. O círculo abstrato também aparece na pintura zen, onde representa o esclarecimento, a iluminação, simbolizando a perfeição humana.

Símbolo da perfeição para o Islamismo, expressão do que não tem começo nem fim, o círculo simboliza a eternidade representada pela serpente (emblema da vida) que morde a própria cauda, o Uroboros, cuja divisa é Um, o tudo, substância universal rarefeita até a imperceptibilidade para constituir a essência intima das coisas, o fundamento imaterial de toda materialidade. A forma circular representa o estado original da natureza inconsciente, o ventre primevo antes da criação dos opostos, sua união, situação  desejada pelo herói no fim da sua jornada.

Símbolizando o si-mesmo (self), o círculo (ou esfera) expressa a totalidade da psique (o próprio Platão descreveu a psique como uma esfera) em todos os seus aspectos, incluindo o relacionamento entre o homem e a natureza. Não importa se o símbolo do círculo está presente na maioria das antigas religiões humanas, em mitos ou em sonhos, nas mandalas feitas por monges, na arquitetura humana em todo o planeta ou nos conceitos planetários dos primeiros observadores da mecânica celeste, ele indica sempre o mais importante aspecto da vida – sua extrema e integral totalização.

O Louco pode representar um fator redentor dentro de nós mesmos, nos impelindo para a individuação. É nossa faceta, ainda que inocente, que busca o autoconhecimento, arriscando em experiências aparentemente insensatas, que mais tarde reconhecemos fundamentais para mudanças de velhos paradigmas. Jung definiu o “ego” como “centro da consciência”. O “eu” foi o termo que usou para significar  o centro de toda a psique, um centro de percepção e estabilidade ampliadas. O “eu” não é uma coisa que criamos. O “eu” está lá desde o princípio. O “ego”, pode se dizer assim, é feito – mas o “eu” é dado. Existe em nosso nascimento – antes do nosso nascimento e depois da nossa morte. Está sempre conosco, esperando que achemos o Caminho de Casa, e no entanto, nos instando que continuemos a jornada, pois não há como voltar. Nossa viagem pela vida, como a do Louco é circular. O Círculo é o simbolo do “eu” e indica no sonho o fim do processo de individuação, da evolução da personalidade para sua unidade. Como diz Jung: “O ego está para o eu como o movido está para o motor, ou como o objeto está para o sujeito...O eu, como o inconsciente, é um a priori existente, do qual evolui o ego. É, por assim dizer, uma prefiguração inconsciente do ego. Não sou eu quem me crio a mim mesmo, antes aconteço para mim mesmo”.

LXXI – Loucura











Quem sabe que não sabe nada é um sábio.
Quem pretende saber o incogniscível está louco.
E quem reconhece a loucura como loucura não é louco.
O sábio prudente não é um louco.
Porque ele reconhece a loucura como loucura
dela se preservando.
Logo não pode estar louco.

Reconhecendo nossa própria ignorância, evitamos os bloqueios do excessivo conhecimento, e a ilusão do ego e garantimos assim nossa saúde mental. Não conhecer e pensar que conhece é uma séria doença mental, nada há de pior neste tipo de ignorância. O sábio está livre da doença mental do homem comum pois compreende sua ignorância e a lamenta.     

 

         

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